Agência O Globo

Saiba como falar sobre racismo com crianças e adolescentes em casa

Especialistas e pesquisadores concordam que quem determina o momento é a própria criança

A onda de protestos que tomou conta dos Estados Unidos e ganhou espaço em vários países, inclusive o Brasil, depois da morte de George Floyd — cidadão negro que morreu asfixiado ao ter o pescoço pressionado contra o chão por um policial branco —, fez com que a discussão sobre racismo ganhasse evidência dentro das casas em tempos de isolamento social.

Juntando-se ao caso Floyd, houve os episódios da aluna do Colégio Franco-Brasileiro — escola particular do Rio de Janeiro — Fatou Ndiaye, de 15 anos, vítima de ataques racistas dos colegas; da morte do menino João Pedro, de 14 anos, baleado dentro de casa durante uma ação policial; e o áudio vazado de Sérgio Camargo, presidente da Fundação Palmares, que, durante uma reunião com assessores, chamou o movimento negro de “escória maldita, que abriga vagabundos”.

Mas, afinal, de que maneira abordar um assunto tão delicado com os filhos que são crianças ou adolescentes? Educadores, inclusive com especialização em estudos afro-brasileiros, concordam que quem determina o momento é sempre a própria criança.

Livro 'Meu avô africano' Foto: Reprodução

Livro ‘Meu avô africano’ Foto: Reprodução

— Neste momento, a escola, com sua pluralidade, está fazendo falta. As crianças, principalmente as menores, precisam ter espaço para se expressar, e os adultos (pais ou quem estiver em contato comas crianças) precisam ficar atentos aos sinais de raiva e medo. O que não se pode fazer é negar que haja racismo — afirma Patricia Corsino, que foi professora e coordenadora pedagógica de Educação Infantil por 18 anos e é professora da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Mestre em Relações Étnico-Raciais pelo Cefet-RJ com especialização em Educação e Relações Étnico-Raciais pela Universidade Federal Fluminense (UFF), a pedagoga Viviane Angelo trabalha na rede municipal do Rio de Janeiro com crianças do 5º ano do Ensino Fundamental. Viviane resolveu se aprofundar no estudo de racismo há nove anos, depois de um episódio vivido por seu filho, na época com 5 anos, na escola particular em que ele estudava.

— Tive que ensiná-lo logo a se defender. Ele foi vítima, ainda muito pequeno, de um episódio racista onde um coleguinha disse que ele tinha a cor de cocô — relata Viviane Angelo. — Com os últimos episódios de racismo que estão sendo mostrados na mídias, vários professores têm me procurado para levar esse tema para a sala de aula.

Renato Noguera, professor de História da da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), acha que o primeiro passo para a conversa com a criança sobre racismo é ressaltar que a violência não é normal.

— Ao falar, com a criança ou com o adolescente, é preciso esclarecer que o episódio do George Floyd foi claramente causado pelo racismo — diz Noguera, que também é pesquisador do Laboratório de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas (Leafro).

A reportagem preparou uma lista de perguntas e respostas elaborados após as conversas com os especialistas, além de dicas de livros que lidam com o assunto.

Os pais devem esperar que a criança ou adolescente faça perguntas ou devem iniciar o assunto?

O que varia é a forma de abordagem e linguagem, que devem levar em conta a idade. Até mesmo as menores de 7 anos já presenciaram ou viveram episódios de racismo. As mais velhas podem ser provocadas. Ao ver o noticiário ou imagens dos protestos e casos de violência, os pais precisam pegar a criança e perguntar se ela está entendendo o que está acontecendo. É preciso mostrar que a violência não é normal e que há casos em que a pessoa é vítima exclusivamente por ser negra. A criança deve ser estimulada a identificar episódios de racismo e da falta de representatividade do negro, como, por exemplo, super-heróis e princesas negros.