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No dia mais letal da covid-19, Bolsonaro questiona máscara e isolamento

Citando um suposto estudo feito na Alemanha, sem dizer qual, o presidente afirmou que as máscaras são "prejudiciais" às crianças

No dia mais letal da covid-19, Bolsonaro questiona máscara e isolamento
Citando um suposto estudo feito na Alemanha, sem dizer qual, o presidente afirmou, durante sua live semanal, que as máscaras são "prejudiciais" às crianças (Foto: Reprodução/Facebook)

No dia em que o Brasil registrou 1.582 novas mortes por covid-19, o patamar mais alto desde o início da pandemia, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) optou por questionar o uso de máscaras e o isolamento social — ambos comprovadamente eficazes e recomendados por autoridades sanitárias para conter a disseminação da doença.

Citando um suposto estudo feito na Alemanha, sem dizer qual, Bolsonaro afirmou, durante sua live semanal, que as máscaras são “prejudiciais” às crianças, causando irritabilidade, dor de cabeça e dificuldade de concentração, por exemplo. O presidente evitou entrar em detalhes porque, segundo ele, “tudo deságua em crítica sobre mim”, mas afirmou ter sua própria “opinião” sobre o equipamento de proteção.

“Começam a aparecer os efeitos colaterais das máscaras”, disse, depois de listar uma série de problemas supostamente causados pelas máscaras. “Eu tenho minha opinião sobre as máscaras, cada um tem a sua, mas a gente aguarda um estudo sobre isso feito por pessoas competentes”.

Apesar dos questionamentos de Bolsonaro, o uso de máscaras só não é recomendado pela OMS (Organização Mundial da Saúde) e pela Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) para crianças abaixo de 5 anos, segundo orientações publicadas em agosto do ano passado. Já a SBP (Sociedade Brasileira de Pediatria) não indica o uso da proteção para menores de 2 anos, por risco de sufocamento.

Dentre as principais orientações, o uso da máscara facial é essencial, principalmente em ambientes fechados. Já foi comprovado que a utilização do acessório é essencial para retardar a contaminação em massa.

As orientações da OMS e da Unicef, especificamente, são divididas em três faixas etárias:

  • Até 5 anos, a indicação é para não usar máscara;
  • De 6 a 11 anos, pais e/ou responsáveis devem analisar os riscos para avaliar a necessidade. Se a criança vai à escola, por exemplo, é fundamental que use a proteção;
  • A partir de 12 anos, as recomendações são iguais às dos adultos. A única exceção são as crianças com condições específicas –como algum tipo de deficiência intelectual –, e também caberá aos familiares e pessoas próximas avaliar a situação.

“Cobra do prefeito”

Quanto ao isolamento social, Bolsonaro defendeu que a população “quer voltar a trabalhar”, culpando governadores e prefeitos por “obrigar” as pessoas a ficarem em casa.

Ele também mandou cobrar das administrações locais que adotaram medidas de isolamento social a renovação do auxílio emergencial, que ajudou milhões de vulneráveis ao longo de 2020, evitando que muitos entrassem ou voltassem para a miséria.

“Quem quer auxílio emergencial e a cidade está fechada… Vão cobrar do prefeito, vão cobrar do governador, já que ele quer que você fique em casa eternamente e quer mandar a conta para nós [governo federal] pagarmos. Eu teria o maior prazer de pagar eternamente um salário para todo mundo viver numa boa, sem trabalhar, mas isso não existe”, ironizou.

Os números registrados em países que adotaram restrições mais rígidas mostram que o isolamento é eficaz para conter a disseminação do coronavírus. No Reino Unido, por exemplo, o terceiro lockdown (confinamento total) levou o país a registrar queda de 79% na média móvel diária de novos casos de covid-19, que passou de 59 mil para 12 mil em 47 dias.

O Reino Unido também observa uma redução sustentada no número de internações e mortes. A média móvel diária de pessoas admitidas em hospitais com covid-19 chegou ao pico de 4.230 em 9 de janeiro. Cerca de um mês depois, em 12 de fevereiro, o número estava em 1.583 — uma redução de 62,5%.

O pico de óbitos, por sua vez, foi alcançado em 19 de janeiro, com média móvel diária de 1.280 mortes. Em 12 de fevereiro, o patamar caiu 61%, para 494.