REI EMÉRITO

Suspeito de corrupção, rei Juan Carlos vai deixar a Espanha

Monarca que abdicou em favor do filho é alvo de investigação das Justiças suíça e espanhola


Agência O Globo
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Do Agência O Globo | Em: 03/08/2020 às 17:56:12

Juan Carlos em foto de maio de 2019: investigado, rei emérito vai deixar a Espanha
Juan Carlos em foto de maio de 2019: investigado, rei emérito vai deixar a Espanha

O rei emérito da Espanha, Juan Carlos I, de 82 anos, informou nesta segunda-feira ao filho, o rei Felipe VI, que decidiu deixar a Espanha. Em um comunicado divulgado pela Casa Real, Juan Carlos diz que está deixando o país “devido à repercussão pública que certos eventos passados em minha vida privada estão gerando” e que o faz com o objetivo de que o filho possa desempenhar suas funções “com tranquilidade e sossego”. Não foi informado para qual país ele irá.

A decisão ocorre após as investigações iniciadas por promotores suíços e espanhóis sobre supostos fundos de Juan Carlos I em paraísos fiscais. O advogado do rei emérito também divulgou uma declaração em que garante que, apesar de deixar a Espanha, seu cliente está à disposição do Ministério Público para qualquer procedimento ou ação.

A medida ocorre quatro meses depois de Felipe VI retirar a quantia de quase 200 mil euros (R$ 1,2 milhão) anuais que Juan Carlos recebia. O significado era claro: o rei rompia laços com Juan Carlos, que encarnou o estabelecimento da monarquia constitucional no país.

Embora Juan Carlos não seja alvo de processo na Espanha, o vice-primeiro-ministro Pablo Iglesias, do partido de esquerda Podemos, comparou sua saída a uma fuga. “A fuga de Juan Carlos de Bourbon para o exterior é um ato indigno de um ex-chefe de Estado e deixa a monarquia em uma posição muito comprometida”, escreveu Iglesias no Twitter.

Juan Carlos subiu ao trono em 1975 após a morte do general Francisco Franco e era respeitado por seu papel na condução da Espanha da ditadura franquista à democracia. No entanto, sua popularidade caiu nos últimos anos, devido a uma série de escândalos que o levaram a renunciar em 2014.

Os problemas mais recentes do rei emérito começaram no verão de 2018, quando agentes da Polícia Judiciária suíça, enviados pelo promotor Yves Bertossa, chegaram à Espanha para investigar o gerente de fundos Arturo Fasana. Bertossa encontrou duas fundações com contas bancárias na Suíça.

A primeira era a fundação baseada em Liechtenstein Zagatka, pertencente a Álvaro de Orleans, primo distante do rei emérito, que pagou voos particulares de Juan Carlos I e Corinna Larsen, uma empresária alemã que seria amante do rei emérito. A segunda era a fundação panamenha Lucum, cujo primeiro beneficiário era Juan Carlos I e o segundo, Felipe VI.

Quando a notícia foi divulgada em março de 2020, Felipe anunciou que estava desistindo da herança de seu pai. Na Casa Casa Real, foi tomada a decisão de informar o governo e registrar em cartório a renúncia a qualquer dinheiro dessas contas no exterior.

A investigação suíça revelou que em 8 de agosto de 2008 Arturo Fasana depositou na conta da Lucum no banco privado Mirabaud US$ 100 milhões (64,8 milhões de euros na época) vindos do Ministério das Finanças da Arábia Saudita. Quatro anos depois, o dinheiro foi transferido por ordem do então rei para uma conta em Nassau (Bahamas), no banco Gonet & Cie, em nome da empresa  Solare, de Corinna. Bertossa embargou as contas dos suspeitos e abriu um processo secreto de lavagem de dinheiro contra os envolvidos.

O rei emérito não está sendo investigado, embora fontes judiciais suíças não descartem que seja no futuro. As informações enviadas pela Suíça às autoridades judiciais espanholas levantaram dúvidas sobre o comportamento de Juan Carlos após junho de 2014, quando perdeu sua imunidade ao abdicar ao trono.

No início de junho, foi decidido que a Promotoria do Supremo Tribunal assumiria o caso. Esta fase da investigação deve determinar se há indícios suficientes de que Juan Carlos cometeu algum crime desde que deixou o trono. Os investigadores trabalham principalmente com duas suspeitas: lavagem de dinheiro (tentando esconder a origem ilícita do dinheiro) e crime fiscal (uma fraude contra o Tesouro de mais de 120 mil euros, ou R$ 749 mil).