Do Mais Goiás

Na cidade de Goiás, manifestantes pedem que Deus perdoe torturadores

Participantes se vestiram de farricocos e associação apontou semelhança a grupo racista Ku Klux Klan

A Organização Vilaboense de Artes e Tradições (Ovat) vai acionar autoridades policiais e de fiscalização para apurar um ato a favor da tortura na Cidade de Goiás. (Foto: reprodução)
A Organização Vilaboense de Artes e Tradições (Ovat) vai acionar autoridades policiais e de fiscalização para apurar um ato a favor da tortura na Cidade de Goiás. (Foto: reprodução)

Durante ato em apoio ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido) na Cidade de Goiás, manifestantes vestidos de farricocos pediram a Deus que perdoasse torturadores. A manifestação aconteceu no sábado, em 1º de maio, Dia do Trabalhador.

Por meio de nota, a Associação Cultural Pilão de Prata repudiou a manifestação. “Agiu violentamente de forma racista e criminosa criando aspectos de violência simbólica latente inspirados na seita Ku Klux Klan, assassina de povo negro”, disse em nota – a associação considerou a veste de farricoco uma alusão a roupa do grupo racista Ku Klux Klan.

“Em um momento tão crítico com mais de 400.000 (quatrocentos mil) mortos numa pandemia descontrolada profanaram o chão de Oxum, da Rainha Zinga, dos Bantus, das nossas crianças e dos nossos velhos. Goiás é Patrimônio Mundial e isso é um crime contra a humanidade e a vida.”

A manifestação dos farricocos é tradicional e acontece na Procissão do Fogaréu, evento que já tem mais de 250 anos. Este ocorre na quarta-feira antes da Páscoa, à noite, relembrando a perseguição a Jesus Cristo e sua prisão.

Já o ato em apoio ao presidente Bolsonaro aconteceu, no sábado, em frente à Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos. Esta, por sua vez, é um marco da religiosidade dos escravos na cidade.

Além do grande cartaz escrito “Deus perdoe os torturadores”, em uma placa menor é possível ler “nosso Brasil pertence ao senhor Jesus. Direita com Bolsonaro”. O portal tentou contato com a prefeitura da cidade para comentar a manifestação, mas não teve retorno.

(Foto: Cláudia Santana Damata)

Análise

Nas redes sociais, tiveram manifestações de repúdio. “Um absurdo que deveria ser investigado e seus organizadores punidos”, disse um internauta. “Criminoso! Apologia à violência. Lamentável tal manifesto”, escreveu outra.

Pelo Twitter, a mestre em História Natália Pessoni também criticou o ocorrido e fez uma análise. Segundo ela, esse foi o “absurdo de ontem” que mais a chocou.

“Só para contextualizar: sim essas são vestes de farricocos da Procissão do Fogaréu. Nada mais natural, já que estão em ‘Goiás Velho’, não é? Não, não é. Como sabemos existem vestes de várias cores, então a escolha das vestes brancas não foi aleatória, visto que elas são identicas às históricas vestes da Ku Klux Klan. Somado a isso, a primeira imagem foi feita em frente à Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, sendo assim, essas vestes nessa lugar configuram uma violência simbólica sem precedentes em terras goianas”, escreveu e parte de sua explicação.

Confira toda a postagem dela:

Atos

Os atos a favor do presidente Bolsonaro ocorreram em todo o País, no sábado. Os apoiadores criticavam o Supremo Tribunal Federal (STF), pediam a volta do voto impresso, o fim das restrições sanitáricas contra a Covid-19, entre outras coisas.

Além da cidade de Goiás, no Estado tiveram manifestações em defesa do presidente em Goiânia, Jataí e outras cidades. Na ocasião, também pediam pela saída do ministro Alexandre de Moraes da corte.

Destaca-se, a data também teve protestos contra o presidente. Nestes, os manifestantes demandavam por vacinas e pela volta do auxílio emergencial em R$ 600, e defendiam direitos trabalhistas.

Confira a nota na íntegra da Associação

A Associação Cultural Pilão de Prata da cidade de Goiás repudia o ato organizado pelo grupo apoiador de Bolsonaro na manifestação ocorrida na cidade de Goiás em 01 de maio de 2021 que agiu violentamente de forma racista e criminosa criando aspectos de violência simbólica latente inspirados na seita Ku Klux Klan, assassina de povo negro

Justo em solo sagrado e patrimonial da cultura afro-brasileiro da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos erguida às custas do flagelo do povo negro e de seus remanescentes

Inescrupulosos caminharam pelo território quilombola em afronta à vida destes que carregam consigo o legado de seus antepassados

Mancharam o simbólico religioso da cidade de Goiás ao vestirem com referência às indumentárias representativas da Procissão do Fogaréu, tão cara para cultura de nossa cidade

Em um momento tão crítico com mais de 400.000 (quatrocentos mil) mortos numa pandemia descontrolada profanaram o chão de Oxum, da Rainha Zinga, dos Bantus, das nossas crianças e dos nossos velhos

Estamos indignados e profundamente violentados diante de tamanho ato irreparável e digno de medidas jurídicas de responsabilização pelos diversos crimes cometidos de apoio à tortura, de racismo

Goiás é Patrimônio Mundial e isso é um crime contra a humanidade e a vida

Pilão de Prata é vida do povo negro e jamais se silenciará!