Orgasmo e prazer: amigos que nem sempre andam lado a lado

No Dia do Orgasmo, especialistas apontam que para ter prazer nem sempre é necessário ter orgasmo

No Dia do Orgasmo, especialistas apontam que o chegar ao orgasmo nem sempre é necessário para sentir prazer
No Dia do Orgasmo, especialistas apontam que o chegar ao orgasmo nem sempre é necessário para sentir prazer (Foto: Go Outside)

Neste sábado (31), é comemorado o Dia do Orgasmo. Para muitos, o orgasmo é o objetivo final de qualquer transa. A ideia defendida é que se a pessoa não gozou, ela não sentiu prazer. Mas pare e reveja seus conceitos. É possível ter orgasmo sem ter relação sexual. E ter uma relação sexual com muito prazer sem ter orgasmo.

Para começar, o que te dá prazer? Qual é o seu tesão pela vida neste instante? Se você não tem uma resposta, você não está vivendo. E quem afirma são especialistas da área sexual.

É possível sentir prazer em diversos acontecimentos da vida. Isso acontece e é repetido a partir do momento em que você descobre uma recompensa, uma gratificação positiva naquele comportamento. O adulto, entretanto, precisa entender que ele também brinca. E o sexo pode ser essa brincadeira do adulto. Porém, a libido – defendida por Freud, pai da psicanálise, como energia que aflora os instintos – não visa apenas o prazer sexual, mas, sim, o desejo pela vida.

“Você pode ter o prazer orgasmático com um carro novo na garagem. Você muda totalmente seu dia. Você se estimula. Se o seu prazer é fazer crossfit, vá fazer crossfit. Pois quando você investe em você, você está investindo em um relacionamento. O erro comum entre casais é querer se formar um só. E a sua individualidade? Cada um tem que procurar da fonte de prazer, beber dessa água e cada um fica feliz. Na cama também, você não vai buscar o prazer apenas pela relação do momento, mas o prazer pela vida”, destaca o sexólogo e terapeuta sexual Rodrigo Mansil.

O psicanalista Luan Diego Marques completa que muitas pessoas acreditam que uma relação sem orgasmo não foi bem executada, mas para o sucesso de atingir esse clímax está muito mais relacionado com o humor da pessoa do que no desempenho sexual.

“Apesar de saber que o orgasmo é um clímax de prazer, a relação sexual é um todo. Temos que valorizar. Ter orgasmo é diversos fatores como saber como a pessoa está se sentido naquele dia, como está seu humor, o nível de relaxamento. E mesmo se não atingiu o orgasmo, aquele parceiro ou parceira teve muito prazer na relação. Temos que ter o cuidado, como se a ausência dele indicasse um desprazer ou um não aproveitamento do ato sexual . É um clímax, mas parte de uma interação. A relação não é apenas o ato inicial da penetração, mas de contato inicial que o casal tem em si”.

Impactos da pandemia no prazer

No último um ano e meio, as pessoas têm olhado para si de uma forma que, em tempos “normais”, não seria possível. Segundo Luan, a pandemia culminou em conflitos que acabaram levando muitos casais a terem problemas na cama. Muitos desses confrontos são fruto do estresse e ansiedade aflorados nas pessoas.

“São fatores que diminuem os desejos e até a execuções desses atos sexuais. A gente sabe que muitas famílias vivenciaram o luto, medo de serem contaminadas, perda de amigos e pessoas próximas. Isso impactou e impacta para alguns até hoje. Nossa vida sexual também depende do nosso humor. Então, a nossa saúde psíquica é necessária para que o desejo sexual aconteça”, pontua.

Por outro lado, Luan destaca que a pandemia trouxe um aspecto positivo para alguns casais, que puderam se reconectar nesse período, já que a rotina anterior não permitia.

“Para os casais que conseguiram construir um ambiente de maturidade dentro de casa, uma aproximação foi possível. A gente sabe que muitos casais tinham dificuldades de terem contato físico seja pelo excesso e trabalho ou pelas demandas da vida. E a aproximação provocada pelo isolamento social foi uma oportunidade de se reconectar e melhorar o seu contato físico e sexual”, diz.

Mente sã, relacionamento são

Apesar de parecer óbvio, mas não praticados por boa parte dos casais, o diálogo é uma boa saída para sanar conflitos. “A conversa facilita o processo de uma aproximação para ajustar, entender e compreender o outro. Às vezes, são situações externas que inferem na vida sexual, mas, se o outro não sabe, ele imagina que o problema pode ser ele e isso pode ocasionar o distanciamento”, destaca Luan, que ainda reforça a necessidade de um e respeitar o espaço do outro para que não haja cobranças desnecessárias.

Um outro fator que deve ser observado é o uso excessivo da tecnologia em um espaço a dois. Luan afirma que isso pode levar ao desgaste de uma boa convivência. “Há casais que moram juntos, mas vivem um distanciamento interior. Cada um tem seu tablet, seu computador, seu celular, usam as redes sociais em excesso. Ou mesmo maridos que gostam de videogame o tempo todo”, explica. “Um presente que podemos dar ao outro é a atenção. Quando a gente oferece algo de forma ativa, a gente aproxima esses afetos e facilita o processo de interação sexual”, sugere.

Sexo são

Mansil explica que ir para cama é levar, além do tesão, traumas, medos e inseguranças. Estes podem ser fatores, inflamados pela pandemia, que tendem a atrapalhar o desempenho sexual. “A cama é sempre um local de visitar muitas emoções. Sexo não é só penetração. E não é só com a penetração que você vai consegui o orgasmo e principalmente dividir essa sensação com outra pessoa. Então você precisa estar bem fisiologicamente e mentalmente”, destaca.

Rodrigo pontua que a média da transa entre os brasileiros que estão vivendo uma relação estável – monogamia – é de duas vezes por semana. Mas esse número pode ser afetado devido à estressante rotina desempenhada por cada um.

“As pessoas trabalham, estudam, às vezes têm dois trabalhos, filhos, contas para pagar, problemas com com o chefe, tristeza, frustrações… Quem é que vai conseguir fazer sexo com a cabeça em outro lugar? A questão fisiológica, por exemplo, pode ser afetada pelo fato de você tomar um medicamento antidepressivo que pode ter como efeito colateral a baixa da libido, que vai diminuir o seu desejo sexual”, reforça.

Pornografia traz mais problemas

Uma coisa que deveria fluir com muita naturalidade ainda vive uma espécie de ditadura. A ditadura do orgasmo, como pontua Rodrigo. Isso nada mais é do que você colocar as suas emoções sobre produtos vendidos pelo mercado pornográfico. O sexólogo explica que a relação sexual envolve diversos fatores e, um deles, é a espontaneidade. Ou seja, deixar fluir naturalmente.

“Eu vejo que a relação sexual é muito comparada com os desempenhos dos filmes adultos, que contam com variadas performances, corpos perfeitos, posições, fantasias, fetiches, tudo sendo realizado em duração de 30 a 40 minutos. Mas na vida real não é assim. E não é porque você uma relação sexual que você é obrigado a chegar ao orgasmo. Sexo não é só penetração”, destaca.

Sintomas

Rodrigo destaca que muitas pessoas podem sentir alguns “sintomas” que mostram que a mesma não está bem dentro daquela relação a dois. Mas acabam deixando isso passar despercebido por acharem que é “normal”. Isso, segundo ele, não pode acontecer. “Muitos homens têm medo de broxar pois acha que vai perder a virilidade, já que ele tem a necessidade de sentir ereção. Nesse caso, é importante ele ir no urologista e fazer um exame de testagem hormonal. Se estar tudo certo, mas ainda não está ‘funcionando’, é onde entra a terapia sexual para investigar o que está por trás desse ‘espelho’, em que ele se olha, mas não se enxerga adequado”, pontua.

Apesar de não ter necessidade de gozar em todas as relações sexuais, a mulher também pode fazer o exame de testagem hormonal com o ginecologista e também ir para a terapia sexual. Porém, traumas e/ou a falta de conhecimento do próprio corpo são fatores que contribuem com que as mulheres aceitem “qualquer coisa” do parceiro na cama.

Um fator, por exemplo, que até hoje ainda é tratado como tabu é a masturbação feminina, atividade que pode auxiliar no autoconhecimento.

“Anorgasmia é uma questão que as mulheres enfrentam muitas vezes porque elas tiveram dificuldade em se masturbar e não praticam isso. Isso acontece porque elas aprenderam culturalmente, com a família ou com a religião que isso é sujo, é errado, é feio. Mas não é injusto? O homem pode e mulher não pode? Com isso, o homem consegue conhecer o seu próprio corpo, o seu prazer, porque ele pratica isso. Ele aprendeu a saber onde é mais sensível, de que jeito gosta mais. Então, chegar ao orgasmo é, em tese, mais fácil para o homem. E se a mulher não se masturba, como ela vai saber falar pro parceiro onde é o ponto mais sensível nela? Está ai uma questão a ser investigada. Quem se masturba, tem maiores chances de atingir o orgasmo”, destaca.

Rodrigo é categórico em dizer que uma das possível formas de “broxar” o relacionamento é a falta de informação. “Se você sente esses sintomas e não dá conta de resolver, procura informação, procura um especialista para não deixar o seu relacionamento acabar por conta disso. Sexo não é tudo, não é a coisa mais importante, mas é uma das formas de se conectar com o outro”, pontua.