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Itaú vê risco de queda do PIB do 1º trimestre caso número de mortes continue alto

Brasil registrou 848 mortes pela Covid-19 nesta quarta-feira (9). Nesse patamar, a contração estimada seria de 2,6%

Um dos 200 leitos do hospital de campanha de Águas Lindas, no entorno do Distrito Federal (Foto: Divulgação)
Um dos 200 leitos do hospital de campanha de Águas Lindas, no entorno do Distrito Federal (Foto: Divulgação)

O Itaú Unibanco projeta uma desaceleração da economia para um crescimento de apenas 0,2% no primeiro trimestre de 2021, com possibilidade de contração na atividade caso o número de mortes continue elevado ao longo dos próximos três meses.

Esse percentual de crescimento considera uma média de mortes no Brasil no final desse período de 400 por dia. Um número a partir de 600 mortes, por sua vez, já geraria um cenário de queda do PIB (Produto Interno Bruto) no período de 1,2%.

O Brasil registrou 848 mortes pela Covid-19 nesta quarta-feira (9). Nesse patamar, a contração estimada seria de 2,6%.

O Itaú relaciona o número de mortes ao nível de abertura das atividades, utilizando como exemplo o sistema de cores do estado de São Paulo. Quanto maior o número de mortes, maior o grau de restrições, principalmente para o setor de serviços, que demoraria mais tempo para se recuperar da crise gerada pela pandemia.

Graus maiores de abertura permitiram aos serviços continuar a crescer. Mais mortes, gerariam mais restrições, o que derrubaria a atividade do setor com maior peso no PIB no começo do próximo ano, interrompendo a recuperação vista nos últimos meses.

O banco projeta um crescimento de 4% da economia em 2021, que ainda irá terminar o próximo ano 0,7% abaixo do patamar pré-crise. Esse número contempla um crescimento trimestral médio de 0,2% somado ao efeito estatístico da base baixa de comparação com 2020, quando a contração projetada é de 4,1%.

Segundo a instituição, esse cenário considera uma contração dos gastos públicos, com a retirada dos auxílios e a volta ao limite do teto de gastos. Essa restrição seria atenuada por fatores como a retomada do mercado de trabalho, que já está acontecendo, segundo o banco.

“Todos os dados estão mostrando que o mercado de trabalho já atingiu seu piso, teve inflexão e começou a se recuperar”, afirmou o economista do Itaú Unibanco Luka Barbosa, em evento organizado pela instituição. O banco prevê uma taxa de desemprego de 15,3% no final deste e do próximo ano.

Ele afirma que os juros em patamares baixos beneficiam setores sensíveis a crédito, como imobiliário e de veículos, e que é importante que se volte para o teto de gastos para que eles continuem nesses níveis.

A instituição espera alta da taxa básica no próximo ano, dos atuais 2% para 3% ao ano, em linha com as projeções de mercado.

Outro fator que deve ajudar no crescimento de 2021 é a recuperação da economia global, que também ajuda a sustentar uma alta de preço de commodities.

O também economista do Itaú Pedro Schneider afirma que os dois principais riscos para o cenário econômico são o vírus e a questão fiscal.

“Não adianta controlar o fiscal sem controlar a pandemia. Ou colocar a pandemia sem controlar o fiscal. Se a gente optar por não fazer o ajuste fiscal, a conta fica ainda mais cara em termos de inflação, taxa de juros e desemprego para a população.”

O economista-chefe da instituição, Mario Mesquita, afirma que há espaço no orçamento para acomodar uma política de aumento do gasto social no próximo ano, desde que se tome a decisão política de reduzir outras despesas.

“É absolutamente falacioso que o teto inviabiliza o aumento do gasto social. É inviável se a classe política não quiser escolher, não quiser, para beneficiar os mais pobres, afetar alguns segmentos que estão bem de vida da população”, afirmou Mesquita, que deu como exemplo o funcionalismo público. “Sem enfrentar custos políticos não tem como aumentar o gasto social.”

Na lista de medidas relacionadas pelo banco estão ainda a racionalização dos atuais benefícios sociais, hipótese já levantada pelo Ministério da Economia e criticada pelo presidente da República, e a privatização ou extinção de algumas estatais dependentes do Tesouro.

Isso possibilitaria dobrar o orçamento do Bolsa Família, com mais R$ 33 bilhões, ampliando a cobertura de 14 milhões para 19 milhões de famílias e o valor do benefício de R$ 200 para R$ 300, por exemplo, afirma.