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Risco de calote da chinesa Evergrande derruba Bolsas pelo mundo; entenda

Ibovespa cai abaixo de 110 mil pontos; mercado lembra crise imobiliária de 2008, mas especialistas apontam diferenças

Risco de calote da chinesa Evergrande derruba Bolsas pelo mundo; entenda (Foto: Pixabay)
Risco de calote da chinesa Evergrande derruba Bolsas pelo mundo; entenda (Foto: Pixabay)

O temor de um calote bilionário da Evergrande, uma gigante do mercado imobiliário chinês, derrubou Bolsas pelo mundo, provocando um mergulho no pregão no Brasil.

O Ibovespa, principal índice da B3, recuou 2,33%, e fechou com108.843 pontos. O dólar subiu 0,81%, cotado a R$ R$ 5,3320.

Nos Estados Unidos, Dow Jones, S&P 500 e Nasdaq caíram 1,78%, 1,70% e 2,19%, respectivamente.

Na Europa, o índice Euro Stoxx 50 (zona do euro) retrocedeu 2,11%. Também caíram as Bolsas de Londres (-0,86%), Paris (-1,74%) e Frankfurt (-2,31%).

A Evergrande, cujo passivo é estimado US$ 355 bilhões (R$ 1,89 trilhão), informou a credores que não conseguirá cumprir os pagamentos de juros da dívida com vencimento nesta segunda-feira (20).

Economistas afirmam que a situação é grave, capaz de trazer de volta o “fantasma da crise de 2008”, como relatou a casa de análise Levante Research em boletim enviado nesta manhã a investidores.

Em setembro de 2008, o banco americano Lehman Brothers quebrou ao reconhecer a insolvência de créditos imobiliários, sem receber socorro do Fed (o banco central dos EUA), o que provocou um efeito dominó de perdas em instituições financeiras pelo mundo afora.

Enrico Cozzolino, sócio-analista da Levante, afirma que, neste momento, a Evergrande levantou “uma bandeira amarela” para o mercado.

Roberto Dumas, professor de economia chinesa do Insper, recomenda cautela no pessimismo. “O mercado está em pânico porque não sabe se o governo chinês irá atuar, então, eu digo: calma, o governo deverá interferir”, diz Dumas.

Segundo dados levantados por Dumas, a Evergrande tem papel estratégico para projetos de longo prazo que buscam o desenvolvimento econômico da China. A empresa é responsável por 1.300 empreendimentos em cidades de baixa renda e emprega 3,8 milhões de trabalhadores ao ano.

Além de citar a preocupação com o impacto social, o professor reforça que o governo chinês tem forte capacidade de interferência na gestão dos ativos que compõem parte considerável da dívida da Evergrande, os WMPs (Wealth Management Products ), espécie de títulos emitidos sem garantia.

“O governo vai interferir de alguma maneira, pois pode trocar dívida por ativos”, diz Dumas. “Não vai ser fácil, mas está longe de virar um Lehman Brothers porque o governo chinês vai fazer alguma coisa.”

Dumas estima em algum momento, o governo vai promover a reestruturação da companhia, com venda de ativos, limitando as perdas para evitar tensão social.

Ele lembra que a China tratou o colapso do Lehman Brothers como um sinal da falência do Consenso de Washington e da ascensão do Consenso de Pequim. Também usou o evento como um marco para o início do fim do império americano. “Deixar que aconteça a mesma coisa com a Evergrande é praticamente descartável”, afirma ele.

Incerto é o destino dos executivos responsáveis pela degringolada da companhia.

No curto prazo, porém, a crise da Evergrande deverá piorar a situação da Bolsa brasileira, avaliam os analistas.

Segundo Ilan Arbetman, analista da Ativa Investimentos, o pregão local já vinha sendo afetado pela desaceleração econômica chinesa, alimentada por restrições impostas pelo governo para tentar zerar os casos de Covid-19 no país e também por políticas públicas que buscam reduzir emissões de dióxido de carbono

O país é o maior importador mundial de minério de ferro, cujo preço vem sendo rebaixado devido à redução da demanda.

Ações de empresas de mineração e siderurgia brasileiras estão sendo fortemente prejudicadas, o que explica, em parte, as recentes quedas do Ibovespa.

“A Vale, que representa 13,6% do Ibovespa, teve 53% das suas receitas do segundo trimestre deste ano vindas de exportações para a China”, diz Arbetman. “Tem impacto direto.”

Na última sexta-feira, a Bolsa brasileira registrou queda de 2,06%, fechando o pregão com 111.439 pontos e acumulando perda semanal de 2,49% —a terceira semana seguida de queda. No ano, o recuo atingiu 6,37%.

A última vez que o Ibovespa havia caído ao patamar dos 111 mil pontos foi em março, um dia após a decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal Edson Fachin que anulou todas as condenações contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pela Justiça Federal de Curitiba, devolvendo, assim, os direitos políticos a ele.

Nos Estados Unidos, Dow Jones, S&P 500 e Nasdaq fecharam em quedas de 1,79%, 1,70% e 2,17%, respectivamente, segundo dados preliminares.

Na Europa, o índice FTSEurofirst 300 caiu 1,7%, a 1.749 pontos, enquanto o índice pan-europeu STOXX 600 perdeu 1,67%, a 454 pontos.

O índice referencial europeu STOXX 600 caiu por três semanas seguidas devido a preocupações com a desaceleração do crescimento global, alta da inflação, casos persistentemente elevados de Covid-19 e contágio de regulações mais duras sobre as empresas chinesas.

As principais Bolsas europeias recuaram. Em Londres o índice Financial Times caiu 0,86%, o DAX, de Frankfurt, recuou 2,31% e o CAC-40, de Paris, perdeu 1,74%. Também caíram as Bolsas de Milão (-2,57%), Madri (-1,2%) e Lisboa (-1,62%).