Agência O Globo

Rivais de Netanyahu fecham acordo para tirá-lo do poder após 12 anos

Coalizão inclui partidos de centro, esquerda, extrema direita e sigla árabe

Benjamin Netanyahu: governo de 12 anos em Israel próximo do fim (Foto: Instagram)
Benjamin Netanyahu: governo de 12 anos em Israel próximo do fim (Foto: Instagram)

As principais forças de oposição em Israel assinaram, nesta quarta-feira, um acordo para a formação de um Gabinete de coalizão que deve pôr fim a 12 anos de governo de Benjamin Netanyahu, o mais longevo primeiro-ministro da História do país. A nova coalizão, formada quando Netanyahu enfrenta processos judiciais sob a acusação de corrupção, une forças que vão do partido centrista Yesh Atid (Há um Futuro), de Yair Lapid, à extrema direita do Yamina, de Naftali Bennett, passando por siglas de esquerda e, pela primeira vez, por uma legenda que representa os árabes-israelenses.

O novo governo, que precisa ser confirmado pelo Parlamento, encerra o domínio de Netanyahu sobre a política israelense, mas não está claro como uma coalizão tão heterogênea lidará com as principais heranças do período: o fortalecimento dos setores ultranacionalistas em Israel e o completo estancamento das negociações com os palestinos, razão de uma tensão permanente que de tempos em tempos explode em conflitos dentro do país e nos territórios ocupados.

O ex-ministro da Defesa e defensor feroz das colônias na Cisjordânia Naftali Bennett deve ser o primeiro-ministro por um período de dois anos, sendo então substituído por Lapid num sistema de rodízio. Por volta das 23h20 locais (17h20 no Brasil), 40 minutos antes do prazo máximo, o presidente do país foi avisado por Lapid de que ele alcançou um acordo para formar um novo acordo.

“Já comuniquei o presidente do Estado, Reuven Rivlin, que consegui concluir com êxito a tarefa de formar um governo. Prometo que este governo trabalhará a serviço de todos os cidadãos israelenses, daqueles que votaram nele e daqueles que não votaram. Ele respeitará seus oponentes e fará tudo ao seu alcance para unir e conectar todas as partes da sociedade israelense”, escreveu Lapid numa rede social.

Em uma foto histórica divulgada em redes sociais, Lapid,  Bennett e o líder da Lista Árabe Unida, Mansur Abbas, são vistos assinando o acordo para a formação da coalizão. Será a primeira vez que um partido árabe terá participação formal no governo desde a criação de Israel, em 1948.

O governo tem agora de 7 a 12 dias para ser aprovado pela Knesset, o Parlamento israelense. Até lá, é esperado que Netanyahu vá exercer pressão sobre deputados do Yamina para que votem contra a aprovação da coalizão.

De acordo com as negociações, as pastas serão divididas de acordo com as cadeiras obtidas pelos partidos no Parlamento após as eleições de março— como nas outras três votações ocorridas desde 2019, não houve um vencedor claro, obrigando os líderes políticos a uma maratona de negociações para garantir o apoio dos 61 deputados necessários para a maioria parlamentar.

Abbas, que concordou trabalhar com ultranacionalistas israelenses, afirmou que foi o último a assinar o acordo, e que só aceitou após obter pactos em várias áreas de interesse da comunidade árabe-israelense, incluindo “educação, bem-estar, emprego, desenvolvimento econômico, planejamento, construção e crime e violência”.

— Prometemos que seríamos os últimos a concordar e assinar o documento e foi o que fizemos. Entendemos que todas as outras partes aderiram a este processo. Vimos que todas as outras partes assinaram o documento — ele afirmou.

Após as eleições de março, Netanyahu, no cargo desde 2009, foi o primeiro a receber do presidente Reuven Rivlin a tarefa de formar um governo. Ele tinha a seu lado siglas religiosas e de extrema direita, mas sem alcançar as 61 cadeiras — para isso, dependia do apoio do Yamina, de Bennett, que apesar das visões políticas similares, virou seu rival político.

Sem o Yamina, Netanyahu fracassou em formar um novo Gabinete e a tarefa passou a Yair Lapid, que trazia consigo uma potencial aliança formada por siglas de centro e esquerda, além da Lista Árabe Unida, que tem o Islã político em sua agenda. A decisão de Bennett de retomar negociações com Lapid, anunciada no domingo, selou a sorte do agora ex-premier.

— As eleições mostraram que não existiria um governo de direita com Netanyahu. Ou teremos um governo de união ou teremos novas eleições — declarou Bennett na ocasião. — Temos uma crise política sem precedentes. Podemos ter a quinta, sexta, décima eleição geral. Podemos derrubar as paredes do país, até que a casa caia sobre nossas cabeças. Ou então podemos interromper essa insanidade e assumir responsabilidades.

A crise política em Israel se arrasta desde 2019, quando a coalizão liderada por Netanyahu começou a se desfazer por causa de crises internas.

As eleições previstas para novembro daquele ano foram antecipadas para abril, e marcaram o início de uma série de três votações inconclusivas. Em abril do ano passado, Netanyahu e o oposicionista Benny Gantz, do partido Azul e Branco, de centro, chegaram a um acordo para um governo de emergência, diante do avanço da pandemia em Israel.

O acordo ruiu em dezembro de 2020, com a dissolução do Parlamento e a convocação de novas eleições para março, e que terminaram com o Likud, de direita, de Netanyahu e o Yesh Atid, de Lapid, como as siglas mais votadas.

Apesar de Netanyahu ainda ter uma base de apoiadores sólida e de ter liderado uma das campanhas de vacinação contra a Covid-19 mais rápidas do mundo, com 60% da população já imunizada com as duas doses, seu fracasso em formar uma nova coalizão ou torpedear as negociações dos rivais evidencia que ele perdeu força no cenário político israelense.

Na Justiça, ele enfrenta três processos por acusações de suborno, fraude e quebra de confiança, em um julgamento que foi retomado em fevereiro e pode levar até dois anos para chegar ao fim. Primeiro premier a ser processado ainda no cargo — o que em Israel não confere imunidade —, ele poderá enfrentar até 10 anos de reclusão se for condenado por suborno e até três anos por fraude e violação de confiança.

O primeiro processo é o chamado Caso 4.000. Segundo os promotores, Netanyahu teria concedido favores regulatórios equivalentes a 1,8 bilhão de shekels (cerca de US$ 500 milhões) à empresa de telecomunicações Bezeq Telecom Israel em troca de cobertura positiva no site de notícias do grupo, o Walla.

Em janeiro, promotores apresentaram 315 casos em que se pediu para o site amenizar o tom da cobertura sobre o premier e sua família — 150 deles envolveriam diretamente o primeiro-ministro. O ex-presidente da Bezeq, Shaul Elovitch, e sua mulher, Iris, são acusados de suborno e obstrução de Justiça, mas negam qualquer responsabilidade.

Já no Caso 1.000, Netanyahu é acusado de ter recebido charutos, champanhe e jóias no valor de 700 mil shekels (US$ 197 mil) de Arnon Milchan, um produtor de Hollywood e cidadão isralense, e do bilionário australiano James Packer. Em troca, o então premier pressionou o Ministério da Fazenda a dobrar a duração de uma isenção fiscal para israelenses que viviam no exterior, como Milchan, em seu retorno ao país.

Netanyahu teria ainda feito lobby em Washington para que o visto americano de Milchan fosse renovado e facilitou um acordo de fusão que envolvia uma das empresas do produtor. A agora ex-primeira dama Sara também teria recebido presentes, mas não foi processada.

No Caso 2.000, por sua vez, o então premier é acusado de ter discutido um pacto de benefício mútuo com Arnon Mozes, dono do Yedioth Ahronot, um dos principais jornais israelenses. Em troca de cobertura favorável, Netanyahu teria concordado em considerar a implementação de medidas que limitassem o crescimento do Israel Hayom, um jornal concorrente. A promessa, contudo, nunca foi posta em prática.

Netanyahu nega todas as acusações, e se diz vítima de uma conspiração do “Estado profundo”, replicando discurso usado por um de seus maiores aliados nos últimos anos, o ex-presidente americano Donald Trump. Os processos, afirma, não passam de uma “caça às bruxas” para tirá-lo do governo.

As investigações contra o então primeiro-ministro haviam começado em 2016 e, dois anos depois, foi recomendada a abetura de um processo formal. Ele foi acusado em novembro de 2019 e o julgamento começou em maio de 2020, mas foi suspenso por dez meses devido à pandemia.