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Queiroga volta à CPI e será cobrado por contradições e ‘gabinete paralelo’

Ministro da Saúde também será questionado sobre os protocolos para a realização da Copa América no Brasil

Ministro Marcelo Queiroga (Saúde) em depoimento à CPI da Covid no Senado - Jefferson Rudy/Agência Senado
Ainda não há data prevista para a segunda oitiva de Queiroga, mas a ideia é que ocorra em junho (Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado)

O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, presta nesta terça-feira (8) novo depoimento à CPI da Covid, no Senado, a partir das 9h, e deve ser pressionado a responder sobre assuntos incômodos ao governo de Jair Bolsonaro.

Dois temas devem dominar a pauta: inconsistências em relação às declarações da primeira oitiva, realizada em 6 de maio e a estrutura do que tem sido chamado “gabinete paralelo” de assessoramento do presidente durante a pandemia de coronavírus.

A audiência com Queiroga foi antecipada para hoje devido ao interesse que senadores críticos ao governo federal têm em ouvi-lo antes da iminente realização da Copa América no Brasil.

O evento de futebol foi confirmado por Bolsonaro, mas desperta crítica e resistência de vários setores da sociedade. Na última segunda (7), na contramão da OMS (Organização Mundial da Saúde), o ministro afirmou considerar que não há “risco adicional” no fato de o país sediar competição esportiva com potencial para provocar aglomerações.

Outro fator determinante para a antecipação do segundo depoimento de Queiroga à CPI foi a participação da infectologista Luana Araújo, na semana passada.

Aos congressistas a médica afirmou ter sido comunicada pelo próprio ministro de que seu nome havia sido reprovado pelo governo, sem justificativa concreta, para o comando da recém-criada Secretaria Extraordinária de Enfrentamento à Covid (subpasta do Ministério da Saúde).

O UOL apurou que Luana foi desconvidada depois que o governo identificou divergências de discurso em relação a temas caros para Bolsonaro, como a defesa do uso de hidroxicloroquina (medicamento ineficaz no tratamento da covid) e as críticas do governo às medidas restritivas fundamentais à prevenção na pandemia.

De acordo com a avaliação de senadores da oposição, a fala de Luana evidencia uma contradição de Queiroga em relação ao seu primeiro depoimento. Na ocasião, o atual chefe da pasta da Saúde — quarto nome a assumir o cargo durante o governo Bolsonaro— afirmou que contava com total autonomia para trabalhar. Ele negou interferência indevida do comando do Palácio do Planalto.

No entanto, a autonomia relatada por Queiroga pode ter sido desmentida pelas circunstâncias da dispensa de Luana —tida como um perfil técnico, representante da “ciência” e crítica à imposição de medicamentos sem eficácia comprovada no tratamento da covid-19 como uma alternativa de política pública no combate à pandemia.

O ministro será confrontado com essa tese e será cobrado a responder se mentiu ou não ao afirmar que tinha “autonomia”.

‘Gabinete paralelo’

Queiroga também deverá ser pressionado a falar da suposta existência de um “gabinete paralelo” para assessorar o presidente da República em questões referentes à pandemia. O assunto tem sido um dos principais pontos de interesse da CPI desde as primeiras oitivas.

Após declarações do CEO da Pfizer na América Latina, Carlos Murillo, e do ex-secretário de comunicação do governo, Fábio Wajngarten, o tema cresceu e passou a dominar as atenções.

Recentemente, vídeo divulgado pelo portal Metrópoles mostrou uma reunião realizada em 2020 no Palácio do Planalto, com Bolsonaro e especialistas da área de saúde, na qual o presidente recebeu a sugestão de criar uma espécie de “gabinete das sombras” para tratar da condução da pandemia.

O grupo, formado por defensores da cloroquina e hidroxicloroquina, seria encabeçado intelectualmente pelo deputado federal Osmar Terra (MDB-RS) —que afirmou há pouco mais de um ano que a covid-19 faria menos vítimas do que a gripe sazonal no Rio Grande do Sul (950 por ano). O Brasil já ultrapassou os 474 mil mortos pelo coronavírus.

Senadores da oposição e da ala independente pretendem pressionar Queiroga a responder se a chamada estrutura de assessoramento paralelo ainda estaria em vigor, à revelia das ações e direcionamentos do Ministério da Saúde.

Em seu primeiro depoimento à CPI, Queiroga disse “desconhecer” a existência do gabinete. Hoje ele será indagado por quais motivos, na hipótese de não ter existido um “assessoramento paralelo”, a cúpula do governo vetou a nomeação da infectologista Luana.

Novos depoimentos

Além do depoimento de Queiroga, os senadores da CPI vão analisar e votar durante a audiência de hoje ao menos oito novos requerimentos de convite e convocação — entre eles, o da médica Ludmila Hajjar, cotada para assumir o Ministério da Saúde antes de Queiroga, o de Osmar Terra.

No caso do deputado, a comissão deve aprovar um pleito de convite (ou seja, a presença dele não é obrigatória).

Já o atual presidente afastado da CBF (Confederação Brasileira de Futebol), Rogério Caboclo, é alvo de um requerimento de convocação, que, se aprovado pelo plenário da CPI, obriga o depoente a comparecer. Ele deve ser chamado para explicar as circunstâncias das negociações com o governo para sediar a Copa América no país.