Do Mais Goiás

Pandemia impede Procissão dos Pretos Velhos pelo segundo ano consecutivo, em Aparecida

A data comemorativa foi incluída no calendário oficial da cidade por meio de Lei Municipal em 2019

Procissão dos Pretos Velhos 2019, em Aparecida (Foto: Igor Caldas/Reprodução)
Procissão dos Pretos Velhos 2019, em Aparecida (Foto: Igor Caldas/Reprodução)

Pelo segundo ano consecutivo, a Procissão dos Pretos Velhos, manifestação popular religiosa anual que seria realizada no próximo domingo (16), em Aparecida de Goiânia, deixa de ocorrer devido às restrições da pandemia da Covid-19. Em 2019, por Lei Municipal, a data da procissão ficou anualmente instituída no calendário oficial da cidade para o terceiro domingo de maio. O marco foi resultado da luta contra intolerância religiosa e igualdade racial, lembrada neste 13 de maio, Dia da Abolição da Escravidão no Brasil.

Em 2014, o então prefeito de Aparecida, Maguito Vilela, instituiu o 13 de maio como Dia Municipal dos Povos e Comunidades Matriz Africanas no município. Cinco anos depois, a Lei Municipal foi alterou a data Dia da Procissão dos Pretos Velhos e incluiu no calendário oficial da cidade. A Lei também estabelece que a comemoração da data seria realizada anualmente, no terceiro domingo de maio.

O líder religioso umbandista e presidente do Conselho de Umbanda do Estado de Goiás (CUEGO), Mestre André Luís de Sousa, ressalta a importância da inclusão da data comemorativa no calendário oficial da cidade. André ocupava o cargo de secretário de Igualdade Racial no município quando o Dia Municipal dos Povos e Comunidades de Matriz Africana foi instituído e participou do movimento para transformar a Lei em 2019.

  • PretoVelho1 Foto: Imagens de Pretos Velhos ao lado de São Benedito; 2019 (Foto: Igor Caldas/Reprodução)
  • pv8 Foto: Imagens de Pretos Velhos ao lado de São Benedito; 2019
  • pv-3 Foto: Oferenda a Exu para abrir os trabalhos da Procissão dos Pretos Velhos; 2019 (Foto: Igor Caldas/Reprodução)
  • pv1 Foto: Oferenda a Exu para abrir os trabalhos da Procissão dos Pretos Velhos; 2019 (Foto: Igor Caldas/Reprodução)
  • pv2 Foto: Saída da Procissão dos Pretos Velhos da Praça da Igreja Matriz; 2019 (Foto: Igor Caldas/Reprodução)
  • pv-4 Foto: Presidente do Conselho Umbadista de Goiás (CUEGO), André Luis da Silva; 2019 (Foto: Igor Caldas/Reprodução)
  • PV5 Foto: Saída da Procissão dos Pretos Velhos da Praça da Igreja Matriz; 2019 (Foto: Igor Caldas/Reprodução)
  • PV6 Foto: Saída da Procissão dos Pretos Velhos da Praça da Igreja Matriz; 2019 (Foto: Igor Caldas/Reprodução)
  • PV7 Foto: Saída da Procissão dos Pretos Velhos da Praça da Igreja Matriz; 2019 (Foto: Igor Caldas/Reprodução)

Religião Inclusiva

Mestre André lembra com saudosismo da procissão realizada em 2019, data da promulgação da Lei Municipal que instituiu o dia 13 de maio como Dia da Procissão dos Pretos Velhos. “Foi um momento lindo e inclusivo. Antes da procissão, realizamos um ato ecumênico reunindo lideranças municipais da Igreja Católica, Evangélica e do Islã” disse.

Segundo o líder umbandista a Procissão dos Pretos Velhos de 2019 reuniu aproximadamente 49 terreiros de Umbanda e religiões afro-brasileiras e mais de 1000 pessoas participaram da caminhada que partiu da Praça da Igreja Matriz. Ainda de acordo com André, Aparecida de Goiânia pode ser considerado o município com maior número de terreiros do estado.

Referência em Goiás

“O município tem mais de 200 terreiros de religiões afro-brasileiras e de matriz africana e mesmo assim, ainda somos alvo de preconceito e invisibilidade. Buscamos levar as manifestações populares e religiosas para a sociedade por meio da Procissão dos Pretos Velhos”, defende André. Para André, mesmo sendo alvo de preconceito, a Umbanda é uma religião inclusiva que preconiza um Deus único e a prática da caridade ao próximo.

Pretos Velhos são entidades da religião afro-brasileira Umbanda que sincretiza elementos das religiões de matrizes africanas, da pajelança e xamanismo indígena, do catolicismo e de outras culturas tipicamente brasileiras, como o catimbó e a encantaria. Para os adeptos dessa fé, os espíritos dos Pretos Velhos aparecem no arquétipo de velhos africanos ou escravos incorporados em médiuns para dar conselhos, realizar “passes” e prestar a caridade.

Exclusão e preconceito

Líderes de religiões afro-brasileiras não foram incluídas no evento de celebração de aniversário de Aparecida (Foto: Jucimar de Sousa/MaisGoiás)

Líderes de religiões afro-brasileiras não foram incluídas no evento de celebração de aniversário de Aparecida (Foto: Jucimar de Sousa/MaisGoiás)

Às vésperas da data oficial da Procissão dos Pretos Velhos, na celebração oficial do aniversário de 99 anos de Aparecida de Goiânia, a prefeitura incluiu um voo de helicóptero com líderes religiosos para abençoar o município do alto. No entanto, nenhum líder de Umbanda ou de religiões de matrizes africanas foi incluída no evento. Participaram apenas um padre da Igreja Católica e um pastor da Igreja Evangélica.

O ex-secretário de Igualdade Racial do município e líder religioso umbandista, André Luis da Silva, declara que houve falta de tato do Poder Municipal em não incluir uma liderança de religião afro-brasileira para participar da celebração. “Sentimos muito de não fazer parte desse momento tão importante para cidade. Justamente no aniversário do município com maior número de terreiros do estado”, lamentou André.

O Mais Goiás questionou a prefeitura de Aparecida porque nenhum líder de religião de matriz africana ou afro-brasileira foi chamado para participar do voo de helicóptero na celebração dos 99 anos da cidade, mas não obreve resposta até o fechamento da matéria. O espaço segue aberto para manifestação sobre o caso.

Intolerância

Na ocasião da promulgação da lei que incluiu a manifestação popular da Procissão dos Pretos Velhos no calendário oficial de Aparecida de Goiânia, a religião foi alvo de preconceito e intolerância por um líder de outra vertente religiosa.

O comentário feito pelo padre Luiz Augusto Ferreira da Silva em suas redes sociais gerou revolta e indignação. Na ocasião, o post do líder religioso criticou a inclusão da manifestação popular religiosa no calendário oficial de Aparecida. Em seu instagram, o católico escreveu: “Só essa que faltava”.