Memória

Tragédia no colégio Goyases completa um ano neste sábado

Familiares relatam como convivem com as mudanças e saudades, e denunciam falta de amparo por parte da escola e da família do atirador


Kayque Juliano
Do Mais Goiás | Em: 20/10/2018 às 07:41:29

 (Foto: Karla Araujo/Mais Goiás)
(Foto: Karla Araujo/Mais Goiás)

Era manhã do dia 20 de Outubro de 2017, quando um adolescente de 14 anos, aluno do oitavo ano do ensino fundamental da escola particular Goyases, no Conjunto Riviera, em Goiânia, sacou uma pistola .40, que pertencia aos pais militares e atirou contra os colegas de sala. Os estudantes João Vitor Gomes e João Pedro Calembo, na ocasião com 13 anos, morreram na hora. Outros quatro alunos, sendo um menino e três meninas, também foram alvejados e sobreviveram, entre eles, Isadora de Morais, de 15 anos, que teve ferimentos mais graves e ficou paraplégica. Um ano após a tragédia a vida dos familiares é marcada por saudades, transformações e perseverança.

O publicitário e pai de João Pedro Calembo, Leonardo Marcatti, explica que a vida da família teve uma reviravolta após a morte do filho. Hoje, a fé é o principal remédio para amenizar a saudade. Ele acredita que Deus tem sustentado a família o tempo todo e que o apoio dos amigos da igreja também tem sido essencial para superar a tragédia.

“Tudo na nossa vida mudou. Mudamos de casa, agora estamos em um apartamento que nos foi cedido por amigos da igreja. Nossos outros dois filhos, um de nove e o outro de sete, que também estudavam no colégio, tiveram que trocar de escola. Toda a família passa por acompanhamento psicológico”, explica Leonardo.

João Pedro Calembo era o filho mais velho e por isso sempre foi companheiro do pai e o exemplo dos irmãos mais novos. Leonardo recorda dos momentos de alegria que teve com o filho durante visitas a exposições de carros antigos.

“É muito difícil sentar na mesa ao jantar e ver a cadeira dele vazia. A nossa família sempre foi muito unida e sempre tivemos o espírito de equipe. Um tempo atrás meu filho mais novo me perguntou como seria a jornada dele sem o João Pedro. Eu não tive palavras para respondê-lo”, explica o publicitário.

Após o acontecimento que marcou sua vida, Leonardo enfatiza a questão do diálogo entre pais e filhos. Para ele, o olhar mais atento dos pais faz com que eles percebam atitudes que precisam ser mudadas antes que uma tragédia aconteça.

“Hoje as pessoas estão perdendo os valores. Os pais não conversam mais com os filhos, e isso é errado! É preciso acompanhar de perto, é preciso saber o que o seu filho sente, só assim podemos ter mais diálogo e evitar que o pior aconteça”, diz Marcatti

Barbara com o filho João Pedro Calembo, vítima de atentado (Foto: Reprodução)

Milagre

Milagre. Foi essa a palavra utilizada por Isabel Rosa Santos, para falar da filha, Isadora de Morais, de 15 anos. Entre os feridos, a adolescente foi que ficou em estado mais grave. Ela foi alvejada no tórax e o tiro perfurou o pulmão. Após passar 54 dias internada, no dia 13 de dezembro do ano passsado ela recebeu alta. A garota, que ficou paraplégica, passou por uma grande transformação de vida. Para a mãe, além da mudança física, a filha também passa por mudanças psicólogicas para aprender a vivier com as limitações.

“Hoje ela depende de mim para tudo. Para tomar um copo com água, ir ao banheiro, para virar na cama. Isso tudo mexeu muito com todos da família, já que Isadora sempre foi uma menina independente e ativa”, explica Isabel.

A mãe diz que Isadora sempre gostou de dançar e de acompanha-la na academia, atividades que hoje não é mais possível de realizar. Mas apesar das limitações, ela agredece a Deus pela oportunidade de acordar e ver a filha ao seu lado.

“Eu sou muito grata a Deus, sou grata a equipe do Corpo de Bombeiros que realizou o atendimento na minha filha. Eu acredito que todo o trabalho recebido pelos socorristas proporcionou para que ela estivesse com a gente hoje”, agradece a mãe.

Após um ano do acontecimento, Isadora mudou de escola e faz tratamento de fisioteparia e reabilitação. Isabel explica que o retorno para as aulas foi um desafio, já que a adolescente ficou com trauma do tragédia que marcou a sua vida. A mãe explica que o silêncio a incomoda, bem como o excesso de barulho.

Isadora de Morais foi uma das vítimas dos disparos ocorridos na sala de aula do 8º ano do Colégio Goyases. (Foto: Eduardo Castro)

Denúncia

Tanto o pai de João Pedro Calembo, bem como a mãe de Isadora, reforçam que todo o trabalho que tem sido desenvolvido após a tragédia, tanto psicológico como as adqueações de vida, estão sendo realizados por eles mesmos, com a ajuda de amigos e de ações que desenvolvem na comunidade. Eles relatam que não receberam nenhum amparo da escola e nem da família do atirador.

Recentemente, a família de Isadora realizou um bazar para arrecadar dinhero para um tratamento de reabilitação mais específico em São Paulo. Indignados com a falta de amparo, os familiares relataram que estão entrando na Justiça para pedir indenização.

Procurados, o Colégio Goyases apenas informou que continua suas atividades tratando os alunos com amor e carinho. E reforçou que qualquer informação para a imprensa seria repassado por meio do advogado na unidade de ensino. O Mais Goiás entrou em contato com o responsável, mas segundo funcionários do escritório de advocacia, o advogado está no exterior e não respondeu as perguntas.

A equipe de reportagem também tentou falar com a advogada do atirador, mas as ligações não foram atendidas.

O caso

O crime aconteceu em 20 de outubro de 2017, em uma sala de aula do 8º ano do Colégio Goyases, no Conjunto Riviera, em Goiânia. Os tiros disparados por um colega de 14 anos causaram as mortes de João Pedro Calembo e João Vitor Gomes, ambos de 13 anos, e deixaram Isadora e mais três alunos feridos. Filho de um casal de policiais militares, o atirador foi apreendido após o ato e está em um centro de internação para menores infratores.

No dia 28 de novembro a justiça condenou o jovem a três anos de internação, pena máxima prevista pelo ECA, a previsão é que ele seja solto em 2020. O Mais Goiás tentou falar com o delegado que ficou responsável pela investigação do caso, Luiz Gonzaga, mas ele estava de folga e não conseguimos contato.

Culto

Um culto ecumênico foi organizado pela direção do colégio. A missa será às 8h30, na Paróquia Santo Inácio de Loyola, no Conjunto Riviera. A família de Isadora também realizará um ato ecumênico neste sábado (20). O encontro está marcado para às 16 horas na Avenida Liberdade, em frente ao supermercado Bosco, também no Riviera.