FolhaPress

Interesse por plantas na pandemia faz uma begônia custar mais de R$ 300

Lojas têm fila de espera de interessados; reprodução de mudas é lenta, segundo o produtor

Se houvesse no mundo contemporâneo um olimpo dedicado às plantas ornamentais, a begônia maculata wightii certamente ocuparia uma das cadeiras reservadas às divindades botânicas.

Em hastes grossas alongadas equilibram-se folhas de laterais picotadas com o verso avermelhado em contraste ao verde escuro da parte da frente, coberto de bolas arredondadas de um branco quase prateado –um deleite estético que transformou esse cultivar, um tipo de planta melhorada que não é encontrada na natureza, em uma febre.

E enquanto o olimpo da mitologia grega abrigava deuses, a realeza das plantas ornamentais guarda preços altos. Em São Paulo, a begônia maculata wightii não é encontrada por menos de R$ 200– e há até fila de espera nas floriculturas e ateliês.

A supervalorização desse tipo de begônia vem de uma combinação de fatores, como maior interesse por plantas em meio à pandemia e exclusividade na produção.

Na Blumenfee, loja de plantas no Bela Vista (região central da capital paulista), 85 pessoas aguardam na fila a chance de comprar a sua. No fim de março, ainda no início da pandemia, a loja recebeu 110 unidades. Vendeu todas por R$ 200.

Desde então, o preço disparou e, no fornecedor, chegou a R$ 260.

“Por esse preço, eu me nego a trazê-la para a loja. Não fiz nem o cálculo de quanto ficaria para os meus clientes. Está muito cara, não dá”, diz Leda Welter, dona da loja.

Na Selvvva Plantas e Objetos, as begônias maculatas wightii têm chegado semanalmente, por R$ 350. “Fico desconfortável, mas é o preço. Não tem como hoje a gente cobrar menos do que isso”, diz Julia Rettmann, sócia na loja, que durante a pandemia passou a ser exclusivamente online.

Julia ainda tem clientes em uma fila de espera na expectativa de comprar a espécie, e ela própria teve que esperar. “Também ficamos em uma lista com o fornecedor.”

O interesse na planta surpreendeu até o produtor, Mareo Fujimaki, da flora que leva o seu sobrenome. Ele diz que buscava novas espécies para o portfólio da empresa quando conheceu a maculata.

“As pintas meio prateadas me chamaram muito a atenção. Ela tem um certo requinte, é mesmo uma planta muito especial”, conta.

A muda mãe, também chamada matrizeiro, chegou ao Brasil no fim do ano passado, da Holanda, importante polo produtor de plantas ornamentais na Europa.

Agora, segundo Mareo, a Fujimaki está num esforço para aumentar a produção. Como o cultivo é novo, ainda existem ajustes sendo feitos. A produção das mudas, diz, é cara e demorada. “Estamos ampliando a capacidade. Cada planta leva 15 dias para produzir uma muda, então a gente não consegue alcançar volume”.

Semanalmente, 300 vasos de begônia maculata da Flora Fujimaki ficam prontas para comercialização.

Quando trouxe a espécie para o Brasil, Fujimaki não sabia que a febre pela planta já existia.

Há alguns anos, esse tipo begônia começou a aparecer em sites gringos, europeus e americanos, e em redes sociais como o Pinterest, que descreviam a maculata como um planta originária do Brasil.

E ela é mesmo endêmica da região Sudeste do país –e aqui mora o equívoco: a planta brasileira é a begônia maculata “tipo” (denominação para a espécie encontrada na natureza), e não a variação exuberante que virou objeto de desejo.

Para o botânico Samuel Gonçalves, o erro de conceituação botânica contribuiu para a febre em torno dessa begônia.

“Fala-se que ela está praticamente extinta e que é muito rara de conseguir. Ficou a história dela ser a planta original que teria praticamente sumido da natureza, mas é um engano. Ela não é nada da natureza, é um planta que surgiu em coleções e foi multiplicada por ter grande valor comercial, ornamental”, afirma.

A identificação do cultivar wightii remonta a 1933, quando Karl Albert Fotsch registrou a espécie na publicação “As begônias, sua descrição, cultura, criação e história”.

A maculata “tipo” ainda é encontrada na natureza, segundo Samuel. A diferença é que a nativa brasileira tem frente e verso verdes. As bolinhas são menores e de um tom mais desbotado.

O aumento no interesse por plantas ornamentais não chega a ser um movimento novo. As florestas urbanas –ou urban jungles– viraram estilo de decoração, ganhando adeptos principalmente nas grandes cidades, onde a vida em apartamento responde ao apelo por mais verde e algum contato com a natureza.

Para Julia Rettmann, da Selvvva, o despertar do interesse por plantas gerou um efeito “bolsa de valores” sobre os preços: as variações cultivadas em viveiros surgem nos sites especializados e redes sociais e a febre começa a se espalhar.

Antes da pandemia, diz, o objeto de desejo era a pilea, a planta chinesa da amizade. Agora, o hype começa a se formar em torno da peperomia polybotrya, também conhecida pelo nome em inglês, raindrops. As folhas grossas são arredondadas, similares a um coração.

Leda, da Blumenfee, diz que a procura por espécies é muito influenciada pelo que circula nas redes sociais de colecionadores e entusiastas. “As pessoas me mandar fotos dizendo que querem essa ou aquela planta. O ruim é que tem muita coisa cheia de filtro. A pessoa chega aqui e nem reconhece a planta verdadeira.”

Entre as espécies que explodiram de preço, a ficus lyrata foi outra que a dona da Blumenfee chegou a fazer uma pausa nas vendas. No início do ano, vendia cada vaso com quatro hastes e cerca de 1,5 m por R$ 150 —ela chegou a R$ 270 no fornecedor.

“Houve uma supervalorização de tudo. As pessoas ficaram em casa e viram que as plantas era um jeito fácil de decorar a casa”, diz Leda.