Votação na Câmara de Caldas Novas é marcada por questões religiosas

Depois comparar mulheres a piranhas, vereador Rodrigo Lima faz discurso que pode ser considerado de intolerância religiosa


Bárbara Zaiden

Do Mais Goiás | Em: 08/12/2018 às 13:09:08


Câmara Municipal de Caldas Novas (Foto: Reprodução)
Câmara Municipal de Caldas Novas (Foto: Reprodução)

A votação para eleger a Mesa Diretiva da Câmara Municipal de Caldas foi marcada por questões religiosas envolvendo umbandistas e evangélicos. A votação ocorreu na última sexta-feira (7) e foi eleito presidente Geraldo Pimenta (PP).

O caso veio à tona com o discurso do vereador Rodrigo Lima (PR), que disputava a vice-presidência ao lado de Rafael Moraes (PTB). A fala do republicano carrega um tom de intolerância contra religiões de matriz africana. Em 2017, ele já havia se envolvido em outra polêmica, ao comparar as mulheres da cidade a piranhas.

“Talvez o erro principal do Rafael Moraes foi ter atrás de um voto, que ele precisava para ganhar a eleição, dentro de um Centro de Macumba. É triste, é dolorido, é chato a gente dizer isso aqui no plenário”, afirmou o vereador na última sexta-feira. E continua: “se ele tivesse ido atrás de pessoas que têm fé em Deus e sabem que só Deus pode abençoar a nossa cidade para que as coisas possam melhorar”.

Ao Mais Goiás, Rodrigo, que é evangélico, nega as acusações de preconceito. “Nunca existiu nem existe nenhum tipo de intolerância religiosa”, disse. Ele ainda explica que condena a prática da “macumba, sacrifícios de animais”.

O discurso dele é uma referência a outro parlamentar: Hudson Godoy (MDB), é umbandista, vinculado ao Centro Espírita Amor e Ação. Ele é acusado por Rodrigo de traição, pois teria garantido apoio a Moraes e votado em
Pimenta.

“Eu confesso que, de imediato, me assustou. A gente está no plenário, discutindo política, e de repente vira para religião da forma como foi. A gente não espera. Tanto é que eu não fiquei até o final, eu me levantei e fui embora”, afirma o emedebista.

Hudson ainda disse que, quando as sessões da Casa forem retomadas, no próximo ano, ele vai falar sobre intolerância religiosa e rebater o discurso de Rodrigo. “Eu acredito que, independente da religião, deve ser respeitada. Eu vejo como um ataque no momento de desespero”.

Assista ao vídeo do discurso:

Apoio político

“A minha fala foi relacionada ao vereador Hudson Godoy, que havia prometido votos. Ele não manteve o voto no plenário e traiu o vereador Rafael Morais”, afirma Rodrigo. E completa, com mais uma acusação: “lamento as pessoas querem levar por esse lado. Mas isso, na verdade, é um movimento orquestrado pela irmã do prefeito, que eu faço oposição na câmara de Caldas Novas”.

A irmã, a quem ele se refere, é mãe Flô, sacerdotisa do mesmo centro do qual faz parte o vereador Hudson. A instituição se manifestou nas redes sociais após o discurso. Nos comentários, a indignação dos internautas é notável. Várias pessoas o acusam de ter se aproveitado do apoio político do centro religioso para ser eleito em 2012.

Mãe Flô confirma: “ele foi várias vezes, frequentou o centro, ocupou o altar, o microfone, em noites em que o Centro é frequentado por 180 pessoas”. Segundo ela, o republicano havia prometido apoio aos projetos sociais desenvolvidos junto a famílias carentes. Mas, depois de ser eleito, nunca mais teria retornado.

Rodrigo rebate, afirma que ajudou em diversos almoços e que, agora, segue com o trabalho social próprio, principalmente no programa de televisão que apresenta em canal local. E que se converteu à religião evangélica depois do pleito de 2012 e, por isso, deixou de frequentar a umbanda.

“O peso maior é o fato de ele já ter frequentado a nossa casa, ele conhece a nossa índole. O que agravou o sentimento, causou repudia a quem frequenta a Casa, foi que eles estiveram sentados numa cadeira, assistindo ele pedir voto”, explica a sacerdotisa.

Pedidos

Mãe Flô solicitou à equipe do Mais Goiás que ressaltasse que o Centro Espírita Amor e Ação existe há vinte anos e faz um trabalho social de relevância na comunidade de Caldas Novas. E ainda: que o mandato de Hudson não é influenciado nem por ela nem por outros membros da religião, apesar de ele ser ligado à umbanda.

Já o vereador Rodrigo, pediu que fosse citado um trecho da bíblia, publicado no Livro Levicos: “não recorram aos médiuns nem busquem a quem consulta espíritos, pois vocês serão contaminados por eles”. E finaliza: “mesmo sendo evangélico, eu amo os espíritas”.