Crise

Senadora Lúcia Vânia pode deixar PSDB por boatos de traição partidária

A decisão foi tomada por conta de boatos, segundo a senadora espalhados por integrantes da sigla




A senadora Lúcia Vânia (PSDB-GO) anunciou nesta quarta-feira (4/02) que deverá sair do partido, em consequência de desentendimentos sobre a sua participação, como representante da legenda, na Mesa do Senado, para o biênio 2015-2016. A senadora, que responde pela Ouvidoria do Senado, disse que vai analisar a questão jurídica que envolve a decisão, mas que não pretende ingressar de imediato em uma nova legenda.

“Estou analisando uma legenda em que eu possa fazer política de forma mais confortável”, afirmou.

Em entrevista à imprensa, após manifestar desagrado com os fatos que envolveram sua candidatura para a Primeira-Secretaria do Senado, Lúcia Vânia explicou que tomou a decisão em razão de boato de que não teria votado com a bancada do partido na eleição para a Presidência do Senado, no domingo. O PSDB apoiou o senador Luiz Henrique (PMDB-SC), que concorreu contra Renan Calheiros (PMDB-AL), reeleito com apoio da base governista para mais um mandato.

A senadora afirmou “não ter dúvida” de que o boato “saiu do PSDB” e reiterou que cumpriu a orientação da legenda, votando no senador Luiz Henrique (PMDB-SC), apoiado pela oposição.

Visivelmente emocionada, Lúcia Vânia disse que não tem mais motivação para ficar no PSDB, não porque a legenda não tenha aceitado sua indicação à Primeira-Secretaria do Senado, proposta por Renan, mas porque ela se sentiu “massacrada” com o boato de que não teria votado em Luiz Henrique.

“Quando o Renan impôs minha candidatura à Primeira-Secretaria, ele jogou a isca e o Aécio mordeu o anzol. Na verdade, ele podia ter dito: “Olha, eu agradeço a indicação, reconheço o valor da senadora, mas nós vamos discutir isso internamente na bancada”, e não levantar suspeita sobre o meu voto. Você quer coisa pior para um parlamentar que tem 30 anos de vida pública, credibilidade e respeito, ter colocado sob suspeição o seu voto?”, questionou.

Lucia Vânia disse que o PSDB não agiu de forma “justa”, e que o partido não tinha direito de dizer que ela tivesse acordo para assumir cargo na Primeira-Secretaria. A senadora ressaltou que apenas disputava internamente na bancada o direito de ir para o órgão, tendo em vista a experiência na atuação política. Ela observou, porém, que a sua intenção extrapolou a situação interna quando Renan disse que aceitava a sua participação na Mesa.

“Eles [do PSDB] não tinham o direito de fazer isso. Ao longo da minha vida partidária, participei do governo Fernando Henrique Cardoso, todos os programas sociais foram criados por mim. Eu criei a nova política de assistência social do nosso país, não é justo que o nosso partido venha me colocar sob suspeição”, afirmou.

Lucia Vânia disse que já vinha enfrentando “dificuldades de toda ordem” no PSDB, e observou que o partido não deveria expô-la de uma forma “cruel” nesse episódio.

“Sou a única mulher na bancada, tenho tido muitas dificuldades. Não vim aqui para dizer amém. É uma coisa cruel. Eu me comportei da forma mais ética possível. Cheguei ao Renan e disse: “Não vou votar em você porque representamos aqui uma nova fase da oposição. São 51 milhões de votos que o Aécio recebeu, e eu não posso deixá-lo nessa situação””, afirmou.

Lucia Vânia frisou que iria disputar democraticamente o voto do PSDB por um cargo na Primeira-Secretaria, com a possibilidade de ganhar a indicação internamente, mas que desistiu da disputa para não constranger o senador Aécio Neves (PSDB-MG), derrotado nas últimas eleições presidenciais.

“Estava tudo acertado, só que algumas pessoas do partido saíram e começaram a dizer que eu tinha sido retirada da disputa porque eu tinha votado no Renan. Em toda reunião, a gente procura buscar o equilíbrio na situação, mas a forma como foi conduzida, e as pessoas achando que eu votei no Renan, enquanto me comportei da forma mais ética possível. Eu falei com o Renan, e registrei meu voto diante de Luiz Henrique”, afirmou.

Lúcia Vânia afirmou que a sua eventual participação na Mesa não deveria ser motivo para embate, e que esta seria apenas uma alternativa a mais para quem já participa de forma assídua dos trabalhos da Casa.

“Eu estou vindo da Ouvidoria, que dá muito trabalho. Eu não queria a Primeira-Secretaria. Eu queria uma posição na Mesa. Se não fosse uma posição na Mesa, uma outra função em que eu pudesse ter um desafio de trabalho. Eu sou uma pessoa de comissão. Eu sou assídua, eu estou aqui presente em tudo. Não faço nada através de subterfúgios. Minhas ações são sempre transparentes, como o meu discurso. Eu sou a única mulher no partido. Essa relação do poder é mais agressiva, é sempre mais complicada, e a mulher, mais delicada, afirmou.

Lúcia Vânia confessou ter “mágoa” do PSDB, mas observou que as disputas “são normais para quem é político”.

“O que não é normal é deixar um companheiro ficar massacrado, um companheiro que você compreende que é correto e que trabalha. Quero me isolar um pouco de tudo isso. O PSDB tem que ter mais delicadeza para lidar com situações complexas. Não vou sair candidata à Mesa. Uma questão administrativa não deveria ser instrumento de disputa política”, concluiu.

Decisão da maioria

O senador Aécio Neves entende que Lúcia Vânia fez uma análise equivocada, pois a decisão do partido de indicar o nome do senador Paulo Bauer foi tomada por ampla maioria. Além disso, justificou Aécio, a senadora teria tido oportunidades no passado recente do PSDB e seria a vez de dar chances a Paulo Bauer.

Aécio lembrou que Lúcia Vânia já aventou anteriormente a possibilidade de deixar o partido. Para ele, trata-se de um direito da senadora, mas disse esperar que ela repense a decisão.

“Eu espero que ela, com a história que tem no PSDB, continue ao nosso lado. Se houvesse uma disputa interna do partido, eu não estaria aqui dizendo isso, aí era uma questão de nossa responsabilidade. Eu acho que com a cabeça um pouco mais fria ela vai compreender que se houve uma exposição dela, certamente isso não foi no PSDB”, afirmou.