Artes

Mostra Trash traz lançamento de HQs e mesa redonda sobre feminismo

Em nova edição, mostra de cinema fantástico expande a fronteira de arte e discussão




Trash é lixo. Cinema trash se refere àqueles filmes de baixíssimo orçamento, filmados no bairro com direção ruim, atores péssimos e efeitos especiais fuleiros, um gênero eternizado pelo cineasta Ed Wood, sempre com uma pegada forte de inconformismo e faça você mesmo.

Desde 1999, a Mostra Trash de cinema dá voz e espaço para o cinema alternativo de gênero em Goiás com cineastas locais, nacionais e internacionais com filmes que oscilam entre o muito bem feito e o 100% fundo de quintal. Como a possibilidade de gravar filmes em 4K usando apenas um celular, o jeito de fazer cinema foi revolucionado.

A Trash então passou por uma mudança própria com a decisão de expandir a fronteira: a mostra agora cobre cinema de fantasia, terror e ficção-científica e amplia o espaço para discussões de cinema, gênero, técnica e até inclui novas artes, agora trazendo as HQs para o evento.

Nesta edição, serão 9 longas e 46 curtas exibidos entre os dias 7 e 11 e dezembro no Cine Cultura, bem ali na Praça Cívica, tudo de grátis. Vai rolar uma oficina de efeitos especiais com Rodrigo Aragão, de Mangue Negro (2008) e com Carlos Primati sobre o cinema de Hitchcock.

Outro destaque é a mesa redonda Mulheres que Tocam o Terror, com a presença de profesoras, cineastas, jornalistas e uma atriz que estão deixando sua marca no cinema fantástico nacional. “Eu particularmente não acredito em arte que não esteja conectada com a vida social. Acho que estamos vivendo um momento muito conservador e é o movimento feminista que discute as questões ligadas à mulher que tem dado algumas das respostas mais interessantes para a sociedade”, disse Márcio Júnior, organizador do evento.

Para ele, todo campo é campo de luta e discussão: “Todos os campos são campos de preconceito e ao mesmo tempo de resistência. O cinema de gênero muitas vezes é considerado machista, mas também é um espaço de luta da mulher e a ideia desse debate vem disso, mostrar que a presença feminina nesse cinema fantástico é forte e importante e a própria curadoria da mostra revela isso: temos muitos filmes feitos por mulheres”.

Ele também falou sobre a principal novidade da edição, que foi incluir as histórias em quadrinhos: “A Trash é um festival de cinema fantástico, alternativo e essas coisas se comunicam: cinema, música, quadrinhos, literatura, arte, entendeu. Então minha ideia para o evento sempre vem acompanhada dessa pegada de artes integradas. Estou tentando agregar isso porque o que é bacana é que estamos começando a querer ter uma cena de quadrinhos em Goiânia. Esse conjunto de lançamentos mostra isso. Então pra mim é muito interessante e muito importante dar uma visibilidade para isso. E como as HQs dessa moçada transita pelo terror e pelo fantástico, então achei super propício”.

Mais animado que o organizador, só os quadrinistas. Francisco Costa irá lançar na quinta-feira (8) A Última Fábula, revista escrita por ele e desenhada por vários artistas em um universo de fantasia medieval. A revista toda é composta por histórias curtas de quatro páginas que ajudam a compor o universo: “Esse projeto surgiu por acaso. Em 2008 escrevi um roteiro curto de 4 páginas que acabou virando o prólogo desta história. Em 2013 eu recitei esse roteiro para um dos desenhistas, o Eduardo Araújo e aí ele desenhou o prólogo e eu achei muito legal e resolvi continuar esse formato: várias histórias curtas com quatro páginas até chegar no formato final da revista”.

 

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Francisco Costa e arte de capa de A Última Fábula

Nesse meio tempo, o autor até já lançou outra HQ: “Gostei muito disso e inclusive já tem mais. Lancei outra na Comic-Con de forma independente, do bolso, chama Louis de Dampierre e devo levar alguns exemplares juntos no evento pra mostrar. É no mesmo universo da Última Fábula”. E já faz planos para a próxima: “em uma em andamento, esta que eu escrevi e estou desenhando também e até o meio do ano que vem devemos colocar no Catarse e é também no universo de A Última Fábula”.

Costa também disse achar que o espaço da Trash é perfeito para divulgar HQs: “Foi uma surpresa, achei muito legal. É um espaço muito legal para divulgar, cinema e quadrinhos são artes que podem caminhar muito bem juntas e para mim será uma honra estar na trash e para um público que com certeza vai comprar essa ideia”.

Outro que lança sua HQ na quinta-feira é o professor da Faculdade de Artes Visuais (FAV) da UFG, Edgar Franco, também conhecido como Ciberpajé, com seu projeto autoral BioCyberDrama Saga em nova edição de capa dura. “O álbum é uma das primeiras HQs brasileiras de Ficção-Científica a tratar diretamente do tema do pós-humano. A primeira edição do álbum BioCyberDrama Saga foi lançada em agosto de 2013 pela Editora UFG, por tratar-se de uma obra densa com quadrinhos autorais, foi surpreendente o fato de em menos de dois anos ela esgotar-se. A obra, uma edição luxuosa, com mais de 250 páginas, formato próximo do A4 e sobrecapa especial, foi uma iniciativa inédita de uma editora acadêmica brasileira que a publicou como parte de uma coleção de livros de arte”, conta Edgar.

O professor contou que a HQ também recebeu dezenas de resenhas positivas, o que, somado ao esgotamento da edição, encorajou uma segunda edição. De lá pra cá, a HQ teve uma trajetória impressionante, com lançamento em São Paulo e passagem pela FIQ, em Belo Horizonte, além de receber uma indicação ao HQ Mix de 2014, maior premiação de quadrinhos do Brasil.

Edgar concorda com Francisco de que a iniciativa de expandir a Trash é um passo importante para a integração de vários campos autorais no Estado: “Acho essa nova proposta da Trash uma expansão positiva em direção à arte fantástica em geral, penso que o próximo passo interessante para a mostra seja sua transformação em um festival de arte fantástica em
todas as suas vertentes, cinema, HQ, literatura e games”.

Confira a programação completa da Trash aqui.

 

Serviço:

 

Onde: Cine Cultura, Praça Cívica, Centro

Quando: de 7 a 11 de dezembro

Entrada franca