SABATINA MAIS GOIÁS | MANU JACOB

“Minha gestão será inclusiva”, afirma candidata do PSol a prefeita de Goiânia

Candidata lembra que a história da política em Goiânia é marcada pelo conservadorismo, mas "temos coragem de apresentar o nosso projeto"


Francisco Costa
Do Mais Goiás | Em: 27/10/2020 às 18:04:00

(Foto: Divulgação)
(Foto: Divulgação)

Em sequência às sabatinas realizadas pelo Mais Goiás e BandNews FM, o portal entrevistou, nesta terça-feira (27) à tarde, a candidata a prefeitura de Goiânia pelo PSol, Manu Jacob. Hemanuelle (seu nome de batismo) é primeira candidata negra ao paço municipal da capital.

Ela é feminista, antirracista, mãe solo e, atualmente, trabalha como professora da rede estadual de ensino. Manu é graduada em Educação Física pela UFG e tem mestrado em educação básica, também pela universidade.

Vale destacar, a sabatina Mais Goiás e BandNews FM ouviu os seis mais bem colocados postulantes ao paço municipal de acordo com a primeira rodada da Pesquisa Ibope. Nesta semana, o portal conclui as entrevistas com os demais candidatos presentes na disputa.

Entrevista

Mais Goiás – Como lidar com a falta de tradição do PSol, em Goiânia, cidade conservadora que deu cerca de 70% dos votos no segundo turno para Bolsonaro, em 2018?

Manu Jacob – É um desafio, porque a história da política em Goiânia é marcada pelo conservadorismo, machismo… Temos altos índices de violência doméstica, feminicídio. Além disso, segundo Atlas da Violência, Goiânia aumentou em 20% o número de injúrias raciais. Temos a estátua de um bandeirante, assassino, escravocrata… Mas temos coragem de apresentar o nosso projeto, que tem relação ao direito à vida das pessoas.

Mais Goiás – Figura icônica do PSol, o professor Pantaleão deixa sigla com críticas após 15 anos. Segundo ele, a sigla se tornou dividida. O que isso significa? O que significa a saída de Pantaleão, que apoia, atualmente, a UP?

Manu Jacob – O Pantaleão é um militante histórico do Psol, tenho muito respeito. Mas nesse momento estamos focando na campanha. Desejo caminhos floridos por onde ele passou.

Na campanha não interferiu, pois foi uma decisão individual. Posteriormente, talvez conversemos, mas no momento é foco na campanha. É uma pessoa muito querida.

Mais Goiás – O PSol optou por você em vez de Mariana Lopes, que, anteriormente, era tida como nome certo na disputa. Isso criou um racha na sigla? Essa é a divisão de que falou Pantaleão?

Manu Jacob – Não causou racha. A Mariana é uma companheira muito valorosa. Quero saudar a iniciativa de impulsionar campanhas femininas. O Pantaleão não colocou o nome dele na mesa.

Em relação a escolha, o que aconteceu foi um acúmulo de debates internos que culminou no meu nome. Fomos aprovados por 82% dos filiados.

Mais Goiás – Entrando no plano de governo, o primeiro tópico é mobilidade urbana. Nesta parte, você critica a utilização de permissionários e propõe transporte público como direito social constitucional. Isso significa transporte subsidiado pela prefeitura? Quanto isso vai custar? É viável?

Manu Jacob – Hoje as empresas visam o lucro. Mas existe um contrato que beneficia só as empresas e mesmo assim elas não o cumprem. Em nível de frota, horário, pontos… Isso abre precedentes para romper o contrato.

A proposta é a criação de fundo municipal de transporte coletivo, que vamos construir juntos, com parcerias com Estado, Governo Federal e cidades da região metropolitana. A partir do momento que invertamos os valores, com a vida acima dos lucros, a prioridade será o benefício e qualidade da população.

Então, vamos precisar mexer em outros setores, como a tributação. Queremos implantar a tributação seletiva no ISS e IPTU. A proposta é que isso seja seletivo: aquilo que for essencial, taxar menos; o que não for, como perfume, carro de luxo, será mais taxado. Hoje não é isso que acontece.

Já o IPTU deve ser progressivo. Existem lotes e salas parados sem função social. Os locais mais nobres vão pagar mais e aqueles que fazem especulação imobiliária também. Quem tem mais vai ter que pagar mais.

Mais Goiás – Além disso você ainda fala em instalar internet livre nos terminais e melhorar as condições dos mesmos, deixando o embarque e desembarque mais humanizado. Como fazer isso?

Manu Jacob – Investir na tecnologia é uma coisa, investir na tecnologia a serviço da população é outra. Achamos que podemos fazer as duas coisas. Quando pensamos no acesso a internet é processo de humanização. Várias crianças estão perdendo o direito a estudar por falta de acesso a internet – que é um direito essencial.

Existe uma grande exploração por parte das empresas que dominam o campo da internet. Então, propomos, nos espaços públicos, disponibilizar esses canais.

Sobre os terminais, quando falamos em humanizar o embarque e desembarque existem algumas batalhas. Não dá para falar disso com ônibus caros, frota reduzida e sem segurança. Essa depende da municipalização do transporte público. Como humanizar com ônibus cheios? Entra na questão anterior, queremos mudar a estrutura para organizar o embarque e desembarque.

Mais Goiás – Já na saúde, você, como muitos outros candidatos, fala em construir um hospital municipal, mas não dá detalhes de como isso será feito… Inclusive, também cita a construção de Hospital Veterinário Municipal

Manu Jacob – Hoje, a porcentagem para investimento no SUS é de 15%, que não tem cobertura na cidade de 100%. Goiânia tem, atualmente, cobertura de 53%. A primeira coisa é valorizar o SUS, trabalhadores e trabalhadoras do SUS. Então, precisamos aumentar a alíquota para 20%, investir em contratação de equipe especializada na família, pois a principal demanda é a atenção básica.

Se isso fosse feito, a questão da atenção básica, teríamos os hospitais do Estado menos lotados. Hoje temos o desaparecimento do Agente de Saúde, que conhece a família e os bairros. Estão aposentando e não estão repondo.

Primeiro, então, precisamos arrumar a casa e destinar 20%. A construção do hospital veterinário é de extrema importância, pois o PSol tem visão eco socialista, de pensar nos recursos e nos animais. Hoje temos um na UFG, mas desgastado, superlotado e não faz todos os tipos de tratamento.

Quando falamos em construção de hospital municipal também é pensando nesse aumento da porcentagem, contratando profissionais. Mas primeiro a gente ajeita.

Caso for eleita, a prioridade é salvar vidas e retomar a economia. No fim do ano, acreditamos que haverá índice alto de desempregados e sem auxílio do governo federal. Então, não dá para chegar e já construir o hospital. Primeiro, precisamos avançar no combate a crise, mas a expectativa é de fazer em dois anos.

Mais Goiás – Chegando na parte de educação, você fala em garantir um Centro Municipal de Apoio e Inclusão (CMAI) em cada região da cidade. Em quanto tempo pretende fazer isso e quanto vai custar?

Manu Jacob – Vamos buscar em escolas referências da comunidade. Entendemos a escola como ponto de apoio. Vamos transformá-la. Hoje temos um índice alto de desemprego, principalmente entre homens negros até 33 anos. Então, pensar em retomada, é pensar em qualificação.

Queremos fazer essas escolas no contra turno, fins de semana. Para viabilizar, hoje, uma das principais fontes de arrecadação é o Fundeb. Então, precisamos utilizá-lo de forma responsável, destinando aos objetivos que planejamos. Educação, saúde, é prioridade. Também queremos implantar no prazo de dois anos.

Mais Goiás – Em outro ponto, você diz que vai “reorganizar o horário de funcionamento das escolas e CMEIs, ampliando horários de funcionamento a partir de projetos específicos elaborados para este fim, como por exemplo o projeto Escola Aberta. Propiciando, assim, atividades diversas tais quais culturais, esportivas, artísticas, dentre outras, através de convênios estabelecidos com as universidades e cursos de licenciatura no formato de estágio, remunerando estudantes estagiários(as)”. Qual o impacto disso?

Manu Jacob – A proposta não é colocar os que já estão para trabalhar mais. É investir em concurso público. E quando falamos em parceria, é UFG e UEG. Existe um processo que achamos valoroso: é a aproximação do mundo científico com a realidade. Quanto mais os estudantes se aproximam, mais têm condições de serem profissionais. Queremos estreitar as escolas públicas com a licenciatura.

Além disso, as escolas em tempo integral entregam os alunos às 16h30. O que se espera é algo, pelo menos, a partir das 17h30, pois é um problema das mães [sair cedo do trabalho].

Atualmente, seis mil crianças estão fora dos CMEIs. É um problema que passei há dez anos com minha filha. Então precisamos encarar isso com mais responsabilidade.

Também vamos estabelecer parcerias, além da questão do Fundeb. Vamos ver o limite dessas parcerias financeiramente.

Mais Goiás – No eixo da habitação você propõe o Programa Despejo Zero. Qual a sua solução para as ocupações que têm crescido na pandemia? Em muitos casos, existe a alegação de terrenos particulares… O programa não pode motivar, ainda mais, as ocupações?

Manu Jacob – Primeiro, precisamos entender que Goiânia tem um crescimento desordenado. A proposta do Plano Diretor era ampliar Goiânia em 30%. Quem são os donos desses 30%? As construtoras.

Existem cerca de 129 mil em situação de vulnerabilidade em Goiânia, 42 mil famílias. Esse déficit está relacionado ao crescimento desordenado.

Assim, o primeiro passo é entender como Goiânia cresce e as prioridades dos últimos governos em relação as pessoas vulneráveis. Existe um processo de especulação imobiliária que empurra as pessoas mais vulnerárias para as periferias. Morar dentro de Goiânia está muito caro. Eu moro a 18 km da escola em que trabalho.

É preciso que o debate da habitação esteja dentro do Plano Diretor. O Plano ainda não foi aprovado. E eu não acho que esse programa incentiva alguém a ir para uma ocupação.

Ninguém gosta de viver em lona, sem banheiro. Não é opção. Eu vou muito no acampamento do MTST, no Vera Cruz, e lá vivem cerca de 50 pessoas. Eu tenho certeza que ninguém gosta de viver nessa situação.

É preciso colocar isso na Câmara, no Plano Diretor, a prefeitura tem que ter iniciativa. Temos que discutir o crescimento desordenado. Não vamos beneficiar as construtoras com esse tanto de gente morando em situação de vulnerabilidade.

Mais Goiás – Você dedica um bom espaço do programa ao grupo LGBTQI+. Contudo, apesar de falar em “criar linhas de créditos e financiamentos específicas para a geração de emprego e renda”, não senti como seu plano pretende, realmente, viabilizar uma geração de emprego para este segmento, em especial transgêneros e travestis, que costumam ser mais marginalizados.

Manu Jacob – As empresas instaladas o nosso município devem cumprir um acordo de contratação dessas pessoas. Não só mulheres e aqueles de origem negra, mas também transexuais. Não queremos saber, somente, se a empresa vai se instalar, mas se vai cumprir também os acordos trabalhistas e cotas.

O segundo passo: não fazemos as coisas quadradas. O próprio processo da educação é para acolher essas pessoas. Para essas pessoas poderem, também, se inserir nesse mercado de trabalho.

Também no debate de moradia, o aluguel solidário, tem que partir da prefeitura. Impulsionar iniciativas que coloquem essas pessoas na sociedade. Minha gestão será uma gestão inclusiva.