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Relembre as polêmicas de Regina Duarte na Secretaria Especial da Cultura

Regina Duarte oscilou entre a coadjuvante apagada e a mocinha perseguida até assumir o papel de vilã que defende a ditadura militar


Agência O Globo
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Do Agência O Globo | Em: 21/05/2020 às 10:11:16

Regina Duarte oscilou entre a coadjuvante apagada e a mocinha perseguida até assumir o papel de vilã que defende a ditadura militar (Foto: Reprodução)
Regina Duarte oscilou entre a coadjuvante apagada e a mocinha perseguida até assumir o papel de vilã que defende a ditadura militar (Foto: Reprodução)

Ao longo dos dois meses e meio em que foi secretária especial da Cultura, Regina Duarte oscilou entre a coadjuvante apagada e a mocinha perseguida. Isso até assumir o papel de vilã ao defender a ditadura militar em recente entrevista à CNN Brasil.

Nesta quarta-feira, encerrando semanas de fritura dentro do governo, tentou um “final feliz”. Surgiu sorridente ao lado do presidente Jair Bolsonaro, comemorando sua saída de Brasília para assumir uma Cinemateca Brasileira em crise. Acabou sendo uma saída melancólica para uma novela que já começou com problemas.

Durante sua passagem no governo, Regina não assinou nenhum despacho da pasta da Cultura. As únicas medidas articuladas por sua equipe foram portarias que flexibilizaram as regras da Lei Rouanet para projetos atingidos pela crise da pandemia da Covid-19.

Regina Duarte deixa Cultura do governo Bolsonaro para assumir Cinemateca

Começo pouco promissor

A primeira saia-justa da atriz no governo veio já na cerimônia de posse, no dia 4 de março. Ao discursar, ela tentou arrancar do presidente uma confirmação de que teria autonomia para trabalhar, como ele lhe prometera ao chamá-la para o cargo. Porém,acabou ouvindo do chefe que a tal “carta branca” prometida para montar sua equipe não seria bem do jeito que ela imaginava.

O caso Mantovani

Logo na sequência, Regina já virou alvo de militantes bolsonaristas nas redes sociais, após demitir uma série de nomeados por Roberto Alvim, exonerado por plagiar um discurso do ministro da propaganda nazista, Joseph Goebbels. Entre os afastados pela atriz estavam integrantes da ala ideológica do governo seguidores do escritor Olavo de Carvalho. Um deles o maestro Dante Mantovani, então presidente da Funarte.

Em uma das últimas crises de Regina no governo, no início de maio. Mantovani foi renomeado para o cargo, pegando a secretária de surpresa. Porém, a  nomeação foi cancelada pelo presidente Bolsonaro no mesmo dia.

Ainda assim, desde que afastou Mantovani e outros olavistas em sua posse, Regina Duarte passou a sofrer sucessivos ataques públicos em redes sociais e começou a ser minada dentro do governo. A perseguição a  levou a afirmar, em sua primeira entrevista como secretária especial da Cultura, que tinha virado alvo de “uma facção” que queria ocupar seu lugar no governo. Falando ao “Fantástico”, da TV Globo, no dia 8 de março,  ela disse esses grupos estavam fazendo pressão por sua demissão.

As declarações repercutiram como uma bomba entre integrantes do governo. O ministro da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos, comentou o caso afirmando que “são seus ministros e secretários que devem se moldar aos princípios publicamente defendidos por Bolsonaro, não o contrário”.

Choque com presidente da Palmares

Na mesma entrevista dada ao “Fantástico”, Regina se referiu ao presidente da Fundação Palmares, Sérgio Camargo, como “um problema”. Ele havia sido afastado do cargo pela Justiça por suas declarações negando a existência de racismo, defendendo que a escravidão foi benéfica e pedindo o fim do movimento negro. A Advocacia Geral da União recorreu da decisão, e o Superior Tribunal de Justiça (STJ) acabou derrubando a liminar que impedia a nomeação. Com o apoio de Bolsonaro, Camargo voltou ao cargo.

Regina havia pedido sua exoneração, porém o governo optou por mantê-lo na entidade que é vinculada à Secretaria Especial da Cultura. O episódio iniciou uma série de ataques públicos de Camargo desafiando sua superior.

Chá de cadeira de Paulo Guedes

Desde o início da paralisação da Cultura por causa do coronavírus, Regina recebeu uma enxurrada de demandas da classe artística para amenizar a crise econômica do setor. Ainda em março, ela pediu para ser recebida pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, para apresentar as necessidades do segmento cultural. Porém, nunca chegou a ser recebida por ele.

Rompimento de aliados

Tradicional defensor do governo e cotado para integrar a equipe da Secretaria Especial da Cultura, o ator Carlos Vereza não apoia mais Jair Bolsonaro. Ele era cotado para asumir um cargo na equipe de Regina. O rompimento ocorreu após o presidente demitir o ministro Luiz Henrique Mandetta da Saúde, em meio à pandemia do novo coronavírus. Em um publicação na internet, Vereza resumiu seu sentimento em relação ao governo “não dá mais: tirei o time”.

Em vídeo com Bolsonaro, Regina Duarte comemora saída da Cultura; assista

Diretor demitido após campanha difamatória

Doutor em Literatura Brasileira pela Universidade de Londres, o psicólogo e historiador Aquiles Brayner teve sua nomeação para o cargo de diretor do Departamento de Livro, Literatura e Bibliotecas anulada três dias  após ter sido feita. Apesar de ter trabalhado no gabinete pessoal do presidente Jair Bolsonaro anteriormente, sua nomeação na Cultura deu início a uma campanha difamatória movida por perfis bolsonaristas. Brayner foi alvo de ataques homofóbicos e acusações de que  seria um “esquedista infiltrado” no governo.

Limbo entre dois ministérios

Desde que assumiu a secretaria, Regina se viu em condições adversas para tocar seu plano de gestão. A pasta da Cultura segue com sua operação dividida entre os ministérios da Cidadania e do Turismo, apesar de ter sido transferida para este último em novembro do ano passado. Com a divisão entre as duas estruturas, a tramitação dos projetos de Regina precisam passar por todas etapas burocráticas dos dois ministérios. A divisão resultou na perda total de autonomia da secretária, que não assinou nenhum despacho desde que foi empossada.

Recado de Bolsonaro

No início de maio, o presidente Jair Bolsonaro reclamou da ausência da secretária em Brasília. Em entrevista na porta do Palácio da Alvorada, ele afirmou ainda que ela tem tido problemas em lidar com questões que desagradam ao governo dentro da pasta

— (A Secretaria tem) muita gente de esquerda pregando ideologia de gênero, essas coisas todas que a sociedade, a massa da população não admite. E ela tem dificuldade nesse sentido — justificou.

‘Eu acho que ele está me dispensando’

Após a surpresa da renomeação de Dante Mantovani no início de amio, áudio registrado pela revista “Crusóe” trouxe  um diálogo entre Regina e uma assessora não identificada, no qual a atriz conta que achava que estava sendo dispensada e que Edir Macedo já teria indicado seu substituto. O “Jornal Nacional” reproduziu o áudio e procurou o bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, que negou a indicação.

‘Chilique’ em entrevista

Uma das últimas aparições de Regina antes de sua saída do governo foi numa conturbada entrevista à CNN Brasil. Regina Duarte deu declarações minimizando a censura e a tortura durante a ditadura, relativizou o impacto do coronavírus e defendeu que não era seu papel homenagear artistas mortos durante a pandemia.

Além disso, encerrou a entrevista em meio a um bate-boca: ela ficou irritada quando jornalistas da emissora pediram que ouvisse e comentasse um vídeo enviado à produção por Maitê Proença, no qual a atriz questionava seu silêncio diante do falecimento recente de colegas, citando Moraes Moreira e Aldir Blanc. Após a entrevista, foi divulgado um manifesto com assinaturas de 512 artistas contra as declarações da atriz.

Número 2 exonerado

O advogado Pedro Horta, um dos poucos nomes que Regina Duarte conseguiu emplacar na secretaria especial da Cultura, foi exonerado do cargo de secretário especial adjunto na semana passada. Nomeado no fim de abril para o segundo posto da hierarquia da pasta comanda por Regina, Horta estava há pouco mais de duas semanas no cargo. Antes, ele atuava como chefe de gabinete de Regina Duarte no órgão.

Ex-assessor de Carlos Bolsonaro na Funarte

Contrariando os planos de Regina de indicar o produtor Humberto Braga para a Funarte, o governo nomeou ex-assessor do vereador Carlos Bolsonaro para a diretoria executiva da fundação. Luciano da Silva Barbosa Querido já havia sido indicado para um cargo comissionado do órgão no início de abril. Como a Funarte segue sem presidência definida, Querido ocupa a presidência interina do órgão atualmente.

O flerte do governo com Mario Frias

O capítulo final veio nesta semana, quando o presidente Bolsonaro compartilhou em redes sociais entrevista do ator Mario Frias à CNN Brasil, em que o ex-expoente de “Malhação” elogiava Regina, mas dizia que receberia com entusiasmo um convite para assumir a Cultura. A postagem esquentou o clima de fritura da atriz em Brasília. E, em vez de minimizar o constrangimento causado a ela, o presidente ainda o aumentou, recebendo Frias para um almoço ontem.