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Vale Tudo, novela mais memorável da TV brasileira, estreia no Globoplay

Trama trouxe amores, disputa pelo poder e a premissa de até onde vale ser honesto no Brasil. Folhetim inovou ao não punir vilões e trazer duas das grandes vilãs da teledramaturgia brasileira: Odete Roitman e Maria de Fátima


Joao Paulo Alexandre
Do Mais Goiás | Em: 19/07/2020 às 18:51:34

Odete Roitman é a maior vilã de todos os tempos (Foto: divulgação/Internet)
Odete Roitman é a maior vilã de todos os tempos (Foto: divulgação/Internet)

Até onde vale a pena ser honesto num país marcado pela corrupção? Esta é a premissa que permeia o enredo de uma das novelas mais atemporais da televisão brasileira: Vale Tudo. Originalmente, a trama escrita por Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères, foi exibida pela Rede Globo entre 16 de maio de 1988 a 6 de janeiro de 1989 na faixa das oito. Agora, a novela, que mesmo após 32 anos da sua exibição original traz assuntos tão atuais, chega à Globoplay neste domingo (19).

A novela caiu na graça do público ao trazer personagens marcantes como a batalhadora Raquel (Regina Duarte), o ambicioso Ivan (Antônio Fagundes), o bondoso Afonso (Cássio Gabus Mendes), a alcoólatra Heleninha (Renata Sorrah), a sensata Celina (Natália Timberg) e o combo master de vilãs da teledramaturgia brasileira: Maria de Fátima (Glória Pires) e Odete Roitman (Beatriz Segall).

Novela marca um bombo de vilões numa trama que traz um discurso ético-moral (foto: reprodução)

Ao todo, foram 204 capítulos que mostraram os conflitos entre honestidade e falta de ética em meio de alguns momentos históricos pelos quais o Brasil passava. Com isso, a novela caiu rapidamente no gosto do público. O sucesso foi tamanho que a pergunta: “quem matou Odete Roitman?” ficou famosa, saiu da telinha e virou pauta de várias rodas de conversas pelo país. Teve até promoção para quem acertasse o nome do assassino.

O sucesso de Vale Tudo pode ser traduzido em números. A trama teve média geral de 58 pontos, isso colocou como a 8ª novela mais vista da história da Rede Globo. No capítulo em que Odete Roitman é morta, a audiência foi de 81 pontos. E isso era véspera de Natal de 1988. Esses números são impossíveis nos dias atuais.

A trama também acertou na trilha sonora. A abertura teve a faixa Brasil, escrita por Cazuza, Nilo Romero e George Israel, e sendo interpretada por Gal Costa. Um tiro certeiro, já que a letra da canção retrata muito bem a mensagem da novela.

A novela também inovou ao não punir os grandes vilões da trama. Maria de Fátima termina a trama aplicando um novo golpe, com ajuda de César (Carlos Alberto Riccelli), fora do país. Já Marco Aurélio (Reginaldo Faria), que conseguiu desviar US$ 800 mil da fortuna de Odete, foge do país e manda uma banana pro Brasil. Odete foi a única que “pagou pelos pecados” ao ser assassinada.

Mas não é bem assim. E você vai entender o por quê.

A novela também foi marcada pela censura. A trama contava com um casal lésbico protagonizado por Cristina Prochaska e Lala Deheinzelin. Vários diálogos entre Laís e Cecília, as respectivas personagens, tiveram de ser reescritos, depois que foi vetada a cena em que as duas contavam a Heleninha (Renata Sorrah) sobre os preconceitos de que eram vítimas por causa do relacionamento. Não sabe se estava previsto, mas Cecília morre em um acidente de carro e deixa os bens para Laís. Daí inicia um novo confronto com Marco Aurélio, já que ele era irmão de Cecília.

Trama central de Vale Tudo

A inversão de valores começa com o embate entre mãe e filha: Raquel e Maria de Fátima. A primeira herdou todas as virtudes de um ser humano que lhe foi passada pelo pai Salvador (Sebastião Vasconcellos): era bondosa, íntegra, bom caráter e acredita que o trabalho é a única forma de edificar o homem. Totalmente ao oposto, Maria de Fátima é inescrupulosa e faz de tudo para sair da pobreza, condição à qual tem horror. Com isso, ela acredita que a única forma para isso é casar-se com um homem rico.

Para galgar este objetivo, a personagem de Glória Pires dá um golpe na própria mãe. Ela vende a casa que o avô tinha deixado de herança em Foz do Iguaçu (PR) e foge para o Rio de Janeiro em busca de se tornar um modelo. Em terras cariocas, a vilã é recebida por Solange (Lídia Brondi). Esta por sua vez, é casada com Afonso Roitman, filho da poderosa Odete Roitman. Esta vilã é uma típica capricorniana. Rica e soberba, gosta de manipular a vida dos filhos, maltrata os funcionários e se acha melhor que todo mundo.

Raquel vai atrás da filha na cidade maravilhosa e se choca ainda mais com o que encontra. Maria de Fátima a despreza, a chama de pobre e a humilha bastante. Batalhadora, ela começa a ganhar a vida vendendo sanduíches na praia e, assim, consegue se tornar dona de uma rede de restaurantes: a Paladar.

Maria de Fátima se alia ao mau-caráter César (Carlos Alberto Riccelli), que a estimula a seduzir Afonso. A ordinária, destinada a conseguir o quer, faz um trato com o Odete. Poderia ter acesso à fortuna do filho após dois anos de casada e, em troca, separaria a mãe de Afonso. E assim ela fez. Maria de Fátima foi capaz de roubar uma mala de dólares que a mãe e Ivan tinham encontrado e deixou Raquel acreditar que quem se apossou da fortuna foi o amado.

Porém, Maria de Fátima fica desamparada após Odete descobrir o romance com César. A matriarca era apaixonada pelo bon vivant e fazia de tudo para viver esse amor. Agora você consegue entender que esse foi o maior castigo da vilã? Foi a própria Beatriz Segall que pontuou que esse foi o maior sofrimento que a personagem viveu dentro da trama. Maria vai atrás da mãe, mas Raquel a despreza por achar que a filha nada mudou. E errada ela não estava.

Quem matou Odete Roitman?

A clássica pergunta durou 13 capítulos de mistérios. Rodas de conversas em todos os cantos do país indagavam a questão para identificar o assassino da grande vilã da trama. Uma empresa de alimentos fez um concurso para premiar quem acertasse.

Num momento em que não tinha internet, era mais difícil ter algum tipo de spoiller de quem seria o assassino. Por isso, uma reportagem do Fantástico mostrou que vários veículos de imprensa foram à TV Globo para tentar ter uma pista de quem seria. Para não vazar nenhum detalhe, a cena do disparo que foi ao ar foi gravada no dia do último capítulo e editada poucas horas antes de ir ao ar. Nem os próprios atores sabiam quem era o assassino. Cinco versões diferentes foram gravadas para despistar a curiosidade.

No final, foi revelado que a assassina era Leila (Cássia Kis) e que Odete foi morta por engano. Leila pensava que atirara em Maria de Fátima, acreditando que a mulher tinha se tornando amante de Marco Aurélio. A personagem de Beatriz Segall foi tirar satisfação com o ex-genro após descobrir que ele quem teria provocado o desvio de US$ 800 mil. Morreu no estilo “lugar errado, na hora errada”.

Curiosidades

  • Beatriz Segall contou em 2008 que, com 20 anos após a exibição original, as pessoas ainda a chamavam de Odete Roitman. A personagem é considerada a maior vilã da história da TV brasileira.
  • Maria de Fátima foi considerada a “filha mais ingrata da TV brasileira”. A vilã é tão marcante como a gêmea má Raquel, de Mulheres de Areia (1993).
  • Vale Tudo marcou também a estreia dos atores Marcello Novaes, Otavio Muller e Flávia Monteiro na Globo.
  • A novela foi exibida em mais de 30 países, entre os quais Alemanha, Angola, Bélgica, Canadá, Cuba, Espanha, Estados Unidos, Itália, Peru, Polônia, Turquia e Venezuela.

  • A trama foi reapresentada entre maio e novembro de 1992, em Vale a Pena Ver de Novo. Em 2010, Vale Tudo foi reprisada no Viva, veiculado na TV fechada, e voltou a fazer enorme sucesso, apesar do horário em que era exibida: de segunda a sexta, às 0h45. Em 2018, em razão dos 30 anos da trama, ela foi novamente reexibida no Viva.
  • Em 2002, a Globo e a Telemundo, braço hispânico da rede americana NBC, realizaram em coprodução o remake da novela. Adaptada por Yves Dumont, Vale Todo (como foi chamada a nova versão) teve direção-geral de Wolf Maya e um elenco de língua hispânica. Foi a primeira produção da Globo voltada exclusivamente para o mercado externo. Quem foi alçada a posto da protogonista Raquel foi Itatí Cantoral, a eterna Soraya Montenegro, vilã de Maria do Bairro. Apesar disso, a trama não fez tanto sucesso como a versão brasileira.