Violência

Protesto e audiência na Alego cobram e discutem soluções para mortes violentas de jovens em Goiás

Atlas da Violência 2018 revela que Brasil registrou mais de 62 mil homicídios em 2016; cerca de 50% foram de jovens de 15 a 29 anos. Movimento Negro quer justiça para adolescentes mortos na CIP


Hugo Oliveira
Do Mais Goiás | Em: 14/06/2018 às 11:50:04

Em frente à Alego, Movimento negro pede responsabilização penal de envolvidos no incêndio que resultou em nove mortos e um gravemente ferido na CIP, em Maio (Foto: Maianí Gontijo)
Em frente à Alego, Movimento negro pede responsabilização penal de envolvidos no incêndio que resultou em nove mortos e um gravemente ferido na CIP, em Maio (Foto: Maianí Gontijo)

Goiás ocupa a 8ª posição no ranking dos estados que mais registram homicídios de jovens a cada 100 mil habitantes. Enquanto no Brasil, em 2016, a taxa foi 65,5 óbitos, Goiás acumulou 96,4, número que supera resultados obtidos no Rio de Janeiro e Ceará, respectivamente na 9ª e 10ª colocações, ambos com 87,7. Encabeça a lista o estado de Sergipe, com 142,7 assassinatos. Os dados são do Atlas da Violência 2018, divulgado este mês pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).

Nesta quarta-feira (14), os números da pesquisa dão corpo a dois eventos simultâneos, do lado de dentro e de fora da Assembleia Legislativa do Estado de Goiás (Alego), onde acontecem protesto Caminhada Contra o Extermínio da Juventude Negra, que entre outras demandas, cobra justiça pelas mortes de nove adolescentes mortos no Centro de Internação Provisória (CIP), localizado no 7° Batalhão da Polícia Militar (PM), no início de maio; e uma audiência pública para discutir soluções e políticas públicas para promover a redução das mortes em Goiás.

Goiás figura na oitava colocação (Fonte: Atlas da Violência/Ipea/FBSP)

Para a coordenadora do Núcleo de Estudos de Relações Raciais no Instituto Federal de Goiás (IFG) e integrante da Rede Goiana de Mulheres Negras, Janira Sodré, Estudos sobre a violência no Brasil apontam raça e classe social como fatores determinantes de desigualdades e vulnerabilidade à violência. Isso ocorre, de acordo com ela, porque o estado brasileiro se apresenta forte com aparelhos de repressão a essas camadas, mas fraco com equipamentos sociais de educação e acesso à cultura, os quais podem oportunizar a saída desses jovens da condição empobrecida.

“Entendemos que é um estado ausente no que diz respeito a políticas sociais e, por isso, é corresponsável pelos índices de violência e, em última instância, pelo extermínio e genocídio de negros e pobres. O caso do CIP é ainda mais grave porque se tratava da vida de adolescentes custodiados, ou seja, sob a tutela do Estado. Por isso, estamos aqui para cobrar justiça, responsabilização penal dos envolvidos nas mortes e proteção para o Daniel (17), único sobrevivente do incêndio que levou nove adolescentes à morte em maio”.

Pedido de justiça por internos mortos na CIP incluiu fixação simbólica de crucifixos no gramado da Alego (Foto: Maianí Gontijo/)

Segundo ela, o Movimento Negro absorveu a luta por essas demandas porque o jovem negro é um dos principais alvos da violência e figura predominante no sistema prisional nacional. “De cada 100 jovens vítimas de mortes violentas, 77 são negros. Também somos maioria nos sistemas socioeducativo e prisional. Em Goiás, são cerca de 800 adolescentes internados na mesma situação que os do CIP. Um dos nossos objetivos é apontar isso, além da falta de condições mínimas de permanência dessas pessoas nesses ambientes inadequados e aquém da expectativa de ressocialização”.

Audiência pública

Enquanto crucifixos e fotografias dos jovens mortos após o incêndio na CIP eram fixadas no gramado da Alego pelos manifestantes, do lado de dentro do prédio, autoridades também conduziam uma apresentação e discussão sobre o problema da violência contra jovens em Goiás. Ao Mais Goiás, a liderança da inciativa e deputada Adriana Accorsi (PT), afirmou que a quantidade de homicídios registrados no país em 2016 – 62.517 (Ipea/FBSP) – se equipara ao de países que estão em guerra.

“Esse é um número muito alto que inclusive fica mais absurdo, se consideramos que mais de 50% desses homicídios eram de jovens. Essa epidemia de assassinatos, além de sofrimento, gera impacto financeiro ao estado e precisa ser fortemente combatida. Estamos aqui para discutir a situação em Goiás e para compartilhar experiências que conseguiram reduzir esses números. O intuito é apresentar um relatório com sugestões de medidas para combater essa realidade”. De acordo com o Atlas da Violência, 33.590 jovens com idades entre 15 e 29 anos foram mortos em 2016.

Alego – Autoridades e lideranças de movimentos debatem soluções para redução da violência em Goiás (Foto: Maianí Gontijo)

Em sintonia com o protesto do Movimento Negro, a política lembra que o recorte da violência contra o negro também será discutido, uma vez que “os números de jovens negros e oriundos das periferias são maiores que os das demais etnias”. “O protesto, sem dúvidas, reforça o nosso apelo por medidas, ações, políticas públicas de enfrentamento desses casos. Em todos os estudos sobre o assunto, uma das medidas mais eficientes e a ressocialização de pessoas que se envolvem com atos infracionais, mas, em Goiás, isso não funciona, haja vista o caso de adolescente internados em locais inapropriados”.

Para ela, há também que se ressaltar o ponto crítico atingido por Goiás quando o assunto é violência contra a mulher. “Goiás hoje é o terceiro estado em assassinato de mulheres. Então, para além de ressocializar jovens que praticam delitos, é necessário aumentar contingente das polícias, fazer investimento em tecnologias voltadas para segurança, dar melhores condições de trabalho à polícia investigativa e atuar com inclusão social, entre outras frentes”. Confia gráfico do Ipea/FBSP: