ESCÂNDALO

MP aponta crimes que teriam sido cometidos pelo Padre Robson

Segundo apurado pelo órgão, o sacerdote usava a Afipe e empresas de fachadas para realizar transações imobiliárias multimilionárias


Ton Paulo
Do Mais Goiás | Em: 21/08/2020 às 18:47:11

Padre Robson de Oliveira reza missa na Basílica de Trindade (Foto: Afipe)
Padre Robson de Oliveira reza missa na Basílica de Trindade (Foto: Afipe)

O presidente-fundador da Associação Filhos do Pai Eterno (Afipe) e reitor do Santuário Basílica do Divino Pai Eterno, Padre Robson de Oliveira Pereira, é o alvo de um escândalo investigado por uma operação deflagrada nesta sexta-feira (21) pelo Ministério Público de Goiás (MP-GO) e que tem como objetivo apurar a prática dos crimes de organização criminosa, apropriação indébita, lavagem de dinheiro, falsificação de documentos e sonegação fiscal, supostamente cometidos pela diretoria da Afipe por meio de empresas de fachada e laranjas.

Deflagrada pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do MP-GO, a Operação Vendilhões cumpriu, até agora, 16 mandados de busca e apreensão em empresas e residências em Goiânia e Trindade e também na sede das associações religiosos fundadas e geridas pelo Padre Robson: Associação Filhos do Pai Eterno, Associação Pai Eterno e Perpétuo Socorro, Associação Filhos do Pai Eterno e Perpétuo Socorro. Os mandados foram expedidos pelo Juízo da Vara de Feitos Relativos a Organizações Criminosas e Lavagem de Capitais, em decisão da juíza Placidina Pires.

Conforme apontado pelo MP-GO, doações feitas por fiéis de todo o país para o custeio das atividades da Afipe e para o pagamento das obras e projetos de cunho social realizadas pelas entidades estariam sendo usadas pela diretoria para “o pagamento de despesas pessoais dos investigados e para aquisição de imóveis”. Entre esses imóveis, conforme apurado pelo MP-GO, estariam fazendas e casa de praia, “os quais, a princípio, não se destinam ao atendimento dos seus propósitos religiosos”.

Operação Vendilhões cumpriu 16 mandados de busca e apreensão em endereços ligados à Afipe / Foto: MP-GO

Ainda de acordo com as investigações no âmbito da Operação Vendilhões, os investigados estariam, também, envolvidos em um esquema criminoso criado pelo Padre Robson para desviar verbas da Afipe, com consequente “dissimulação e ocultação dos recursos, por meio de ‘laranjas’ e empresas de ‘fachada’ e, assim, dificultar o rastreamento da origem do dinheiro.

Na decisão que autorizou os mandados, a juíza Placidina afirmou ter verificado “a existência de indícios suficientes de autoria e materialidade dos crimes de organização criminosa, apropriação indébita e lavagem de capitais, em tese, perpetrados pelos investigados”.

Movimentações imobiliárias e financeiras

Segundo apurado pelo MP-GO, as entidades da Afipe, sob comando do Padre Robson, figuraram como “adquirentes ou alienantes em milhares de operações imobiliárias” realizadas em Goiás e em outros estados, “muitas delas com indícios de elevado prejuízo material”. Muitas dessas operações, segundo descrito na decisão que autorizou os mandados de busca e apreensão, foram realizadas com pessoas jurídicas ligadas a Onivaldo Oliveira Cabriny e o vice-prefeito de Trindade, Gleysson Cabriny.

Os mencionados fazem parte do quadro de sócios de empresas do ramo de comunicações, dentre elas, Sistema Alpha de Comunicação Ltda. e Rede Demais Comunicação Ltda. Onivaldo, que, segundo o MP-GO, “receberam vultosas quantias em dinheiro” da Afipe.

Ainda conforme o órgão, Onivaldo é, também, a pessoa que teria fornecido as informações sigilosas do Padre aos envolvidos num escândalo de extorsão que veio à tona em 2018, em que cinco pessoas, já condenadas, chantagearam o Padre Robson para não divulgar o conteúdo comprometedor.

Além desses, conselheira fiscal Celestina Celis Bueno e o advogado Anderson Reiner Fernandes, ambos funcionários da Afipe, também teriam integrado o quadro societário da Rede Demais, com Celestina servindo, inclusive de laranja da Afipe para a movimentação do valor de R$ 4 milhões. Já Anderson, de acordo com o MP-GO, também era sócio da KD Administradora e Sistema Alpha, pessoa jurídica que vendeu para a Afipe uma casa na Praia de Guarajuba, na Bahia, pelo valor de R$2 milhões.

A Afipe também mantinha transações imobiliárias multimilionárias com empresas no nome de Douglas Reis, sócio do Posto Kurujão, Ademar Euclides Monteiro e Marcos Antonio Alberti, sócios da Sul Brasil e Terra Nobre, essa última empresa tendo adquirido da Afipe uma fazenda em Abadiânia, interior de Goiás, pelo valor de R$ 6,3 milhões.

Bens bloqueados e prisão negada

Diante do analisado, a juíza Placidina Pires deferiu o pedido do MP-GO e decretou o sequestro e a indisponibilidade dos bens imóveis das três associações da Afipe no valor de R$ 60 milhões. A decisão destaca que os bens bloqueados “podem ser tanto de procedência ilícita quanto lícita”.

Em março deste ano, o MP-GO também chegou a entrar com o pedido de prisão preventiva e afastamento das funções de reitor da Santuário contra o Padre Robson e também contra Rouane Azevedo, funcionária da Afipe considerada braço direito do religioso. O pedido foi negado pela juíza.

“Vejo que os delitos em apuração não foram perpetrados com violência ou grave ameaça e não há nestes autos informações concretas de que, em liberdade, o referido investigado destruirá provas ou intimidará testemunhas e/ou outros integrantes das Afipes, muito menos de que obstará o curso do trabalho investigativo, perturbará a instrução processual ou frustrará a correta aplicação da lei penal”, declarou a magistrada na época.

Vendilhões

O MP-GO explicou que o nome da operação, Vendilhões, tem origem no trecho bíblico encontrado no Livro de João, em que Jesus expulsa os mercadores do Templo e os acusa de tornar o local sagrado numa cova de ladrões através de suas atividades comerciais.

O valor aproximado de R$ 1,7 bi foi movimentado sob a supervisão do Padre Robson, entretanto, ainda não se sabe quantas dessas movimentações são de origem ilícita. Segundo o promotor de Justiça Sebastião Marcos, responsável pela operação, o próximo passo é analisar documentação apreendida. “Houve muita apreensão, pen drive, HD, arquivos digitais”, revelou.

O Mais Goiás abre o espaço e fica à disposição para manifestações dos citados nesta reportagem.