RETROGAMERS

Mesmo descontinuado nos anos 1990, Mega Drive ainda recebe jogos

Console de maior sucesso da Sega tem até brasileiro produzindo games, atualmente


Francisco Costa
Do Mais Goiás | Em: 10/09/2020 às 18:37:44

O brasileiro Cleber Casali fez o game Yagac em 2019 para o meguinha
O brasileiro Cleber Casali fez o game Yagac em 2019 para o meguinha

Você sabia que o Mega Drive (ou Sega Genesis), apesar de ter sido descontinuado pela Sega, recebe jogos até hoje? Lançado em 1988, o videogame teve a produção paralisada no Japão em 1995 e em 1997, nos Estados Unidos – ainda assim, ele vendeu mais de 30 milhões de unidades neste período.

Isso, claro, não impediu os entusiastas de produzirem jogos independentes – na raça – para o console mais querido da Sega. Talvez, um dos grandes responsáveis por isso seja o game Pier Solar and the Great Architects, um RPG clássico lançado em 2010 pelo estúdio WaterMelon (WM). Em uma conversa, há alguns anos, com Túlio Adriano Cardoso Gonçalvez, brasileiro e ex-presidente da WM, ele disse que, ainda em 1997, entrou em um fórum de programadores e daí surgiu a ideia do game.

Com o tempo, a equipe de envolvidos foi crescendo e, em 2008, o game foi anunciado, junto com a empresa. Naquele mesmo ano começaram as pré-vendas. “Concluímos o jogo em 2010 e fizemos o lançamento em dezembro daquele ano.” O jogo vem em um cartucho com potência de 64MB – os maiores games de Mega, nos anos 90, tinham no máximo 40MB.

“O Pier Solar foi feito para o Mega Drive, porque foi um projeto que começou como hobby. Todos os envolvidos eram apaixonados pelo console e a Sega e, inicialmente, o objetivo era fazer o jogo para o Sega CD, pois assim qualquer um poderia baixar uma ISO e gravar num CD-R e jogar no console real. Quem não tivesse o Sega CD ainda poderia jogar em emuladores, então era um formato bom para todos. Porém, durante o desenvolvimento, coisas que funcionavam em emulação não funcionavam no console real. Haviam erros e problemas que eram muito difíceis de solucionar especialmente já que a plataforma era obsoleta e não tínhamos o apoio da Sega. Por fim decidimos que a mudança do jogo para o formato de cartucho era a única forma de fazê-lo sem maiores contratempos. Como ainda tínhamos aquela vontade imensa que o jogo fosse jogado no console real, resolvemos fabricar cartuchos, porém cartuchos tem custo e assim começou a pré-venda para arrecadar fundos para a fabricação”, explicou.

XenoCrisis

Vale destacar, que o game acabou ganhando uma versão em HD para consoles como Dreamcast, PC, Xbox 360, PS3 e Wii U. Mas este não é, nem de longe, o único. Em 2019, após uma bem-sucedida campanha de financiamento coletivo, o grupo britânico Bitmap Bureau lançou XenoCrisis para Mega Drive e outros consoles – inclusive para outro queridinho de gerações passadas, o Neo Geo AES.

O game, que tem uma dificuldade extrema, é inspirado em SmashTV, com muito tiroteio, inimigos grandes e gráficos e trilha sonoras que exploram os limites do meguinha. Ah, só pra lembrar, tanto ele quanto o Pier Solar têm opções de idioma em português. A produção começou em 2017.

Yagac: jogo de um homem só

Brasileiro, Cleber Casali também se aventurou no Mega Drive. Ele resolveu portar um jogo dele, que havia saído, inicialmente, para PC: Yagac MD. Em 2019, o título de plataforma também foi viabilizado por um site de financiamento coletivo – nele, o jogador controla um personagem que precisa recuperar as cores do mundo.

Ao Mais Goiás ele explica como foi a origem de tudo: “Eu estava dando uma arrumação aqui em casa e queria botar meus videogames antigos expostos em uma estante. O Atari e o Master System já estavam com defeito. Liguei o MSX e ele funcionou. Liguei o Mega e funcionou também.

Na ocasião, eu já tinha desenvolvido o Yagac para PC e ganhei um concurso com ele. Lembrei de ter lido sobre o BasiEgaXorz algum tempo atrás, que é um compilador Basic para o Mega. [Então pensei] Vou fazer um joguinho simples, como eu fazia na época do MSX. Peguei alguns gráficos do Yagac e comecei a brincar com eles no BasiEgaXorz.”

Cleber diz que gostou da brincadeira e comprou um everdrive pra poder testar os programas no hardware real, ou seja, do próprio Mega. “Minha ideia inicial era fazer um joguinho bem simples, tela a tela, estilo Castle Excellent, usando os gráficos do Yagac. Mas a coisa foi evoluindo, aprendi a usar os scrolls e carregar mapas grandes na memória, e minha meta mudou para um port completo do jogo. Deu bastante trabalho, demorei uns 2 anos”, resume a odisseia.

Novo título

O brasileiro revela que já tem um novo jogo em andamento, que vai usar a mesma engine (plataforma) do Yagac. “Mas estou trabalhando em outros projetos e não sei quando vou conseguir dar atenção pra este”, revela.

Questionado sobre essa longevidade do Mega, ele diz que o console continua vivo, porque marcou uma geração. “A diferença dele para os consoles anteriores era impressionante, e levou bastante tempo até conseguirem botar um superior no mercado. Tem outro fator que é o hardware de excelente qualidade e durabilidade.”

O programador cita que tem dois meguinhas, inclusive. “Funcionam perfeitamente até hoje e nunca precisaram de manutenção. Ou seja, os fãs ainda têm seus consoles e continuam jogando neles até hoje.”

Vale lembrar que a Sega lançou uma versão “mini” do seu videogame no ano passado. Antes disso, porém, a Tectoy relançou o console em 2017 com uma caixa igual a dos anos 1990. Item de colecionador.

Mega Drive (Foto: Pixabay)

Mais portes

E por falar em port (quando você leva um game de um console para o outro, como Cleber fez com o Yagac), o Mega Drive recebeu, no ano passado uma conversão de Cave Story, do PC, pelo programador Daisuke “Pixel” Amaya. O título ficou Cave Story MD.

O game já tinha recebido versões oficiais para Wii, 3DS e Switch. A do Mega, porém, é não licenciada e se você procurar por aí, dá para achar a rom gratuita – a até cartucho.

Trata-se de um jogo que acompanha um robô que perdeu a memória e precisa explorar uma caverna para saber mais sobre seu passado. Ele segue um estilo conhecido como “metroidvania”, um tipo de exploração e RPG/Aventura.

Outros

De 2018, temos como exemplo o jogo de plataforma e quebra-cabeças, Tanglewood, no qual o jogador controla uma espécie de raposa chamada Nymn. Com belíssimos gráficos 2D, a aventura é longa e tem um nível de dificuldade na medida.

Um caso curioso é de o Ultracore, que seria lançado em 1994 pelas mãos da DICE como Hardcore, mas foi cancelado. No ano passado, então, o estúdio Stricly Limited Games assumiu os direitos e finalizou o shooter de plataforma, que também tem elementos de exploração.

Por vir

Para 2021 que vem, ou com sorte, ainda este ano teremos Demons of Asteborg. Segundo a própria produtora, a Neofid Technology, “é um jogo baseado em plataforma com alguns elementos metroidvania inspirados em títulos como Ghouls’n Ghosts, Castlevania, Mickey Mania, Space Harrier e Panzer Dragoon”.

Ele também está previsto para Switch e PC. “Somos apaixonados por jogos retro e adoramos levar o Mega Drive ao seu limite. O jogo ainda está em desenvolvimento, mas realmente queremos vê-lo no Mega Drive o mais rápido possível”, escrevem no site oficial.

E este título também é mais um caso de financiamento coletivo. Aparentemente, a melhor opção para produtores independentes. E isso é só uma pequena amostra. Tem muitos outros games de antes e outros ainda por vir. O Mega Drive segue vivo.

E só para deixar claro, o Mega Drive não é o único videogame antigo a receber ports. O Super Nintendo (Snes), o Nintendinho (NES), o Master System e outros também têm alguns títulos lançados. Uma verdadeira festa para os retrogamers.