Racismo

Semana da Consciência Negra é marcada por casos de racismo e intolerância pelo país

Uma obra quebrada por um deputado, um professor esfaqueado e uma missa africana que quase foi impedida mostram que o racismo se faz presente no Brasil todos os dias


Marcela Costa
Do Mais Goiás | Em: 22/11/2019 às 17:48:46

Mesmo após 131 anos da abolição da escravatura no Brasil, alguns brasileiros ainda insistem em perpetuar o ódio em relação à população negra (Foto: Redes Sociais)
Mesmo após 131 anos da abolição da escravatura no Brasil, alguns brasileiros ainda insistem em perpetuar o ódio em relação à população negra (Foto: Redes Sociais)

Assim como nos demais dias do ano, a semana do Dia Nacional da Consciência Negra esteve repleta de casos racistas. Mesmo após 131 anos da abolição da escravatura no Brasil, casos como esse, em que a população negra é agredida simplesmente por ser negra, são muito comuns.

Prova disso são os dados do Atlas da Violência de 2018, que apontam que no estado de Goiás 20.577 pessoas negras foram assassinadas, enquanto o número de não negros mortos não passou de 5.8 mil, no mesmo período. Nacionalmente, a situação também é grave: mais de 460 mil negros foram mortos, em contraste com as 151 mil mortes violentas que fizeram vítimas de pele clara.

Caso do deputado Coronel Tadeu

Na última terça-feira (19), o deputado Coronel Tadeu (PSL-SP) quebrou um quadro de uma exposição na Câmara dos Deputados. A obra falava sobre o genocídio dos negros do Brasil e tinha uma charge do cartunista Carlos Latuff. No Twitter. No desenho, um jovem negro aparece morto no chão, por um policial. O artista escreveu: “se fazem isso contra um cartaz, imagine contra gente de carne, osso e pele negra! ”. Em defesa ao Coronel Tadeu, o deputado federal Daniel Silveira (PSL-RJ) disse que a charge é falaciosa, além de ser “uma mentira” e que “o negro morre por ser negro”. Outros parlamentares denunciaram os casos de racismo e solicitaram abertura de um inquérito civil e criminal contra os dois deputados.

“Ao ficar fora de si, esse deputado só revelou o que há de mais nefasto nos nossos representantes políticos, que é o preconceito não só de raça como a xenofobia, homofobia, etc.”, explica a historiadora negra da Universidade Estadual de Goiás (UEG), Lorena Borges. Em entrevista ao Mais Goiás, ela ainda alertou que as declarações do homem depois do ocorrido reforçam o quanto ele é racista. “A charge deve ser publicada sim, o registro do cartunista é a expressão de um artista absolvendo o que há ao nosso redor. A morte da juventude negra acontece no nosso país. Vejo o movimento negro e algumas entidades fazerem essa denúncia, mas onde estão os brancos para ajudar nessa luta? ”, indaga.

Professor esfaqueado em Bauru

Outro caso foi de um professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp), esfaqueado com um canivete após sofrer injúrias raciais, na última quarta-feira (20), em Bauru, São Paulo. Juarez Xavier, professor do curso de Jornalismo, foi chamado de “macaco” enquanto fazia uma caminhada em uma avenida. Ao tirar satisfação, a vítima foi apunhalada com um canivete. O homem teve ferimentos superficiais e o agressor será indiciado por injúria racial e lesão corporal.

Missa africana quase impedida

Na noite da última quarta-feira (20), um grupo com cerca de 20 pessoas conservadoras tentaram impedir uma missa em homenagem ao Dia Nacional da Consciência Negra, que acontece há 15 anos, na Igreja do Sagrado Coração de Jesus, no Rio de Janeiro. Com cantos afro e toque de atabaques, a missa foi divulgada nas redes sociais. Mesmo com a presença das pessoas, o padre celebrou a cerimônia. Uma frequentadora da paróquia afirmou, em entrevista, que nunca tinha visto aqueles homens e mulheres que tentaram impedir a celebração. “Logo no início da missa o padre fez um discurso dizendo que não estávamos fazendo nada de errado. Eles permaneceram na igreja, filmando tudo. No final, aconteceu uma confusão”, disse.

A historiadora Lorena ainda fala a respeito da política de segurança pública brasileira. “No Brasil existe uma política de segurança que opera contra os negros. Um jovem negro correndo é um risco de morte, a polícia já entende esse corpo negro como suspeito”, conta ela. Além disso, a pesquisadora é categórica ao dizer que racismo velado não existe. “Para quem é negro, ele é escancarado. As pessoas não querem ver ou assumir, mas acabam agindo dessa forma”, finaliza.

*Com informações dos sites IstoÉ, Carta Capital e O Globo