Comportamento

Monja Coen: “O ódio e a raiva não trazem transformação”

Principal líder do zen no Brasil e grande sucesso literário e no YouTube, monja veio à Goiânia fazer uma palestra lotada


Jose Abrão
Do Mais Goiás | Em: 28/04/2018 às 11:31:49

(Foto: José Abrão)
(Foto: José Abrão)

Na noite de sexta-feira (27), 800 pessoas lotaram um auditório do Centro Cultural Oscar Niemeyer (CCON) e outras 400 uma segunda sala para ver a palestra da Monja Coen em Goiânia. Estas 1200 pessoas chegaram cedo: com a palestra marcada para às 19h30, por volta das 17h a fila já dava a volta pelo lado de fora do centro cultural. Segundo os organizadores, pelo menos outras 1500 pessoas ficaram de fora. Só pelo Facebook, 4000 demonstraram interesse.

Foi a edição mais movimentada do Café de Ideias, evento promovido pelos professores Lisandro Nogueira e Nasr Chaul desde 2012, cujo recorde anterior de público tinha sido a visita do filósofo Luiz Pondé, que teve público de mais de 800 pessoas. Tudo isso para ver a monja que ficou famosa graças à seus vídeos e palestras disponíveis no YouTube.

Ela conta que este enorme sucesso foi uma grande surpresa, afinal “faço as mesmas palestras há 2o anos”, conta. Ela se diz fascinada pelo poder de tecnologia e que se sente emocionada por seus ensinamentos ajudarem milhares de pessoas, inclusive pelo mundo: “Chegando aqui em Goiânia encontrei um jovem que disse ‘moro na China, mas vejo seus vídeos todo dia antes de dormir'”, contou durante a palestra.

Mas com esta popularidade também vem responsabilidade. Coen diz estar muito consciente do alcance e do poder de influência que tem: “A responsabilidade é muito grande. É não querer manipular ninguém, nem induzir ninguém a nada, para que a pessoa desperte sozinha. É muito fácil que pessoas nessa posição comecem a manipular as pessoas e um dos meus compromissos é jamais manipular ninguém… que não me deem coisas, que não votem em quem eu quero que votem, quero que cada pessoa desperte”, conta.

A monja sempre repete que “não há porque matar ou morrer”, e que não devemos nos enredar pela mágoa. Durante a palestra ela dá como o exemplo o caso da traição amorosa que é sempre ruim, mas que o importante é enxergar uma saída no infortúnio.  “Meu namorado foi embora? Eba! A fila andou! A minha mulher está com outro? Que seja feliz, te gosto muito, quem será que vou conhecer agora?”, exemplificou, o que arrancou risos da plateia.

Seu canal, atualmente, possui mais de 30 milhões de visualizações,  que também alavancou a sua carreira literária, principalmente o livro Sofrer é Opcional além de seu lançamento mais recente, O Inferno Somos Nós, escrito em parceria com o historiador pop Leandro Karnal.

“O ódio e a raiva não trazem transformação, eles te mantém em um ciclo de abuso. Quando você troca ideia com alguém, você não perde nada: você fica com duas ideias e o outro com duas”, explica.

“Para mim foi uma benção conversar com o professor Karnal, foi muito agradável. Ele é um homem extremamente inteligente, erudito, ele é uma mente desperta. Ele me influenciou muito”, revela a monja, “eu o conheci há uns dez anos durante uma mesa inter-religiosa na Unicamp e recentemente um aluno meu me aconselhou insistentemente ‘veja professor Karnal! Veja o professor Karnal!’ (risos) Eu comecei a segui-lo no YouTube”.

O livro aborda temas que eles encontraram em comum: “Nos reunimos durante uma manhã de domingo e conversamos durante muitas horas e foi muito agradável. Nós reconhecemos que estamos vivendo em uma sociedade de medo e de raiva e como é que a gente transforma o ódio numa cultura de paz? Nossa conversa foi sobre isso. O inferno somos nós porque nós fazemos da vida um inferno. Como podemos transformar e sair do ódio. Inferno é ódio. É raiva, é briga. Como você sai disso? E existem muitos caminhos”.

Ela orienta que o sofrimento é opcional: o que seria isso? É, segundo a monja, saber lidar com as adversidades da vida e com estes sentimentos ruim. Sentir ódio é uma coisa, ficar nele é uma opção: “Nós seres humanos devemos sair, temos o dever de acordar e sair desse estado”, orienta, “O inferno pode até ser confortável, você se acostuma a estar lá. Se você discorda, saiba debater, saiba falar sobre o assunto. Demonstre seu ponto de vista, não insulte ninguém. Mesmo aqueles que estão muito errados, a gente tem que saber dialogar com eles para que haja transformação”.

Ela chama atenção para isso neste tempos de política, outra opinião comum que dividiu com Karnal: “E uma das coisas que ele fala é justamente isso: cuidado com os fariseus, com aqueles que se dizem donos da verdade, com aqueles que querem acabar com tudo que é mal e errado porque esses são os piores de todos e que levam a ditaduras, sistemas autoritários, abusos de poder que a gente não pode permitir”.

Ao mesmo tempo em que a violência não é justificável, ela defende o embate político, moral e ético: “Não é permissível o abuso e a discriminação de qualquer forma. Eu preciso impor limites, mas não preciso matar, sentir ódio do outro. Não tá tudo bem, tem muita coisa errada, o que você está fazendo sobre estas questões? Como está lidando?”.

Suicídio

Um dos seus temas mais recorrentes é o suicídio, especialmente entre jovens. Sobre isso, ela é bastante clara: “Não cometam suicídio por razão nenhuma! Não há razão para matar ou morrer, há razões pelas quais nós vivemos”. Se você ficar preso em um ciclo de dor, ela diz para não ter vergonha em pedir ajuda: “Vá procurar um bom terapeuta. E não tenha medo de procurar, não tenha medo de tomar remédios se você está em depressão profunda”.

Especialmente entre os jovens, em que os casos estão mais frequentes, ela cobra dos pais maior atenção e dedicação: “As pessoas ao redor, os adultos, estão tão ocupados em ter sucesso, tão ocupados em fazer alguma coisa que não estão dando atenção aos seus adolescentes em casa e nem vendo o que eles estão fazendo”.

Coen relembra a própria experiência com a depressão: “Eu tentei me matar quando tinha 19 anos, não morri, pensei ‘puxa, nem isso eu consigo fazer’, depois disso pensei ‘que bom que não morri’ e com essa experiência pude pensar: por que eu quis morrer? Eu quis ir embora, não estava bom. Se está chato, muda!”.

Ela relembra que a única garantia da vida é que você vai morrer, mas não tenha pressa. “Você vai passar por experiências bem interessantes na vida, a maturidade, a velhice, não são só boas nem só ruins. Qualquer experiência na vida é válida, mas matar ou morrer não. O forte fica, suporta as dificuldades e vai adiante e transforma”, finaliza.