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“Quem defende torturador é contra vida”, diz Pinheiro Salles, torturado na Ditadura

Autor de livros sobre a ditadura, Pinheiro diz que Brasil não teve justiça de transição

“Quem defende torturador é contra vida”, diz Pinheiro Salles, torturado na Ditadura
“Quem defende torturador é contra vida”, diz Pinheiro Salles, torturado na Ditadura (Foto: Reprodução)

Morador de Goiânia há mais de quatro décadas, Antônio Pinheiro Salles, de 83 anos, é jornalista e advogado. Foi torturado durante a ditadura militar. Entre outras coisas, perdeu dentes, sendo as mandíbulas de platina e ficou surdo. Ao falar das manifestações de sábado, 1º de maio, Dia do Trabalhador, quando manifestantes se vestiram de “farricocos” para defender torturadores na cidade de Goiás, Pinheiro não disfarça o desgosto e o nojo. “Quem defende torturador é contra vida.”

Pinheiro Salles, como é mais conhecido, é natural de Jordânia (MG), mas também militou na Bahia durante a ditadura (1964-1985). Ele é autor dos livros “1964: Golpe e Ditadura” e “Ninguém Pode se Calar”. É, também, presidente da Comissão de Direitos Humanos e Liberdade de Imprensa do Sindicato dos Jornalistas de Goiás e membro da Comissão Nacional de Ética dos Jornalistas Brasileiros. Foi preso em Porto Alegre, em 1970, passando nove anos em cárcere – os últimos, em São Paulo, onde sofreu tortura, inclusive, comandada por Carlos Alberto Brilhante Ustra, elogiado pelo presidente Bolsonaro em mais de uma ocasião.

Para ele, esse tipo de manifestação – como a de sábado – ainda ocorre, porque não houve uma justiça de transição no Brasil, como aconteceu em qualquer País que passasse por regimes totalitários, como na Alemanha de Hitler; Portugal de Salazar; Itália de Mussolini; ou Chile de Pinochet. “A justiça de transição estuda todas as agressões aos direitos humanos. Todos aos atentados a democracia e procura alternativas adequadas para estabelecer o rompimento definitivo com o período de terrorismo do Estado.”

Ainda segundo ele, a anistia no Brasil anistiou os que praticavam violência de forma oficial pelo Estado. “A falta de justiça de punição, apuração, contra os torturadores acaba por permitir que, ainda, hoje, após tantas lutas e conquistas – que significaram e exigiram o sangue e vida de centenas brasileiros –, prevaleça a impunidade. E, sendo assim, essas pessoas que saíram nas ruas da cidade de Goiás, ainda tem o espaço suficiente para defender os torturadores.”

Para ele, o presidente Bolsonaro – apoiado pelos manifestantes – endossa esse tipo de ato. “Ele chegou a homenagear torturador, como fez com Carlos Alberto Brilhante Ustra, que diretamente me torturou naquele centro de horrores (DOI-Codi de São Paulo). Sempre defendeu ditaduras”, acusou.

Democracia

Questionado se esses atos representam algum risco à democracia, Pinheiro diz estar convencido que não. De acordo com ele, o próprio governo federal se engana ao cogitar que teria apoio das Forças Armadas para dar um golpe de estado. Na avaliação de Salles, os militares que participam do governo não fazem parte dos altos escalões. “Se vendem para angariar benefícios pessoais.”

Assim, ele defende a união e o compromisso de todos os atores democráticos, a fim de repudiar com veemência esse tipo de manifestação. “Não para que essas para que essas pessoas entendam o que é democracia, mas para que se sintam envergonhadas e inibidas, a fim de que jamais defendam criminosos e pratiquem a recepção desses crimes. Então, estou convencido que nossa democracia irá resistir”, reforça.

Para ele, com essa unidade, a resposta virá para “esse tipo de gente que nos governa e nos desrespeita, e que se sente à vontade de sair na rua atentando contra a justiça e democracia”. Essa, segundo ele, será no plano institucional, seguramente nas urnas. “Se Bolsonaro não cair até as eleições, as oposições serão vitoriosas nas próximas eleições e o Brasil terá condição de retornar seu curso democrático.”

(Foto: Cláudia Santana Damata)

1o de Maio

A data escolhida, o 1o de maio, simboliza o Dia do Trabalhador. Pinheiro diz que os manifestantes antidemocráticos não entendem a data. “Eles foram enganados. Mas eu tenho confiança na consciência, organização de compromisso dos trabalhadores. No povo. Estou certo que isto está prevalecendo e este período está terminando”, analisa.

Pinheiro observa, ainda, que, mesmo com atos deste tipo, também tiveram grandes manifestações democráticas pelo País. “E nós não estamos tendo a irresponsabilidade deles. Defendemos a preservação da vida, buscando uma alternativa para sobreviver a essa pandemia.”

Por fim, ao ser perguntado, se essas pessoas que carregavam placas a favor de torturadores deveriam ser punidas, ele diz que o ideal seria a justiça agir “exemplarmente”. Contudo, não vê o necessário rigor no aspecto político, nesse momento, para isso acontecer. “Isso aconteceu em Goiás, Rio, São Paulo, Brasília… Então, eu não acredito na eficácia da justiça, nesse sentido. Então, cada um de nós deve se manifestar”, conclui.

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