Hugo Oliveira
Do Mais Goiás

Suicídios de adolescentes em Goiás podem ter sido incentivados por grupo de Facebook

Segundo a polícia uma das testemunhas é primo de uma das vítimas e seria sobrevivente de duas tentativas de tirar a própria vida sob influência da comunidade. Investigações estão avançadas, de acordo com delegada

Cinco casos de suicídio entre adolescentes ocorridos em Goiás desde fevereiro podem ter relação com grupo de Facebook denominado The H4ters, termo que, em inglês, significa Os Odiadores. A plataforma online é investigada pela Delegacia de Repressão a Crimes Cibernéticos, que apura a possibilidade de membros terem feito apologia e/ou de algum modo incentivado a iniciativa.

De acordo com a delegada Sabrina Leles, o caso é sigiloso, embora revela que a investigação entrou com pedidos judiciais os quais estão em análise na Justiça. “São documentos sigilosos, só posso dizer que as investigações estão avançadas, temos medidas judiciais e estamos aguardando”.

Segundo a policial, as mortes de Higor Pires Moreira (15) e Gabriel Carrijo Cunha Câmara (13), no último 21 de fevereiro, deram início ao inquérito. “Após o início das investigações já houve outros três casos, um em Montividiu e dois em Rio Verde, que podem ter acontecido por influência do grupo de Facebook. Ao todo são cinco casos que a gente relaciona como provavelmente influenciadas pelo grupo da internet”.

Relação

A relação das ocorrências com o grupo virtual foi reforçada após o depoimento de um primo de Higor, Mikaio Alves Jorge (18), à polícia. “Ele é um sobrevivente de duas tentativas de suicídio por influência do grupo, do qual o primo também fazia parte”, reforça a delegada. À polícia, Mikaio afirmou que a finalidade do grupo era estimular e desafiar seus integrantes a tirarem a própria vida.

Quatro dos administradores do grupo, também menores, são conhecidos por apelidos que usam na rede: Akbar. Segundo Mikaio, a descrição do grupo atribui ao termo o status de “sobrenome”, numa tentativa de apresentar os participantes como membros de uma mesma “família”. “Adicione os ativos do grupo, seu alcance faça novas amizades, aqui somos a sua família então nada mais importante do que adicionar os irmãos (sic)”, diz a descrição

O termo em comum nas apresentações, akbar, pode ser uma referência à frase árabe Allahu Akbar, Deus é grande, que é comumente relacionada a ataques de extremistas religiosos.

Higor

No dia 21/2, Higor pediu à mãe para faltar a aula de inglês. Ela assentiu, mas notou que o jovem estava cambaleante. No quarto do menor, ela encontrou seis cartelas de remédio para pressão alta vazias, mas enquanto telefonava ao marido para solicitar ajuda, o jovem saiu de casa e só foi encontrado no dia seguinte, enforcado na casa de uma vizinha. O imóvel estava desocupado.

Segundo informações da família de Higor, o jovem mudou de comportamento após ingressar o H4ters. “Ficava o dia inteiro no computador e não queria mais sair com os amigos”, revelou o pai Onilton Pires Moreira. A ex-namorada do jovem, Ana Julia, afirmou que Higor se cortava com frequência e comentava que iria se matar.

“H4ters”

O acesso às publicações é exclusivo aos membros do H4ters, mas é possível ter uma ideia do conteúdo compartilhado por meio da descrição e do slogan. Na imagem de capa do grupo é possível notar a frase: “O mundo te deu ódio, apenas o devolva”,

Embora o grupo se afirme com uma plataforma de “humor e memes”, são aceitos apenas “haters”. “Nós não aceitamos moralistas aqui no grupo, se você não curtiu o conteúdo postado nele é só sair”. Não há referências ao suicídio no texto de apresentação.

O grupo possui um código de regras extenso e específico. Uma das normas é não compartilhar itens de cunho racista, religioso e nazista. “Para segurança do grupo é proibido postar fotos zoando racistas/religião/nazismo (sic)”.

Para incluir posts, é preciso antes que o membro interaja com conteúdos de outros participantes. “Antes de qualquer postagem no grupo e necessário tirar alguns vácuos no grupo, comentar e curtir, caso contrario não vamos aprovar seu post (sic)”.

A única referência a suicídio detectada pelo Mais Goiás foi o comentário de um menor em uma publicação feita no perfil de uma das administradoras do grupo, que também é menor. Com 1,2 mil curtidas, o post trata sobre a retomada das atividades da comunidade, e  recebeu o seguinte comentário:  “Tô tentando, se eu n me matar daqui a um tempo, vou ser mais ativo”.