Do Mais Goiás

Renais crônicos de Santa Fé são todos diagnosticados com covid-19 e culpam prefeitura

Pacientes, que são grupo de risco, dizem que são transportados para hemodiálise em Goiânia com outros doentes. Prefeitura nega

Geraldo Benvindo, um dos moradores de Santa Fé que fazem hemodiálise em Goiânia três vezes por semana (Foto: Arquivo pessoal)

O município de Santa Fé, a cerca de 270 km de Goiânia, tem três pacientes renais crônicos que fazem hemodiálise em Goiânia, todos com idade avançada. Na quinta-feira, os três foram diagnosticados com covid-19 e um deles – o aposentado João Alvim Pereira, 59 anos – está intubado com 50% dos pulmões comprometidos, em estado grave. Parentes dos pacientes dizem que a culpa é da prefeitura, que se recusa a transportá-los para Goiânia para as sessões de hemodiálise em veículo próprio, embora eles sejam do grupo de risco.

Além de João, fazem hemodiálise em Goiânia (mais especificamente na Santa Casa de Misericórdia) o autônomo Geraldo Benvindo e o desempregado Zenildo Moreira dos Santos. Até agora, a doença evoluiu pouco em Zenildo e Geraldo, que apresentam apenas fraqueza e um pouco de tosse. No entanto, João foi levado para uma UTI do Hospital de Campanha, em Goiânia, na madrugada desta terça e intubado às 3h30, com falta de ar.

A professora Zeila Neves, esposa de Geraldo, afirma que os três pacientes são transportados para Capital em uma van que sempre leva outros passageiros, alheios à rotina da hemodiálise. Ela, o filho de João Alvim (Kedson Aguiar Pereira), parentes de Zenildo e os próprios pacientes dizem que já foram com insistência à prefeitura para pedir que o problema seja resolvido – tanto na antiga gestão, quanto na atual, que se iniciou em janeiro.

“A gente tá vivendo um terror. Sempre quando anoitece, eu digo: mais um dia de vitória que a gente passou. Agora, ele [o secretário de Saúde, Carlos Siqueira] pega todo mundo doente, coloca na van, a van viaja os cinco dias da semana, ela nem sempre é lavada e higienizada. Chega 19 horas e sai no outro dia, às 3h da manhã, com outra turma. E isso acontece de segunda a sexta. Só me resta pedir pelo amor de Deus, que coloque um transporte só para esses meninos. Chega”, afirma Zeila.

O Mais Goiás ouviu o vereador Antônio Carlos da Silva (DEM), que confirmou a versão de Zeila. “A informação que eu tenho é exatamente essa. Que os pacientes tem que ter prioridade, mas até então estava tendo alguns encaixes de pessoas que iam para Goiânia com eles”.

O secretário municipal de Saúde, Carlos Siqueira, nega todas as acusações dos parentes renais crônicos, mas, durante a ligação, admitiu que “pode ter acontecido de uma pessoa ou outra” ter viajado com os pacientes da hemodiálise, embora afirme que, se isto aconteceu, a Secretaria de Saúde tomou todas as precauções necessárias. Carlos também afirma: “Estou à disposição. Não só da hemodiálise, mas também da hemodiálise”. O secretário diz que nunca recebeu reclamações de ninguém e que os comentários sobre transporte de pacientes renais têm “cunho político”.

Kedson Aguiar, que está em Goiânia para acompanhar o pai no hospital de campanha, diz que o secretário não fala a verdade. “Os próprios pacientes renais conversaram pessoalmente com o secretário e ele sempre dizendo ‘vamos ver o que que faz’, pulando fora, colocando mais gente na van”. Kedson diz que, nos dias anteriores ao diagnóstico de covid-19, o pai viajou em um veículo com pessoas que não são da hemodiálise. “Muito provavelmente ele se contaminou na van”, afirma.

A reportagem tentou contato com o prefeito, mas não o localizou.