“Não dá pra naturalizar esse tipo de intervenção da polícia”, diz professora presa em Águas Lindas

Segundo a docente, ela tentou gravar a atuação truculenta dos policiais mas acabou agredida e presa


Larissa Lopes

Do Mais Goiás | Em: 15/04/2019 às 17:33:11


Camila de Souza Marques Silva, professora do Instituto Federal de Goiás, Campus Águas Lindas. (Foto: Divulgação | Sinasefe)
Camila de Souza Marques Silva, professora do Instituto Federal de Goiás, Campus Águas Lindas. (Foto: Divulgação | Sinasefe)

A professora Camila de Souza Marques Silva falou ao Mais Goiás na tarde desta nesta segunda-feira (15) sobre a ação policial no Campus do Instituto Federal de Goiás (IFG), em Águas Lindas. “É muito complicado a gente viver nesse momento em que é colocado o estado policial dentro de escolas, nas nossas vidas, mas isso num ambiente escolar é muito ruim. Não dá pra naturalizar esse tipo de intervenção da polícia”, disse.

Além dela, estudantes também foram levados à delegacia. Camila concedeu entrevista enquanto estava a caminho do hospital para fazer raio-x da mão. Ela diz que sentia dores ainda em decorrência de uma agressão dos policiais civis enquanto apreendiam o celular dela.

A Polícia Civil (PC) teria sido chamada pelo diretor do campus devido a uma ameaça de ataque semelhante ao de Suzano, em São Paulo. A professora filmou a ação dos policiais enquanto faziam revistas em alunos e nos armários.

Segundo a PC, foi pedido à professora que ela não gravasse os estudantes, já que eram menores e a imagem deles é protegida pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Contudo, a docente conta que o celular dela só foi apreendido quando tentou ligar para um advogado.

Quando viu que as viaturas que levaria os estudantes para a delegacia estavam sem identificação oficial, ela teria dito que ligaria para um advogado. Foi nesse momento que o celular foi apreendido e a mão dela machucada pela força do policial, conta Carolina. Inicialmente, ela acompanharia os estudantes como testemunha, mas acabou presa.

“Fiquei bem assustada em ver uma viatura descaracterizada para levar a gente. Porque não fazia sentido eles não me deixaram ligar para advogado, não deixaram filmar e me algemarem”. Camila responderá por crime de desobediência. Na delegacia, foi autuada mediante Termo Circunstanciado de Ocorrência (TCO) e liberada em seguida. Os estudantes saíram antes dela.

Procurado, o IFG disse que se manifestará oficialmente apenas nas redes socais. O Mais Goiás não conseguiu contato com o diretor do campus Águas Lindas de Goiás. A professora conta que ele não foi visto nem durante a abordagem no campus, tampouco na delegacia. “Disseram que ele estava de fora da delegacia, mas eu não vi em nenhum momento”.O Sindicato Nacional dos Servidores Federais da Educação Básica, Profissional e Tecnológica (Sinasefe) prestou apoio à professora em todo o processo, com advogado e acompanhamento ao hospital.

Nota da Polícia Civil sobre o caso:

A Polícia Civil de Goiás informa, com relação ao caso da professora do IFG, que ela foi encaminhada à Delegacia de Polícia de Águas Lindas por cometer o crime de desobediência. Na delegacia foi autuada mediante Termo Circunstanciado de Ocorrência (TCO) e liberada em seguida. A autuação foi feita após ela ter filmado a abordagem dos policiais na escola, quando os investigadores apuravam uma denúncia, a pedido do próprio diretor, de que adolescentes planejavam um ataque nos moldes do ocorrido em Suzano (SP).

Insta salientar que a professora foi advertida por 3 vezes pelos policiais civis para que não filmasse a abordagem, uma vez que os adolescentes têm proteção à sua imagem, conforme o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), ordem que ela desobedeceu. Com os menores não foi encontrado nenhum artefato que poderia ser usado num eventual ataque.

O delegado Danilo Victor Nunes Souza nega que a professora tenha sido agredida por policiais civis. Foi feito relatório médico e raio-X, que não constataram nenhuma lesão a ela. O advogado da autuada compareceu à Delegacia e acompanhou a lavratura do procedimento.

*Larissa Lopes é integrante do programa de estágio do convênio entre Ciee e Mais Goiás, sob orientação de Thaís Lobo