Indiciamentos

PC encaminha sete inquéritos contra João de Deus e esposa à Justiça Goiana

Dos casos remetidos, quatro tem sugestão de arquivamento por estarem em situação de prescrição. Mulher do médium será indiciada por posse ilegal de arma de fogo


Hugo Oliveira
Do Mais Goiás | Em: 10/01/2019 às 13:50:36

O médium João de Deus aguarda vaga em um hospital do Sistema Único de Saúde (SUS) que tenha atendimento especializado cardiológico. (Foto: Walterson Rosa/Folhapress)
O médium João de Deus aguarda vaga em um hospital do Sistema Único de Saúde (SUS) que tenha atendimento especializado cardiológico. (Foto: Walterson Rosa/Folhapress)

Nesta quinta-feira (10), a Polícia Civil (PC) goiana irá remeter sete inquéritos relacionados ao médium João Teixeira de Faria ao Poder Judiciário. Tratam-se de dois por porte ilegal de arma de fogo, um deles contra a mulher do médium; um por violação sexual mediante fraude praticada em 2016; três por estupros ocorridos entre 1987 e 1990; e um abuso sexual. Os quatro últimos casos já estão em situação de prescrição e serão encaminhados à Justiça com sugestão de arquivamento. O líder espiritual está preso desde 16/12 por casos de violação sexual e em razão da posse ilegal de armas.

De acordo com a delegada Karla Fernandes, responsável pelas apurações na Delegacia Estadual de Investigações Criminais (Deic), a esposa, a advogada Ana Keyla Teixeira, foi indiciada porque não soube justificar sua relação com uma das seis armas encontradas em Abadiânia e Anápolis. “Não há como uma pessoa morar na casa e não saber que lá tem arma, sendo que uma delas foi encontrada dentro de uma gaveta com roupas íntimas dela. Se tivesse, em depoimento, reconhecido o armamento e dito que eram todas dele, apenas o médium seria indiciado”.

Ainda sobre as armas, João alegou à polícia estar fazendo “bem para a comunidade”. “Ele afirma que pegou uma das armas com uma pessoa que estava para cometer suicídio; outra com uma mulher que ameaçava matar o marido e a amante; uma terceira, ele teria trocado por pedras preciosas no garimpo; e mais uma pegou como pagamento de um empréstimo a um garimpeiro. João disse não se lembrar da origem das duas remanescentes”, sublinha a delegada.

Delegada Karla Fernandes, responsável pelas apurações no Caso João de Deus (Foto: Mais Goiás)

Em relação aos indiciamentos por abuso sexual, Karla reforça que apenas um, por enquanto, não está sujeito à extinção de punibilidade (prescrição). “É uma vítima de São Paulo, que registrou o crime em Goiás. O caso dela é parecido com os outros relatados: ocorreu durante um atendimento em espaço reservado, em março de2016, mas não houve conjunção carnal. Tratamos aqui de violação sexual mediante fraude e não estupro. Quanto aos outros, apesar de serem encaminhados para arquivamento, os depoimentos foram colhidos para traçar o padrão comportamental do detido em relação às vítimas”.

Este portal tentou falar com a defesa de João de Deus, porém, as ligações não foram atendidas.

Dinheiro

Indícios de lavagem de dinheiro e estelionato ainda estão sendo apurados. Segundo Karla, os materiais, como pedras preciosas e outros bens serão alvo de perícia. “Temos que aguardar o estudo pericial das pedras, pela Polícia Federal (PF), e do patrimônio dele. Com a mudança de delegados, é um procedimento que deverá demorar um pouco mais para ser concluído. Em relação às joias, a Caixa Econômica já fez uma avaliação, cujos resultados ainda serão mantidos em sigilo”.

João ainda afirma comercializar as pedras preciosas, mas de forma legal. “Diz ainda que possui notas para as pedras preciosas, mas até o momento, não tivemos acesso a nenhuma documentação relativa a isso. A perícia é então necessária para determinarmos a autenticidade ou não das pedras e se houve estelionato ou sonegação fiscal”.

Tráfico de bebês

A força-tarefa criada pelo Ministério Público de Goiás (MP-GO) para apurar os crimes cometidos por João de Deus ouviu duas ativistas de Direitos Humanos na última terça-feira (8). Elas relataram ter conhecimento de possíveis crimes do médium, entre eles o tráfico internacional de crianças. Conforme expõe a delegada, a competência para investigar esse assunto específico é da Polícia Federal. “A PC não tem atribuição direta para apurar esses tipos de crime. Estamos trabalhando com fatos concretos que estamos instaurando. Se há algo relacionado a isso, o Ministério Público deve encaminhar à PF”.