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Nova crise na Venezuela pode agravar falta de alimentos no país

Colheita da próxima estação também corre risco, segundo o Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas

Nova crise na Venezuela pode agravar falta de alimentos no país
Nova crise na Venezuela pode agravar falta de alimentos no país (Foto: Reprodução/Pixabay)

“A escassez de óleo diesel é muito grave. Se não houver uma solução, ainda que transitória, nos próximos 15 dias, toda a cadeia produtiva vai começar a ser paralisada.” A advertência é de Aquiles Hopkins, presidente da Fedeagro, associação que reúne produtores agropecuários da Venezuela.

Segundo ele, a escassez de diesel no país tem levado a perdas de colheitas devido à falta de transporte para levar os alimentos aos mercados. A colheita da próxima estação também corre risco num país onde dois terços da população não conta com fornecimento estável e suficiente de alimentos, segundo o Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas.

O problema não é sentido somente nos campos de estados eminentemente agrícolas, como Portuguesa e Táchira, mas também na capital, Caracas, onde as filas de ônibus e caminhões para receber diesel gratuito entregue pelo Estado são imensas — maiores até que a fila de carros particulares em busca de gasolina.

No posto de gasolina da avenida San Martín, no oeste de Caracas, o motorista Alberto Guerrero espera resignado ao volante de seu velho caminhão. “Estou desde a primeira hora da manhã aqui e não sei quando vou conseguir abastecer.”

Ele se dedica aos transporte de alimentos e ferragens por Caracas, mas disse que tem tido que reduzir sua atividade por falta de combustível. “Antes eu saía cinco dias por semana. Agora, só consigo fazer (o transporte) de vez em quando.”

Antes faltava gasolina, agora falta também diesel

Os venezuelanos se acostumaram nos últimos meses a lidar com a crescente escassez de gasolina num país que possui, paradoxalmente, as maiores reservas de petróleo do mundo. Mas, nas últimas semanas, viram o problema se estender para o diesel.

O diesel é um hidrocarboneto líquido utilizado principalmente como combustível para calefação e em motores automotivos.

Como é o combustível mais utilizado para o transporte de carga, incluindo de alimentos e medicamentos, os especialistas alertam que o problema pode encarecer custos, agravando o problema de hiperinflação, e dificultando ainda mais o acesso dos venezuelanos a comida.

“Se isso não for resolvido, a insegurança alimentar vai aumentar drasticamente”, prevê Hopkins.

Nesse contexto, crescem as vozes que pedem respostas do governo de Nicolás Maduro na Venezuela e apelam para que o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, retire o veto às exportações de óleo diesel à Venezuela imposto por seu antecessor, Donald Trump.

Luis Vicente León, presidente da consultoria Dataálisis, prevê que os “impactos humanitários e sobre a economia” da falta de diesel possam ser maiores que os provocados pela escassez de gasolina.

Por que falta diesel na Venezuela?

A produção de diesel na Venezuela tem sido afetada pelos problemas na PDVSA, a petroleira estatal, que, em paralelo à crise econômica que assola o país, tem sofrido nos últimos anos uma queda drástica de produção, atribuída por especialistas à má-gestão dos governos chavistas.

O Ministério da Comunicação da Venezuela não respondeu ao pedido de comentários feito pela BBC Mundo. Faz anos que o governo venezuelano atribui os problemas no país à “guerra econômica” com os EUA.

O vice-almirante Edward Centeno, comandante da Zona de Operação de Defesa Integral do estado de Falcón, na Venezuela, admitiu problemas de fornecimento e disse que a PDVSA trabalha para normalizar a oferta de diesel.

Francisco Monaldi, especialista em política energética do Instituto Baker, nos EUA, disse ao jornal El Estímulo que “as refinarias da PDVSA vinham apresentando problemas graves há muitos anos. E estavam importando uma parte substantiva tanto de gasolina como de diesel.”

Segundo suas estimativas, a Venezuela consumia antes da pandemia de covid-19 entre 60 mil e 65 mil barris de diesel por dia e mais da metade eram importados. Mas em outubro de 2020, o governo dos EUA vetou a exportação de diesel para a Venezuela, em mais uma rodada de sanções voltadas a pressionar o governo de Nicolás Maduro.

Como parte dessas sanções, as refinaria Eni, da Itália, Reliance, da Índia, e Repsol, da Espanha, que vinham trocando petróleo bruto por diesel com a Venezuela, foram alertadas que Washington não admitiria que esse intercâmbio continuasse.

Um grupo de ativistas e organizações sociais venezuelanas chegaram a encaminhar uma carta a Mike Pompeo e Steven T. Mnuchin, secretários de Estado e de Tesouro do governo Trump, pedindo que reconsiderassem o veto a importações de diesel diante das “consequências devastadoras para a população”.

Mas o pedido não foi atendido.

Outras utilidades do diesel na Venezuela

O diesel também é utilizado na geração de eletricidade e no fornecimento de água a amplas zonas do país, além de ser item crucial em hospitais e clínicas que têm recorrido a geradores a diesel diante dos frequentes apagões de eletricidade na Venezuela.

Luis Vicente León, presidente da consultoria Datanálisis, disse à BBC Mundo “que não entra diesel importado no país desde o final do ano passado e as reservas devem estar se esgotando”.

As estimativas sobre quanto tempo mais o governo venezuelano tem para se fiar nessas reservas variam segundo especialistas. Mas fontes do setor petroleiro disseram à agência Reuters que começaram a ser impostas medidas rígidas de racionamento do diesel.

Mercados e negócios hoteleiros começaram a deixar de receber algumas mercadorias por causa da escassez. Os venezuelanos já sofreram uma situação parecida com a gasolina em março de 2020, quando, coincidindo com o início da pandemia de covid-19, os postos de combustível do país “secaram”. O governo venezuelano lidou com o problema algumas semanas depois encarecendo o preço e importando combustível do Irã.

Como ocorreu com a gasolina, a escassez parece estar engordando o mercado negro de diesel. Segundo Hopkins, há denúncias de que barris de 200 litros estão sendo vendidos por entre US$ 25 e US$ 40.

“Não entendemos como, na situação de emergência em que nos encontramos, não haja óleo diesel para setores prioritários e, no entanto, exista combustível nos mercados negros para envio em barcos para Cuba”, critica.

O que pode acontecer agora?

Enquanto o governo não se pronuncia sobre o tema, agricultores, motoristas e consumidores seguem na espera por uma solução que evite um colapso.

Juan González, diretor para assunto do Hemisfério Sul do governo Biden, disse numa entrevista à emissora EVTV que os Estados Unidos não têm pressa em suspender as sanções.

Segundo González, os dirigentes chavistas “tentam apresentar o intercâmbio de diesel como uma situação humanitária, mas guardam (o combustível) para o Exército ou dão para Cuba, deixando que o povo sofra”.

Apesar de comentários como este, crescem nos meios de comunicação venezuelanos especulações sobre uma possível mudança de critérios em Washington. É relevante lembrar que, ao contrário de outras sanções, o veto ao intercâmbio de diesel nunca foi colocado por escrito, o que deve tornar mais fácil a sua reversão.

“O governo Biden já disse que é muito sensível a temas humanitários e este é um”, diz León. Para ele, se o governo dos EUA não voltar atrás no veto, “não vai haver um desaparecimento total de diesel na Venezuela, mas o governo acabará importando do Irã e aumentando o preço e o comércio no mercado negro”.

“No final, é a população que vai assumir o custo”, diz.