FolhaPress

UE faz mais por venezuelanos do que latinos, diz ex-presidente boliviano

Jorge Quiroga fala que EUA e a Europa estão mais dispostos a ajudar na crise do que Brasil e outros vizinhos

Há um mito de que sanção ao petróleo seria prejudicial ao povo venezuelano. Mentira. Os lucros desse petróleo são desviados, não vão para a população
Para o ex-presidente boliviano Jorge “Tuto” Quiroga, que governou seu país em 2001 e 2002 e hoje apoia a oposição venezuelana, “a União Europeia está fazendo mais pressão para enfrentar a crise na Venezuela do que os latino-americanos, e isso deveria mudar”.
Em entrevista em Lima, Quiroga, 57, explicou o documento que os opositores à ditadura de Nicolás Maduro entregaram à Cúpula das Américas para debate entre os líderes presentes.
Trata-se de um conjunto de propostas consensuais entre ele e líderes da oposição venezuelana como Antonio Ledezma, David Smolansky e Julio Borges, presentes em Lima, e María Corina Machado e Leopoldo López, impedidos de deixar a Venezuela.

Pergunta – O que é o documento?
Jorge Quiroga – São três pacotes [na proposta entregue]. O primeiro inclui sanções e bloqueios de bens não apenas de funcionários do governo de Maduro, mas também de seus familiares, amigos e testas-de-ferro. Há ainda a expulsão de familiares que estejam usufruindo dos bens desses funcionários, como filhos estudando em universidades em outros países. Também incluímos aí cortar relações diplomáticas e tirar todos os embaixadores que estão na Venezuela antes de 20 de maio.

Por que antes das eleições? Alguns países já disseram que não as vão reconhecer.
– Imagine que estamos na Medellín dos anos 1980 e eu fico sabendo que Pablo Escobar manda matar você no dia 10. Você acha correto que eu te diga: ‘veja, no dia 11 vou dizer que fui contra?’ As coisas têm de ser feitas agora, antes que a tragédia aconteça.

E o segundo pacote?
– Seria relacionado à questão humanitária. É necessária uma intervenção, quer Maduro esteja de acordo com ela ou não, por meio de um órgão como o Comitê Internacional da Cruz Vermelha ou outro, respaldado por organismos internacionais. Abrir um corredor humanitário e levar comida e remédios.
A Venezuela passou de exportador de petróleo a exportador de sarampo. Isso não pode ocorrer com outras doenças. Precisamos parar isso.
Ainda neste pacote, está a questão migratória, que tem de ser mais bem organizada.
Nossa proposta é algo como o TPS oferecido pelos EUA a habitantes de países centro-americanos depois das tragédias naturais na região [Temporary Protected Status, que não garante a permanência definitiva mas protege da extradição e reserva direitos].
O TPS seria concedido a refugiados venezuelanos por vários países, latino-americanos e europeus, e incluiriam um esquema para que os refugiados pudessem se matricular em escolas e universidades equivalentes às que frequentavam, bem como serem inseridos no mercado de trabalho. Teria de ser um compromisso internacional.
Seguramente o Brasil e a Colômbia teriam de receber mais refugiados, porque estão mais perto, mas sugerimos um TPS amplo, que inclua quem puder ajudar, seja de que continente for.

Chegamos ao terceiro ponto.
– É pedir uma atuação mais efetiva da OEA e de outros organismos internacionais e fazer com que a denúncia que está sendo preparada para o Tribunal Penal Internacional seja levada adiante por um ou mais Estados. A denúncia está praticamente pronta, mas um ou mais Estados têm de apresentá-la formalmente.
Aqui também cabe repensar a questão do petróleo. Há um mito de que impor sanção ao petróleo seria prejudicial ao povo venezuelano. Isso é mentira. O petróleo já foi roubado por esse governo. E os lucros estão sendo desviados pela cleptocracia, não vão para a população.

O sr. acha que a União Europeia está adiante da América Latina em tomar medidas?
– Sim, até os suíços, os mais neutros do mundo, estão pedindo sanções. Estamos atrás, e isso deveria mudar. Temos de colocar em andamento um plano de isolamento internacional já, e não esperar as eleições, que, ninguém tem a menor dúvida, vão resultar no endurecimento da ditadura.

Como vê a tentativa de Evo Morales de tentar um quarto mandato na Bolívia?
– É absurdo. Ele está usando a cláusula da Convenção Interamericana de Direitos Humanos que diz que qualquer cidadão pode se candidatar à Presidência. Estamos trabalhando para que a Justiça e os organismos internacionais impeçam. Isso já foi usado na América Central, e não duvido que Rafael Correa tente [no Equador]. Os órgãos internacionais têm de estar atentos.