Performance com travestis e menção à Nossa Senhora é cancelada em MG

A performance do coletivo Academia Transliterária estava prevista para acontecer neste sábado (20), às 20h.


FolhaPress
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Do FolhaPress | Em: 20/07/2019 às 19:16:21

Peça “Coroação de Nossa Senhora das Travestis” foi retirada da programação de Belo Horizonte por decisão do prefeito Alexandre Kalil (PSD) (Divulgação)
Peça “Coroação de Nossa Senhora das Travestis” foi retirada da programação de Belo Horizonte por decisão do prefeito Alexandre Kalil (PSD) (Divulgação)

Chamada de “fomento ao preconceito e à discriminação” pela Arquidiocese de Belo Horizonte, e de “blasfêmia” em uma abaixo-assinado com mais de 23 mil assinaturas, a peça “Coroação de Nossa Senhora das Travestis” foi retirada da programação da Virada Cultural da cidade por decisão do prefeito Alexandre Kalil (PSD).

O anúncio foi feito no Twitter oficial de Kalil, onde ele tem 1,2 milhão de seguidores, nesta sexta-feira (19). “Defendo todas as liberdades. Sou católico, devoto de Santa Rita de Cássia. Fiquem tranquilos, ninguém vai agredir a religião de ninguém. Isso não é cultura”, escreveu ele.

A performance do coletivo Academia Transliterária estava prevista para acontecer neste sábado (20), às 20h. O grupo diz que ficou sabendo da decisão pelas redes sociais, sem contato prévio. Tentaram uma reunião com a Secretaria Municipal de Cultura para tentar revertê-la, mas o encontro não mudou a posição oficial.

Em nota, a produção da Virada Cultural diz que não teve intenção de ferir a crença religiosa de qualquer grupo e preza pela pluralidade, mas optou pela suspensão da apresentação “na medida em que uma parte da sociedade sentiu-se duramente ofendida”.

A ideia da performance, que o grupo chama de “atraque literário”, surgiu durante uma preparação de rotina. Uma das integrantes, Nickary Aycker, se enrolou na bandeira trans e colocou uma coroa de flores na cabeça. “Parecia uma entidade sagrada”, diz uma nota do coletivo, “a partir dessa visão em todo o seu brilho, vimos uma espécie de culto a todas as travestis”.

Realizada há dois anos, a performance já passou por vários festivais. Durante 60 minutos, o grupo faz um cortejo, interage com o público e termina na coroação de uma das sete travestis que compõe o elenco. A cada apresentação, uma atriz diferente recebe a coroa.

“A coroação é da nossa senhora, não quer dizer que seja a Nossa Senhora, mãe de Jesus Cristo. Não é isso. A gente não trata de religião, não discute sobre isso e nem tem intenção de ofender religião nenhuma, porque não é nosso foco de trabalho. A nossa perfomance é para celebrar a vida das pessoas trans”, explica João Maria Kaysen, 28, produtor geral.

A nota da Arquidiocese de Belo Horizonte, assinada pelo arcebispo Dom Walmor Oliveira de Azevedo, presidente da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), pede a suspensão do evento e convoca todos os católicos a se manifestarem “exigindo respeito”. A nota também chama a performance de “ato abominável contra a fé cristã católica”.

“Exigimos e esperamos que as autoridades competentes e os organizadores suspendam este evento, por ser incontestável fomento ao preconceito e à discriminação, desrespeito aos valores da fé cristã católica, devendo saber que estão comprometendo, gravemente, a paz e o exigido relacionamento cidadão respeitoso”, diz o texto.

O abaixo-assinado contra a realização do evento foi criado pelo perfil Instituto São Pedro de Alcântara. Na mesma página, em novembro do ano passado, o mesmo perfil havia criado uma petição direcionada a Dom Walmor, “Pelo fim da promoção da ideologia de gênero na Arquidiocese de Belo Horizonte”. O objetivo seria marcar posição contra a “promoção do gayzismo na igreja”.

Em setembro de 2017, logo após a censura à exposição Queermuseu, em Porto Alegre, uma decisão judicial cancelou a apresentação da peça “O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu”, que aconteceria no Sesc Jundiaí. A peça recria a história de Jesus como uma transexual.

“A gente não está mais discutindo somente cultura, a gente está falando de política, é o cenário atual. A gente não se surpreende, mas também não vai baixar [a cabeça] e vai continuar trabalhando”, diz João Maria.

Ele conta que a Academia Transliterária, criada há três anos, além do trabalho artístico, já ajudou pessoas em situação de rua e com problemas de dependência química. “Não tem nada de errado com o nosso trabalho, a leitura que está equivocada. Estamos tranquilos, tranquilas, tranquiles”.