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Mario Draghi forma governo na Itália com apoio à esquerda e à direita

Economista apelidado de "Super Mario" nunca disputou um cargo político

Primeiro-ministro da Itália, Mário Draghi (Foto: Divulgação)

Após obter apoio de partidos em todo o espectro político, inclusive entre os eurocéticos, Mario Draghi, 73, ex-presidente do Banco Central Europeu, apresentou nesta sexta (12) seu novo gabinete ao presidente da Itália, Sergio Mattarella, que o aceitou. O juramento de Draghi como o 67º premiê italiano desde a Segunda Guerra Mundial será neste sábado.

Economista apelidado de “Super Mario” após salvar o euro do colapso na crise de 2011/2012, Draghi nunca disputou um cargo político. Seu sucesso em atrair apoio expressivo traz, ao mesmo tempo, dúvidas sobre a duração de um governo tão diverso internamente.

Num dos países de governos mais instáveis da União Europeia, Draghi ocupa o lugar de Giuseppe Conte, que fracassou em manobra para recuperar a maioria no começo deste mês. Seu nome deverá ser ratificado pela Câmara dos Deputados e pelo Senado, o que é previsto para as próximas terça (16) e quarta (17). Ele será o sétimo primeiro-ministro nos últimos dez anos.

Um dos adeptos mais estridentes do novo premiê deve ser o partido radical de direita Liga, liderado pelo populista Matteio Salvini, que no ano passado chamou a União Europeia de “covil de cobras e chacais”, já defendeu a saída do euro e chamou Draghi de “cúmplice” no “massacre” da economia italiana, por ter atuado para salvar a moeda comum.

Nesta semana, ao se associar ao antigo desafeto, Salvini disse a uma emissora de rádio italiana que “direita, esquerda, eurocético ou nacionalista são apenas rótulos”. Embora seja mais conhecida como um partido de populistas anti-UE, a Liga “sempre teve uma facção moderada influente, embora nem sempre vocal, centrada nos interesses pró-negócios e que é a força dominante no norte”, afirmou Luiggi Scazzieri, pesquisador do Centre for European Reform, em análise sobre o desafios de Draghi.

Segundo o analista, os moderados pressionaram Salvini a apoiar o novo governo, persuadindo-o de que isso permitiria decidir como gastar os bilhões de euros que a Itália vai receber do fundo europeu de recuperação pós-pandemia. Não por acaso, ele se declarou à rádio “uma pessoa muito pragmática”. “Prefiro estar na sala onde decidimos como o dinheiro será gasto, bem ou mal.”

Na sala com os direitistas da Liga podem estar também a centro-esquerda, do Partido Democrata, e a agremiação de direita Força Itália, do ex-primeiro-ministro Silvio Berlusconi.

A chancela final para que Draghi se torne o novo primeiro-ministro da Itália – o 6º em dez anos, veio nesta quinta, do Movimento 5 Estrelas (M5E, sigla que se define como antissistema). Maior partido italiano (com 216 dos 630 deputados), ele era fundamental para uma maioria segura no Parlamento, mas estava dividido. Em votação interna, 59.3% de seus membros apoiaram Draghi, sob a condição de que ele crie um “superministério para a transição ecológica”.

Os partidos que já manifestaram apoio a Draghi lhe garantiriam 555 deputados, 88% do total. Para manter o controle de uma coalizão tão diversa, Draghi poderá se apoiar em uma forte popularidade – pesquisas recentes lhe dão mais de 60% de aprovação, o que faz dele o homem público mais popular do país.

Além disso, a urgência da recuperação econômica deve dominar a pauta nos próximos anos. Terceira maior economia da UE, a Italia deve sofrer um tombo de 8,8% no PIB em 2201, de acordo com previsões da Comissão Europeia divulgadas na quinta (11).

Uma das primeiras medidas será negociar com a União Europeia sua proposta de recuperação econômica a ser financiada por até 209 bilhões de euros (R$ 1,3 tri) em repasses e empréstimos do bloco. Os recursos do fundo são esperados para o segundo semestre, mas precisam passar pelo crivo da Comissão Europeia (Poder Executivo do bloco).

Membros da União Europeia, principalmente os países do norte europeu, tem sido críticos com o que apontam como falta de austeridade da Itália em suas contas públicas, mas Draghi tem a seu favor a experiência dos dois lados do balcão – como respeitado e confiável banqueiro de bloco e como acadêmico que há anos pesquisa a situação italiana.

Ele deve tentar atacar gargalos estruturais – na burocracia regulatória, na administração e na segurança jurídica e no sistema tributário –que têm estrangulado a economia italiana e dificultam seu acesso a fundos europeus. Draghi conta, pelo menos por enquanto, com a boa vontade de investidores: a notícia de que ele tentaria formar um novo governo fez disparar o mercado de ações e derrubou o custo dos empréstimos.

Apesar de todo o prestígio de Draghi, os desafios não são pequenos. A vacinação e os incentivos públicos devem trazer crescimento a partir do segundo ano, mas a dívida pública da Itália já atingiu 159% e há sinais de que o desemprego ainda deve subir antes de cair, o que pode abater sua popularidade.

Se o ambiente interno piorar muito, o novo premiê pode perder alguns dos passageiros de seu barco, como o M5E ou a Liga, o que traria nova crise ao governo. Se não, Draghi pode em tese permanecer no poder até as próximas eleições em 2023.