Necessidades

Servidores enfrentam falta de recursos durante negociações com o Estado

Em alguns casos, não há dinheiro para aluguel, remédios e comida; parcelamento da folha é visto com indignação e desconfiança. Entidades e trabalhadores reforçam que qualidade dos serviços em Educação e Segurança serão afetados


Hugo Oliveira
Do Mais Goiás | Em: 18/01/2019 às 13:16:01

PM destaque que não consegue pagar remédios de uso contínuo para a mãe e contas se acumulam (Foto: divulgação)
PM destaque que não consegue pagar remédios de uso contínuo para a mãe e contas se acumulam (Foto: divulgação)

Às 14h desta sexta-feira (18), governo e entidades sindicais dos servidores públicos estaduais se encontrarão na Secretaria da Fazenda (Sefaz) para uma nova tentativa de negociação a respeito do pagamento da folha salarial de dezembro. Porém, enquanto a disputa não gera resultados, a situação financeira crítica do Estado reflete em dificuldades e contas acumuladas entre os trabalhadores. Alguns estão sem dinheiro para aluguel, alimentação, dívidas e até tratamentos médicos. Por isso, funcionários e representantes temem que serviços sejam comprometidos, dada a desmotivação e sentimento de indignação dos profissionais. É o caso de serviços nas áreas de Educação e Segurança Pública.

O professor Thiago Oliveira (34), que ministra aulas em colégio de Aparecida de Goiânia e coordena a Associação de Mobilização dos Professores de Goiás, enfrenta dificuldades em casa. Sem gasolina para ir ao trabalho e sem salário desde 10 de dezembro, ele, atualmente, depende completamente da esposa, professora da rede municipal. “Se não fosse ela, a coisa estaria ainda pior. As dívidas vão se acumulando, temos empréstimos para pagar, mas não há dinheiro. Felizmente, temos comida para nós e nossa filha, mas a situação está complicada”.

Em situação de desespero, ele tentou inclusive seguir a orientação de Ronaldo Caiado para superar as adversidades: pedir compra fiado no comércio. Não deu certo. Assista o vídeo:

Embora esteja difícil para Thiago, na residência de um casal de professores do Estado, o qual não quis ser identificado, está ainda pior. “Não temos ninguém para segurar as pontas dentro de casa. Só temos essa fonte de renda. As contas se acumulam, pegamos empréstimo e nos cobram juros sobre juros. Alimento não está faltando, mas estamos racionando, além de deixarmos pra lá as prestações da casa, que o banco não perdoa, e as contas básicas de água, luz e telefone”, afirma a mulher (41).

Para ela, o sentimento é de “profunda humilhação”. “Estou injuriada, é uma falta de respeito. Trabalhamos normalmente em dezembro, não precisávamos passar por isso. Tomei um calote no meu salário e ainda tenho que ouvir o governador dizer para pedirmos fiado, isso é uma piada!”, exclama.

“Miojo”

Com medicamentos de uso contínuo para comprar e aluguel para pagar, a professora Elenice Dourado (51) se desdobra para não deixar faltar comida para o filho. “Eu sustento a casa sozinha. O pai do meu filho não dá atenção. A situação está calamitosa aqui, por que não consigo pagar as contas. Peguei um dinheiro emprestado, mas não deu para pagar 25% e agora ainda tenho juros para acertar. A dieta está comprometida. Vários dias acabamos comendo miojo”.

Segundo ela, a condição dos servidores da Educação pode comprometer a volta às aulas, programada para segunda-feira (21). “Todo mundo sem receber. Alguns professores ainda dão um jeito, mas 90% dos trabalhadores, que fazem a Educação funcionar, estão em desespero e não devem aparecer”. O Mais Goiás já noticiou o fechamento de escolas e demissão de funcionários da área.

Segurança

Policiais militares (PMs) também são afetados pelos problemas de caixa. No caso de um soldado de 1ª Classe, com salário de R$ 6,2 mil, os compromissos têm sido desonrados. “Eu pago remédios de uso contínuo para minha mãe, que tem Alzheimer, problemas cardíacos e diabetes. Eles custam R$ 750 por mês. Além disso, tenho que pagar R$ 30 por dia de combustível para ir trabalhar e gastar mais R$ 40 diariamente para me alimentar durante o serviço, já que não temos vale transporte ou alimentação. Já avisei meus superiores que em breve, não conseguirei comparecer por falta de dinheiro”.

A situação é ainda pior para soldados de 3ª Classe. Com salários de cerca de R$ 1,8 mil, vários estão com geladeira vazia e esperam, em breve, ter o fornecimento de energia interrompido. O Mais Goiás ouviu um deles, que não quis e identificar. “Estamos passando aqui em casa coisas que jamais esperamos no serviço público. Até esperaria na iniciativa privada, mas o concurso, apesar do salário baixo, deveria nos dar estabilidade. A situação é delicada, está tudo atrasado e vivemos com ajuda de amigos e familiares, que não deixam alimentos faltarem”.

“Geladeira não fica vazia por causa de familiares e amigos,” afirma policial (Foto: divulgação)

A esposa do policial está empregada, mas o vencimento não é suficiente para manter o casal e uma filha. “A conta de energia vai vencer e não temos dinheiro para pagar. O estado vem com uma conversa motivadora, mas nunca nos sentimos tão abandonados. A categoria votou em peso no Caiado por causa da promessa de nos passar para soldados de 1ª Classe. No entanto, não tem dinheiro para pagar o mínimo. Como acreditar? Já lavaram as mãos”.

Negociação

Na quinta-feira (17), depois de afirmar que a situação financeira do estado não comportava negociações, a pasta recuou e abriu um canal de diálogo com as categorias. Porém, a proposta de pagamento apresentada, de parcelamento em seis vezes por camada salarial, não agradou, e o governo rejeitou uma contraproposta sugerida pelos sindicatos, de que o débito de dezembro fosse quitado integralmente em janeiro. Em resposta à negativa, as categorias apresentaram uma nova ideia, para que o pagamento fosse feito em duas parcelas, metade em janeiro e a outra em fevereiro.

A questão, porém, se encontra em análise e deverá ter uma resposta na reunião de logo mais. Outra questão sublinhada pelos trabalhadores é de que servidores com 13° e férias agendados para dezembro, também estão sem os benefícios, o que, por sua vez, aumentaria a quantia a receber do estado. Isso geraria, segundo eles, uma dupla penalização, caso o governo resolva aplicar o referido cronograma. Esta situação também ainda está sendo debatida pela administração.

Secretaria da Fazenda (Sefaz) (Foto: reprodução/Google Street View)

O Mais Goiás não conseguiu contato com o titular da Secretaria de Governo, Ernesto Roller, que assumiu as negociações em nome do governador Ronaldo Caiado. Após a reunião de quinta (17), porém, ele ressaltou que “agora estamos num processo de diálogo e de convergência. De encontrar o ponto comum que atenda aquele binômio necessidade do servidor com a possibilidade do caixa”.

Representantes

De acordo com o presidente do Sindicato dos trabalhadores no Serviço Público do estado de Goiás (Sindipúblico), Nylo Sérgio, a nova reunião deverá ser de trabalho, com objetivo de esmiuçar as contas para chegar numa proposta que venha a atender a capacidade de pagamento do governo e os anseios das categorias. “Parcelar em seis vezes não dá, temos que chegar numa proposta melhor”.

Segundo ele, apesar de ainda não se falar em greve ou paralisação, nas categorias o sentimento é de revolta e indignação. Essa percepção é confirmada por representantes do Sindicato dos Trabalhadores em Educação no Estado de Goiás e na União dos Militares de Goiás (Unimil), entidades segundo as quais, enquanto não se chega em um acordo, pessoas estão passando necessidade.

“Sabemos da existência de problemas de ordem contábil e técnica, por conta do empenho da folha. Temos também clareada a necessidade de aprovação do orçamento na Assembleia, mas não podemos negociar termos de modo a fechar os olhos para o sofrimento da categoria”, afirmou Maria Euzébia, presidente do Sintego.

Presidente da Unimil, Cabo Senna, revela que a situação vai gerar queda no rendimento de policiais. “Não tem como isso não refletir no ânimo do PM. Ontem mesmo precisei pagar cesta básica e contas de um soldado de 3ª Classe que está passando necessidades”.