Alessandra Curado
Do Mais Goiás

Justiça goiana manda soltar megatraficante Leonardo Dias Mendonça

Juiz Oscar de Oliveira Sá Neto determinou que traficante, preso desde 2002, use tornozeleira eletrônica para “procurar emprego e/ou trabalho lícito”

O megatraficante Leonardo Dias Mendonça, apontado pelas autoridades internacionais como o maior traficante de cocaína do Brasil em 2000, ganhará a liberdade nos próximos dias. A decisão, concedida nesta quinta-feira (02), é do juiz Oscar de Oliveira Sá Neto, da 7ª Vara Criminal e de Execuções Penais de Goiânia. O magistrado seguiu determinação anterior, de conceder progressão de pena, deferida pela juíza Sulenita Soares Correia, e determinou que o “Barão do Tráfico”, como é conhecido no meio criminoso, use tornozeleira eletrônica.

Concedida nesta segunda-feira (30), a determinarção anterior concedeu a progressão de 79 anos e sete meses de reclusão. O preso teria cumprido um terço da pena e estava com comportamento considerado “bom” desde 2013. “Ressalto que, enquanto o apenado Leonardo Dias Mendonça não apresentar o comprovante de exercício de atividade laboral licita (trabalho honesto), que deverá ser fiscalizado e confirmado pela Direção da Unidade Prisional, deverá recolher, diariamente, nas dependências da Colônia Agroindustrial do Regime Semiaberto, conforme abaixo estabelecido”, decidiu o juiz Oscar de Oliveira Sá Neto.

“Oficie-se a Direção da Colônia Agroindustrial do Regime Semiaberto, comunicando a presente deliberação, para recebimento do apenado e para sua inclusão no regime semiaberto, no prazo máximo de 10 (dez) dias, nos termos da Portaria Normativa nº 05/2018, da 2ª VEP (que manda observar outras prisões), de 5.2.2018, ficando o apenado obrigado a cumprir as condições”, diz a sentença.

O preso tem de cumprir 14 restrições, entre elas, trabalhar durante o dia. Enquanto não comprovar que trabalha, Leonardo Dias Mendonça terá direito a sair das dependências do presídio das 5 horas da manhã, até 20 horas, de segunda-feira a sexta-feira, quando deverá retornar para dormir no presídio. Ele poderá sair para “procurar emprego e/ou trabalho lícito”, escreve o magistrado.

“Somente poderá circular durante o período diurno pelas seguintes cidades (área de inclusão): Goiânia, Aparecida de Goiânia, Goianira, Senador Canedo, Trindade, já que se tratam de cidades com áreas urbanas interligadas com a capital,” pondera Oscar Sá Neto. A autorização também limita que Leonardo não pode portar qualquer tipo de arma e ele fica proibido de frequentar bares, boates e casas de tolerância. Mas a determinação judicial ainda concede ao preso, caso comprove que trabalha licitamente, o direito de dormir em casa, em endereço que deve ser comprovado à Justiça.

Na segunda-feira, a juíza Sulenita Soares Correia, em substituição na 1ª Vara de Execuções Penais, concedeu ao preso o direito de progressão de pena. Com isso, o preso teria autorização para ir ao regime semiaberto — trabalhar de dia e dormir no presídio à noite.

HISTÓRICO
Leonardo Dias Mendonça, de 55 anos, foi apontado pela Polícia Federal e pela Justiça americana como o principal traficante de drogas do Brasil para os Estados Unidos e Europa. Nascido em Minas Gerais e criado em Goiás, é dono de fazendas, de rede de lojas, postos de gasolina no Pará, de milhares de cabeças de gado, terras, aviões, barcos, carros, motos e casas. Sua fortuna é estimada pela polícia brasileira em R$ 500 milhões.

De humilde office-boy, em Goiânia, que entregava correspondência de moto, Mendonça virou o homem forte das drogas no País. Começou a negociar cocaína em Itaituba e Marabá, no Pará. Ele é apaixonado por vaquejada; gosta de pilotar aviões e diz para todos que sempre escapou dos processos na Justiça por causa de suas amizades. Acusado de tráfico internacional pelos Estados Unidos, faz a ligação do tráfico brasileiro com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) de quem compra cocaína de “excelente qualidade” para distribuir no Brasil, Europa e Estados Unidos. Mendonça é investigado pela polícia brasileira há anos.

“Perto dele, Fernandinho Beira-Mar é bagrinho”, resumiu o delegado federal Mauro Spósito, em reportagem de 2002 do jornal O Estado de São Paulo. A autoridade participou das apurações sobre os negócios de Mendonça desde 1995. Spósito afirmou que o forte de Beira-Mar é abastecer favelas do Rio e de outras cidades. “Mendonça lida só com o mercado internacional”, descreveu em entrevista ao jornal paulistano.

O poder de influência de Mendonça cruza fronteiras. Ele é apontado como amigo do ex-presidente surinamês Delano Bouterse, deposto do cargo por corrupção. Desde 1999, quando a PF intensificou o cerco a Mendonça e seus sócios, aviões registrados em seu nome foram apreendidos com cocaína.

Ele responde a processos por tráfico em Goiás, Pará, Maranhão e Mato Grosso. Em novembro de 1999, foi preso em Goiânia, passou um ano e dez meses na cadeia e saiu por decisão da Justiça Federal. Foi citado no relatório da CPI do Narcotráfico, no início dos anos 2000, como o principal traficante do País e negou o envolvimento com as drogas. (com Estadão)