Saúde

Projeto da OVG atende mais de 600 grávidas adolescentes

Implantado em 1999, o Projeto Meninas de Luz, atende anualmente cerca de 600 adolescentes de 12 a 21 anos





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Mães experientes e preparadas para lidar com bebês têm de se desdobrar nos cuidados para que tudo corra bem. É preciso estar vigilante para garantir conforto e segurança o tempo todo à criança. Não é tarefa fácil para veteranas. Mas, o que dizer de adolescentes sem nenhuma noção sobre as atenções com o filho que acaba de vir ao mundo ou mesmo durante a gravidez?

Além das dificuldades provocadas pela falta de experiência, a jovem mãe ainda enfrenta as pressões por parte de familiares, a angústia diante de uma situação totalmente nova para ela, a sensação de abandono e impotência. E, o que é pior, a maioria delas sem a mão amiga que lhe inspire confiança e ajude a superar as aflições, que não são poucas.

Implantado em 1999, o Projeto Meninas de Luz, desenvolvido pelo Centro Social Dona Gercina Borges Teixeira da Organização das Voluntárias de Goiás, atende anualmente cerca de 600 adolescentes de 12 a 21 anos. Acolhe filhas de famílias de baixa renda que enfrentam os problemas da maternidade precoce. O projeto registra muitos casos de abuso e violência sexual, que acabam resultando em uma gravidez inesperada e indesejada.

A iniciativa envolve um trabalho de equipe multidisciplinar, que, inicialmente, cuida da assistência de urgência, da ajuda na superação das dificuldades e projeta perspectivas de vida e de futuro. É pensada então uma forma de recomeço para essas adolescentes. A mãe e o bebê recebem atendimento até um ano após o nascimento. Um dos objetivos é direcionar o apoio para auxiliar a jovem a cuidar de forma adequada do filho, para que ele tenha um desenvolvimento saudável.

Apoio
O projeto Meninas de Luz inclui várias iniciativas de auxílio, entre elas os atendimentos pré-natal, psicológico, odontológico, social, orientações sobre saúde, educação sexual, planejamento familiar e direitos do cidadão. Tudo repassado de forma didática para facilitar a compreensão de conceitos e orientações voltados para a saúde e o bem-estar da mãe e da criança.

As ações de amparo começam já no primeiro contato com a jovem gestante que procura a unidade da OVG. É feito um cadastro com os dados pessoais e um pequeno histórico da vida da jovem, com informações que ajudam as integrantes do projeto a desenvolver os procedimentos a serem adotados ao longo da gestação e depois do parto.

Numa outra etapa do atendimento, o ginecologista solicita os exames do pré-natal das grávidas acolhidas no Meninas de Luz e se encarrega também dos aconselhamentos. Os exames são providenciados pelo projeto e analisados posteriormente pelo médico, para avaliação da criança em gestação e a saúde da mamãe.

Chegada a hora do parto, são tomadas as medidas para que a grávida seja acolhida em um hospital da rede pública, portando a carteirinha do Sistema Único de Saúde. Transporte em ambulância, envolvimento da família, tudo é pensado para fortalecer e estimular o sentimento materno, a sensação de conforto e segurança e afetividade. A assistência social inclui também a doação do kit enxoval com as roupinhas para o recém-nascido.

A programação das palestras reforça muito os cuidados com o bebê. Entram em cena, em momentos diferentes, a nutricionista, com as recomendações relacionadas à alimentação do bebê, a odontóloga, reforçando a importância da higiene bucal, os conselhos da psicóloga e da assistente social sobre a importância do aleitamento materno, as vacinas e o teste do pezinho. Uma enfermeira também está sempre a postos para prestar assistência em caso de apuros.

“O Meninas de Luz é uma iniciativa da OVG voltada para um segmento da população que precisa de um atendimento carinhoso e competente. E isso a nossa equipe do Centro Social Dona Gercina faz com muito profissionalismo. O projeto tem uma linha de ação que contempla ao mesmo tempo o lado humano, a cidadania e a inclusão, por isso é tão importante”, afirma a presidente de honra da OVG, Valéria Perillo.

Resgate da autoestima
Lilissainy da Silva Rodrigues, de 18 anos, brinca com o filho Artur, de três meses, enquanto aguarda o lanche servido às jovens atendidas no Centro Social, em Campinas. Ela relata que estava no quarto mês de gestação quando procurou o Meninas de Luz, num momento em que rejeitava gravidez. “Não tinha a menor noção de nada, não sabia o que era ser mãe. Aprendi tudo aqui e sei que meu filho vai se desenvolver bem graças às orientações que recebo”, observa.

A psicóloga Liliane Medeiros diz que a desestruturação familiar afeta a maioria das atendidas. “Trabalhamos a questão da autoestima, porque elas chegam aqui confusas, desorientadas diante da situação que enfrentam”, afirma. A psicóloga explica que muitas não aceitam a gravidez precoce e é preciso mostrar a necessidade do vínculo afetivo mãe-filho.

“Explicamos a elas que a criança não é empecilho, que podem seguir a vida normalmente, estudar, fazer curso de formação profissional e trabalhar. É muito importante mostrar que há perspectiva de futuro e que podem ser felizes com seus filhos. Por isso, resgatar a autoestima é crucial”, cita Liliane.

Camila Fernanda Lopes de Souza, de 21 anos, também participa de um dos grupos do pós-parto com a filha Ana Júlia, que, como Artur, tem 3 meses de vida. “O que a OVG fez por mim não tem preço. É maravilhoso estar aqui. Com tanto apoio e com as coisas que estou aprendendo, tenho certeza que ela vai crescer com saúde, graças a Deus”, afirma, aconchegando a criança ao peito.

O carinho dedicado pelas adolescentes aos filhos demonstra que as meninas fragilizadas pelas circunstâncias superam a falta de experiência na hora de cuidar dos pequenos. Cercam os filhos de carícias e se esmeram em zelos, aparentando uma maturidade que ainda não alcançaram plenamente.

“Um dos objetivos do  Meninas de Luz é o amadurecimento das adolescentes durante e após a gravidez. Estimulamos nelas a análise do que aconteceu, para que se reorganizem e levem em frente suas vidas”, conta a assistente social Neuza Alves. A volta à escola é especialmente trabalhada pela equipe, bem como a questão da cidadania e os direitos da mulher.

O aleitamento materno é uma das principais recomendações feitas quando o assunto é alimentação do bebê. As jovens ouvem da nutricionista do projeto que o leite da mãe é o melhor alimento para o bebê, com todos os nutrientes necessários nos primeiros meses de vida. É de fácil digestão e reduz o risco de doenças. Após o sexto mês, no entanto, deve começar a alimentação complementar, que não dispensa a continuidade do uso do leite materno.

“É chegado o momento das comidinhas pastosas, as papinhas e sopinhas de frutas e verduras, que devem ser trituradas com o garfo e não batidas em liquidificador. A recomendação se justifica pelo fato de a criança, nesta fase da vida, ter de treinar a mastigação, um ato a ser estimulado”, orienta a nutricionista Ivana Chaves.

As adolescentes atendidas no Centro Social Dona Gercina recebem ainda pré-natal odontológico, pois a saúde do bebê também depende da saúde bucal da gestante.” Cáries ou doença nas gengivas da mãe podem provocar problemas na criança em gestação e até ocasionar um parto prematuro, além de malformações em partes da boca”, ressalta a odontóloga Silvia Helena. Isso porque as bactérias da cárie migram da mãe para o bebê, onde podem fazer estragos.

Avaliação
Para evitar essas complicações, a equipe do projeto encaminha a adolescente grávida para avaliação e tratamento odontológico. São feitos os procedimentos curativos e preventivos. A metodologia acaba beneficiando mãe e filho e o tema é tratado nas palestras. As meninas aprendem também que a limpeza bucal da criança deve começar aos três meses de vida, usando uma fralda limpa e molhada com água filtrada.

“Essa prática vale como treinamento da criança para o uso futuro do fio dental. Ela se acostuma a isso quando é feita habitualmente a limpeza com a fralda umedecida”, ensina Silvia. Ao nascer o segundo dentinho, é hora de começar a usar o fio dental.

Porém, a escova entra em cena ao nascer o primeiro dentinho. O creme dental tem de ser sem flúor. “A principal higienização bucal do bebê é a noturna, horário em que a presença de saliva, que ajuda a combater a cárie, fica reduzida”, diz. A ingestão de açúcar precisa ser controlada para prevenir problemas nos dentes.

Integram ainda o projeto Meninas de Luz as recomendações sobre o cartão de vacinação da criança, com o calendário de vacinas oferecidas pelo Ministério da Saúde em todo o território nacional, e o teste do pezinho, um exame de avaliação do bebê para detectar enfermidades genéticas, que precisam de tratamento imediato de forma a evitar graves sequelas futuras.