Covid-19

UFG desenvolve teste que detecta vírus da covid-19 pela saliva

Similar ao teste PCR, o novo teste possui um custo menor e mais facilidade, segundo pesquisadores


Larissa Feitosa
Do Mais Goiás | Em: 23/10/2020 às 14:26:57

Teste realizado no dia 2 de outubro, em funcionários da CMTC (Foto: Reprodução CMTC)
Teste realizado no dia 2 de outubro, em funcionários da CMTC (Foto: Reprodução CMTC)

Pesquisadores da Universidade Federal de Goiás (UFG) desenvolvem um teste que identifica o vírus causador da covid-19 por meio da saliva. Os primeiros testes foram realizados no início do mês de outubro, em 85 funcionários da Companhia Metropolitana de Transportes Coletivos (CMTC) e, segundo os pesquisadores, foram eficazes.

O novo teste recebeu o nome de RT-Lamp e é similar ao exame PCR, considerado o mais seguro no momento. Segundo os pesquisadores, o RT-Lamp é um teste molecular e, diferente de um sorológico, ele não busca identificar se a pessoa desenvolveu anticorpos, mas sim se há vírus circulantes no corpo.

Segundo a professora e coordenadora da pesquisa, Gabriela Duarte, é possível diagnosticar a pessoa já no primeiro dia de sintoma, o que agilizará o isolamento do paciente e evitará a contaminação de mais pessoas.

“Esse teste, assim como o PCR, amplifica o material genético do vírus em milhões de cópias, que só foram produzidas porque havia a existência do vírus ali. Diferente de um teste sorológico por exemplo, que detecta após 10 dias se o paciente desenvolveu anticorpos. Quando ele descobre já até se curou, mas contaminou várias pessoas”.

Baixo custo

De acordo com a coordenadora, as vantagens da nova modalidade de teste são a simplicidade, rapidez nos resultados e baixo custo. “No PCR o processo é feito numa máquina de custo alto, que exige estrutura dos laboratórios. Isso limita um pouco. O teste que a gente está desenvolvendo não depende de uma máquina, o que torna o processo mais simples e mais barato, qualquer laboratório consegue fazer”, explica Gabriela.

A técnica é, segundo pesquisadores, estudada há cerca de 6 anos para outros vírus, como a dengue e chikungunya.

A pesquisadora chama atenção para a importância de existirem mais laboratórios realizando testes. “Isso democratiza o acesso, é importante principalmente para países pobres como o nosso, que não é todo lugar que tem estrutura e equipamentos avançados”, defende.

Além dos exames realizados em colaboradores da CMTC, foram testados também, funcionários da Comurg. As escolhas destes grupos, segundo a coordenadora, é devido a alta exposição no dia-a-dia. “Esse pessoal não parou desde o início da pandemia, são grupos vulneráveis que precisam de uma atenção especial”, explica ela. Outros grupos de trabalhadores ainda serão testados.

O procedimento é realizado por uma equipe de enfermagem, que atua em parceria com a pesquisa pelo Projeto Tenda Triagem, da Faculdade de Enfermagem da UFG.

Outras facilidades

Para entender o resultado do exame, os pesquisadores defendem outra facilidade. O Lamp permite uma identificação visual com mudanças de cores, sendo simples de identificar um resultado positivo para presença do vírus. “A gente utiliza reagentes diferentes do PCR. No início da pandemia, alguns lugares não conseguiam testar porque não tinham mais reagentes disponíveis”, detalha a Gabriela.

Além de Gabriela Duarte, que faz parte do Instituto de Química da UFG, também participam do projeto alunos de pós graduação e iniciação científica, a professora do Instituto de Ciências Biológicas, Elisângela Lacerda e uma pós-doutoranda.

O desenvolvimento da pesquisa, que acontece desde março deste ano, foi financiado pelo Ministério Público do Trabalho e TRT18 e também contou com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (Fapeg) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

O RT-Lamp ainda está em validação. Durante o processo de análise das amostras coletadas, os pesquisadores comparam os resultados do teste feito na saliva, com os resultados obtidos em PCR.

Falso negativo

A professora explicou também a razão pela qual algumas pessoas fazem o teste e, mesmo contaminadas, recebem diagnóstico negativo, os chamados falsos negativos. Gabriela afirma que isso está relacionado ao tempo de infecção do paciente, e não com o tipo de exame. “Ele pode acontecer em qualquer teste, pois tudo depende do tempo de infecção. Se uma pessoas foi infectada hoje e faz um teste hoje, provavelmente nenhum teste existente vai detectar” explica.

Isso acontece porque, de acordo com estudos, o vírus tem um período de incubação, em que ele irá entrar no organismo, infectar as células e se replicar. Apenas com alguns dias é que a pessoa infectada irá desenvolver sintomas, sendo possível identificar o vírus no corpo.

Por que testar?

(Foto: Reuters/Wolfgang Rattay/Agência Brasil)

Pesquisadores defendem que quanto mais pessoas sendo testadas, melhor. “É importante porque o vírus ainda não sumiu, a vacina ainda não chegou. As pessoas continuam sendo contaminadas e somente após uma vacinação em massa, talvez, a gente consiga começar a tirar esse vírus da nossa vida”, defende a coordenadora da pesquisa.

De acordo com a Secretaria Municipal de Saúde, a capital goiana já registrou mais de 66 mil casos confirmados e mais de 1.600 mortes por covid-19. O Brasil tem mais de 155 mil vítimas fatais.