Sem Perspectiva

Repasse do governo federal ao Araújo Jorge já era esperado e não ameniza crise

Segundo a ACCG, valor anunciado pelo ministro da Saúde é referente a emendas parlamentares. Mais da metade já teria sido disponibilizado




Os recursos do governo federal anunciados para o Hospital Araújo Jorge não trazem nenhum respiro para a unidade. Na verdade, os R$ 2,3 milhões divulgados são relativos a emendas parlamentares e já eram esperados pela Associação de Combate ao Câncer em Goiás (ACCG), gestora do hospital.

Nesta quinta (1º), o ministro da Saúde, Ricardo Barros, havia anunciado ao Jornal Opção o aporte como parte dos R$ 513 milhões destinados a Santa Casas e hospitais filantrópicos no País. No entanto, em coletiva de imprensa concedida hoje, o presidente da ACCG, Paulo Moacir de Oliveira Campoli, afirmou que parte dos recursos já havia, inclusive, sido recebida pela unidade.

Segundo a assessora de imprensa da ACCG, Márgara Morais, ainda não houve nenhum novo aceno do poder público no sentido de ajudar o Araújo Jorge a sair da crise. “Esse valor anunciado é referente a uma verba que cada parlamentar dispõe ao final do ano para direcionar para a área da saúde. O repasse desse recurso já vem acontecendo e o hospital já recebeu cerca de R$ 1,6 milhão dos R$ 2,3 milhões”, afirma.

De acordo com a assessora, o hospital permanece sem qualquer perspectiva de solução para a crise, mesmo após um longo processo de divulgação e sensibilização. “O problema continua grave. O poder público está agindo no sentido de permitir o fechamento do transplante de medulas”, diz.

Além dos valores referentes às emendas, o único suporte recebido pelo hospital é referente a um acordo fechado com o governo estadual que prevê o repasse de R$ 800 mil por 12 meses. “A prefeitura até o momento não fez nada, só o governo. E ainda assim, o convênio com o Estado é pelo prazo de um ano. Não há nenhuma garantia para o longo prazo”, lamenta Márgara.

Crise

A crise do Hospital Araújo Jorge veio à tona no início deste mês por meio de sua própria diretoria, que busca amparo da população e do poder público para evitar a suspensão de serviços. A unidade é referência no tratamento de câncer em Goiás, atendendo pacientes de diversas parte do Brasil, e pode ser obrigada a não oferecer mais tratamentos como o transplante de medula.

De acordo com o presidente da ACCG, Paulo Moacir de Oliveira Campoli, a atual crise financeira nacional provocou abalos significativos no balanço econômico do hospital. Os aumentos nos preços do combustível, da energia elétrica e principalmente do dólar – que provoca incremento nos custos de diversos medicamentos que são cotados na moeda – fizeram com que setores que antes eram superavitários passassem para o outro lado da balança. Da mesma forma, os que já causavam prejuízo começaram a impactar ainda mais as finanças da unidade, que desde o início do ano sofre perdas de cerca de R$ 1,3 milhão por mês.

Desse montante, os maiores déficits são causados por quatro setores: oncologia pediátrica, pronto-socorro, UTI e o transplante de medula. Somente este último é responsável por perdas de aproximadamente R$ 500 mil.

“O transplante de medula custa hoje cerca de R$ 120 mil e nós fazemos uma média de quatro ou cinco procedimentos do tipo por mês”, relatou o presidente. “O SUS não atualiza sua tabela desde 1999 e, com isso, a remuneração que eles passam é de R$ 23 mil por cada transplante, o que dá uma diferença de quase R$ 100 mil.”

No último dia 23, uma reunião no Ministério Público Federal (MPF) com os secretários municipal e estadual de Saúde, respectivamente Fernando Machado e Leonardo Vilela, terminou sem nenhum acordo que garanta a viabilidade da continuidade dos serviços da unidade. Na ocasião, ficou acertado, apenas, que as partes envolvidas deverão entregar até o dia 2 de setembro um documento que apresente os motivos para a crise e as medidas que estão sendo efetuadas para saná-la.

Na última segunda (29), uma tarde inteira de audiências com o prefeito de Goiânia, Paulo Garcia, com o secretário municipal de Saúde, e por último, com o secretário municipal de Finanças, Stenio Nascimento da Silva, também não trouxe nenhum resultado.

O presidente da ACCG se disse muito preocupado com a situação atual, com a possibilidade cada vez mais concreta de fechamento de serviços vitais no tratamento do câncer, como o Setor de Transplante de Medula Óssea. “O poder público está virando as costas para a população, ao não garantir a complementação devida pelos serviços prestados pelo Hospital Araújo Jorge. Estamos correndo contra o tempo, já que o câncer não espera por medidas de longo prazo, a situação exige resposta emergencial”, concluiu Paulo Moacir.

 

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