FICA 2018

Luiz Bolognesi sobre o FICA: “é uma honra ter um filme no festival”

Diretor abriu a programação com exibição do documentário "Ex-Pajé" e concedeu entrevista exclusiva ao Mais Goiás sobre o FICA, o cinema e o meio ambiente


Jose Abrão
Do Mais Goiás | Em: 06/06/2018 às 17:35:00

Luiz durante oficina do FICA (Foto: Seduce/Théo Lima)
Luiz durante oficina do FICA (Foto: Seduce/Théo Lima)

Muito humilde, acessível e de fala baixa, o cineasta paulistano Luiz Bolognesi concedeu entrevista exclusiva ao Mais Goiás quase às pressas. É que ainda hoje (6) ele pega um avião com destino à Inglaterra. Por lá, seu novo filme, o documentário Ex-Pajé, compõe a mostra competitiva de cinema ambiental do Sheffield Doc Fest, segundo festival de cinema documental mais importante do mundo, atrás somente do IDFA, na Holanda. “Esse festival chama pouquíssimos filmes do Brasil, isso é muito raro, por isso é importante. Isso é incrível pro cinema brasileiro”, conta.

Ex-Pajé estreou há dois meses no Festival de Berlim onde recebeu o prêmio especial do júri. Desde então, a vida de Bolognesi tem sido uma correria de festival em festival. “O filme tá rodando o mundo, só no mês de maio ele foi exibido em quatro continentes. Berlim abre a porteira. Quando você é selecionado pra Berlim, já abre, se é premiado, então”, comenta.

Perpera, o ex-pajé (Divulgação)

Você pode não estar ligando o nome à pessoa. Além de diretor de cinema, Bolognesi atua como produtor e roteirista e é mais conhecido por ter escrito alguns dos filmes de ficção mais bem-sucedidos da história recente do Brasil como, por exemplo, Bingo – O Rei das Manhãs, candidato brasileiro à última edição do Oscar, assim como os clássicos recentes Chega de Saudade (2007) e Bicho de Sete Cabeças (2000).

Seu projeto mais recente, porém, é bem diferente. Ex-Pajé conta a história de Perpera Suruí, da nação Paiter Suruí, de Rondônia, e seus dilemas após a chegada de um pastor evangélico na aldeia que, além de evangelizar boa parte da população, volta os fiéis contra o sábio, dizendo que suas palavras são coisas do diabo. Conversamos com o cineasta sobre o filme estas questões e o resultado você confere abaixo.

Mais Goiás: você já tinha convívio com essa aldeia? Como a história de Perpera chegou até você?

Luiz Bolognesi: Eu tava fazendo um outro documentário sobre jovens que estão mudando o mundo através da internet, para a televisão (minissérie Juventude Conectada, disponível na internet) e aí eu detectei que havia esses jovens Paiter Suruí em Rondônia que estavam enfrentando madeireiros que invadem as terras indígenas. Eles estavam usando celular para fotografar as placas dos caminhões de madeireiros, marcavam com o GPS e subiam as denúncias para as redes sociais e as ONGs internacionais pressionavam a Polícia Federal a agir. Eu já estava interessado nos pajés e perguntei pra eles se eles tinham pajé e eles disseram ‘nós temos um ex-pajé’. E me trouxeram o Perpera e ele chegou pra mim com o rosto tatuado, com o terno e gravata dois números maiores. Ele me contou que não estava daquele jeito porque ele queria e gostava, mas porque ele foi obrigado a usar aquela roupa e obrigado a deixar de ser pajé pelo pastor que estava na aldeia. Que ele não conseguia dormir de noite de luz apagada porque os espíritos da floresta não deixavam ele dormir em paz porque ele não fazia mais os cantos nem tocava mais as flautas sagradas e os espíritos batiam nele de noite. Eu achei essa história incrível, é um retrato do que está acontecendo no Brasil hoje.

MG: E ao fim das filmagens, o Perpera parecia ter encontrado uma resposta para os seus dilemas?

Luiz: O filme mostra um pouco isso. Ele tá muito angustiado, ele está sofrendo muito. Até os 20 anos eles viveram sem contato com os homens brancos, isolados. Ele começou a virar pajé aos 13 anos por causa de sonhos que ele tinha e ele foi durante as décadas de 1970, 1980 e 1990 o centro espiritual daquela aldeia. De repente, do nada, ele vira a voz do diabo. É uma angústia muito grande e pra ser aceito no grupo ele tem que abandonar tudo o que ele sabe e faz para ser zelador em uma igreja evangélica. Ele vê os espíritos, ele escuta os espíritos. Ele faz o trabalho dele escondido porque quando as famílias estão com problemas mais graves elas chamam ele escondido e agora ele é um cara que vive a sua velhice em negação de toda a sua sabedoria por causa de uma inquisição.

MG: A questão da destruição da cultura tradicional indígena pela invasão do homem branco é um tema recorrente no debate atual. Os índios estão revertendo essa situação?

Luiz: Acho que os índios estão fazendo isso. Estão tendo uma relação antropofágica com a cultura dos brancos. Alguns poucos optam pelo isolamento. É uma minoria. A maioria tem aprendido que é preciso interagir com os brancos. A tendência maior é dialogarem com os brancos. A gente quer carro, celular, tecnologia, mas não queremos perder a nossa língua, a nossa cultura e o nosso modo de viver.

MG: Você viu isso durante as filmagens?

Luiz: É um jogo muito tênue entre dar certo e dar errado. Hoje, por exemplo, os Paiter Suruí estão exportando café pra Suíça, só que eles não devastam a floresta. Eles produzem no meio da floresta e não é um volume muito grande. Eles não querem acumular e ter dinheiro pra c*ralho, eles querem ter tecnologia, ter moto e isso eles conseguem, usando pequenos pedaços de roça e a mata. Eles ainda querem manter o bicho-preguiça que é sagrado pra eles, querem manter os animais que eles caçam, então estão digerindo a nossa cultura, estão aprendendo a lidar. Eles estão muito vivos. Não são coitados. A maneira como os brancos agem em relação a eles que é um processo muito agressivo.

MG: E tem também a visão do branco, que acha que porque o indígena anda de carro e tem celular ele deixa de ser índio.

Luiz: Ninguém fala que porque o português deixou de andar de caravela ele deixou de ser português. Ele não deixa de ser índio porque usa um celular. O português continua sendo português em todo lugar, assim como o índio continua sendo índio em todo lugar. Eles se transformam, eles estão escolhendo. Os caras chegam pra eles oferecendo muito dinheiro pra sair da terra e eles falam não e o branco tem dificuldade de compreender isso.

MG: Você acha que a questão indígena está crescendo no olho público?

Luiz: Eu acho que está. É uma questão que atrai um olhar muito forte por ter um interesse econômico nas terras deles e porque eles estão aprendendo a se unir para enfrentar a violência branca. Por outro lado, conforme a questão ambiental cresce tanto e deixa de ser a preocupação de meia dúzia de hippies ambientalistas e passa a ser uma preocupação de economistas, que se preocupam em como em evitar crises hídricas que possam afetar a criação de gado e o plantio de soja, o meio ambiente como questão econômica evidencia na cara de todo mundo que os maiores ambientalistas da Terra são os índios. As maiores reservas que temos no Brasil são todas em território indígena. Então se tem alguém que entende de sustentabilidade, regime de agrofloresta e manter a floresta de pé, são os povos indígenas.

MG: No circuito audiovisual internacional, os gringos possuem interesse nessa questão?

Luiz: Faz tempo. Eles têm um interesse, uma preocupação muito grande com a floresta amazônica e os povos indígenas da América. Eles são muito sensíveis a isso. Os filmes repercutem lá fora. Eles ficam muito indignados: como é possível que o Estado brasileiro e as leis brasileiras permitam que uma igreja se instale em uma terra indígena e comece um processo em pleno século XXI de catequização, trabalhando com culpa, medo e violência em cima dos sacerdotes tradicionais desse povo? Os gringos têm muita atenção, muito interesse na questão ambiental e indígena do Brasil.

MG: E sobre o FICA, qual é a importância deste festival de cinema ambiental?

Luiz: Eu estou com a agenda super corrida, com festivais internacionais e tal, e fiz questão de encaixar essa vinda pra cá porque considero esse festival super importante e ele está crescendo. É importante até por onde ele acontece: em uma cidade que ainda está cercada por um Cerrado que resiste, isso é muito simbólico e potente. O festival tem uma potência muito grande, vejo isso pelas pessoas que já vieram e que estão vindo este ano e pra mim é uma honra ter um filme no festival. Acho muito importante a preservação e o crescimento dele, porque acaba irradiando para o Brasil todo e para fora do Brasil, assim como é muito bom para a própria cultura de Goiás firmar o seu lugar nessa intersecção entre audiovisual e o meio ambiente. É o maior festival de cinema ambiental do Brasil e o mais importante da América Latina, então é um evento que eu já vim duas vezes e espero vir muitas outras vezes.

 

Ex-Pajé deve estrear em Goiânia durante o mês de junho.