SEMANA DO MEIO AMBIENTE

Quase mil hectares são desmatados em Território Kalunga

Secretaria do Meio Ambiente deflagra ação para conter ação e punir responsáveis; presidente do Conselho Municipal de Turismo de Cavalcante denuncia grupo de São Paulo, que usa laranja que responde por trabalho análogo


Francisco Costa
Do Mais Goiás | Em: 04/06/2020 às 17:45:25

(Foto: Reprodução)
(Foto: Reprodução)

Não há o que comemorar no Dia Mundial do Meio Ambiente, celebrado nesta sexta-feira (5). Isso, porque desde 1º de abril, o cerrado do Sítio Histórico e Patrimônio Cultural Kalunga, na Chapada dos Veadeiros, cerca de 450 km de Goiânia, tem sido desmatado, na região da Fazenda Pequi (Chapadinha). A ação aproveita a pandemia do novo coronavírus, momento em que o local [praticamente] zerou o fluxo de turismo e os moradores estão em isolamento social, para desmatar a área. Inclusive, nesta quinta-feira (4), o governo de Goiás realiza uma operação para conter e punir as ações criminosas no local. A pasta confirmou quase mil hectares desmatados por imagens de satélite.

Rodrigo Batista Neves, presidente do Conselho Municipal de Turismo de Cavalcante, explica que toda a comunidade foi pega de surpresa. Segundo ele, existiam rumores, mas apenas nesta semana foi possível confirmar a ação. Ele afirma que uma empresa de São Paulo arrendou um trecho de 3 mil hectares para plantio de soja, dentro do território Kalunga, e já teriam desbravado cerca de mil hectares, sendo que, eram 360 hectares no começo da semana. “Cerrado bruto, nativo. Existiam nascentes nesse trecho”, lamenta.

O presidente do conselho explica que o grupo adquiriu a área antes do decreto que determinou o local território Kalunga, há mais de 20 anos. Ele ressalta que o local pertencia a um suíço, que faleceu, e o filho dele arrendou a terra. “Eles querem fazer o plantio de 3 mil hectares, o que vai afetar, pelo menos, 15 bacias hidrográficas.” Rodrigo explica que a fazenda fica no ponto mais alto do sítio, e um dos mais altos da região. “Cerca de 1.400 metros de altitude. De lá, corre água para todos os rios.”

Ele afirma que os ativistas com quem atua chegaram até o grupo por meio de uma “laranja” chamada Renata (ele não revelou todo o nome). Ela, segundo Ricardo, responde por 18 processos ambientas: três deles ligados a trabalhos análogos à escravidão.

Preocupação

A preocupação de Rodrigo, que também é guia turístico, é que tudo que for utilizado na parte de cima, vai correr rio abaixo. “O que for jogado de veneno, fertilizante, que serão toneladas… O local fica no platô, acima das nascentes e bacias.” Ele enumera algum dos rios que serão prejudicados: “Corrente, Correntinha, Prata, Paranã, Santo Antônio, Maquiné, São Félix, o próprio córrego Santa Bárbara… Então, é um impacto que gera um extermínio de toda uma cadeia, não só do turismo, mas da própria população Kalunga, que tem os seus plantios, sua agricultura familiar.”

E ele continua: “Contaminando as águas de todos esses rios que vão descer para as comunidades, acaba a subsistência, pois não há mais como utilizar a água para irrigar. Acaba a produção, a renda extra do turismo.” Rodrigo conclui que o impacto não é só ambiental, mas social, e atinge famílias que estão ali há 300 anos. “Uma cadeia gigante. E do outro lado da bacia tem outras comunidades com modo de vida semelhante sendo afetadas.”

Petição online

O Conselho Municipal de Turismo de Cavalcante iniciou, também, uma petição online contra “destruição ambiental em Cavalcante na Chapada dos Veadeiros”. O objetivo do grupo é chegar a 1.500 assinaturas e, até o fechamento dessa matéria, já tinham 1.089. Confira AQUI.

“Não estamos abertos a fazer concessões! Atravessamos no momento, a maior crise sanitária do Brasil, estamos à beira da maior recessão econômica de nossa história e assistindo o saque de nossas riquezas. Aqui, não deixaremos a ‘Boiada passar’ sem antes lutar pelos nossos direitos e sobretudo pelo que consideramos justo, correto e legítimo”, diz trecho da petição.

Conivência

Segundo o guia muitos grupos já tem aderido a causa, inclusive o Green Peace, que procurou o conselho nesta quinta. Rodrigo, porém, acusa a cidade de complacência. Segundo ele, não houve consulta pública, mesmo sabendo que se tratava de sítio histórico. “As autoridades locais são coniventes.”

O secretário municipal de Turismo de Cavalcante, Wesley Ferreira da Silva, deixou o cargo na quarta-feira (3) – ele estava desde janeiro de 2017 e foi substituído por Ricardo Galvão. Questionado se sua saída tem relação com o desmatamento do sítio, ele afirma que não.

Ele pontua, ainda, que nem ele e nem a prefeitura tinham conhecimento do que estava acontecendo. “Ninguém tinha conhecimento, em nenhum momento a secretaria foi comunicada.” De acordo com Wesley, inclusive, assim que eles souberam, a Semad (Secretaria de Estado de Meio Ambiente) foi, imediatamente, avisada. “Ninguém soube em virtude de pandemia, pois não está tendo acesso.”

Ainda se inteirando

Ricardo Galvão, o novo secretário, citou que a prefeitura estava recolhida, com as atividades suspensas, e não tinha como saber o que ocorria sem denúncias. Ele, que era fiscal até ontem (literalmente), soube do ocorrido pelas redes sociais. “A denúncia, inclusive, foi feita diretamente à Semad.”

Ele, que ainda não esteve na área desmatada, afirma que o município não tem fiscais suficientes para uma fiscalização ampla no município, que é um dos maiores em extensão, no Estado. De acordo com ele, então, essa fiscalização será fortalecida por meio de parceria com a pasta estadual de Meio Ambiente. “Vamos sentar com a Semad e ver como poderá ser feita essa fiscalização, mesmo em tempos de pandemia.”

Ricardo diz que ninguém é contra o agronegócio e o desenvolvimento. Porém, este deve ser feito de forma compatível e dentro da lei. Ele deve ir, ainda, nesta quinta-feira, no local para verificar a situação.

Operação

O Governo de Goiás, por meio da Secretaria de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad), deflagra operação para conter e punir as ações criminosas de desmatamento registradas no território Kalunga, nesta quinta-feira. Apesar do sítio estar ligado à gestão do governo federal, ele também tem atuação estadual no que diz respeito a proteção do meio ambiente.

Segundo a pasta, o desmatamento identificado foi de quase mil hectares, conforme imagens de satélite. “Infelizmente, na Semana do Meio Ambiente, nós temos que fazer uma ação de fiscalização tão dura na região mais preservada do Cerrado brasileiro, onde nascem as águas dos principais rios brasileiros”, afirma a secretária Andréa Vulcanis.

(Foto: Reprodução/Satélite)