DISTRITO FEDERAL

Evangélicos fingem ser policiais para internar usuários de droga à força

Batalhão da Patrulha da Paz se veste com o que parece ser um colete à prova de balas, usam distintivos e rádios para comunicação


Laylla Alves
Do Mais Goiás | Em: 05/08/2020 às 18:10:30

(Foto: Reprodução)
(Foto: Reprodução)

Integrantes de um grupo de evangélicos fingem ser policiais militares para fazer pregações e convencer usuários de drogas a aceitarem internação em comunidades terapêuticas religiosas, mesmo sem indicação médica ou ordem judicial. O grupo atua no Distrito Federal desde 2011, mas só foi denunciado no último dia 29.

O Batalhão da Patrulha da Paz, como é chamado o grupo, é investigado pela Comissão de Direitos Humanos da Câmara de Deputados do Distrito Federal. O caso também foi denunciado ao Ministério Público e à Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal.

Está circulando nas redes sociais um vídeo em que mostra carros grandes e pintados de preto, ocupados por homens fardados, que estacionam à noite, ao lado de um grupo de jovens na favela do Sol Nascente, em Ceilândia, DF. Em vez de uma ordem para se virarem contra a parede, os pastores começam a fazer uma pregação bíblica. O grupo tem até um site na internet.

Assista ao vídeo:

O Batalhão da Patrulha da Paz se veste com o que parece ser um colete à prova de balas, e usam distintivos que imitam os de policiais e rádios para comunicação. Os veículos foram adaptados para parecerem viaturas, com giro flex e cela para presos na traseira.

A prática é ilegal. De acordo com a lei de contravenções penais, nos artigos 45 e 46, é crime fingir ser funcionário público ou usar, publicamente, uniforme ou distintivo de função pública que não exerce. A pena pode chegar a cinco anos de reclusão.

Denúncia

A denúncia contra a patrulha foi realizada no dia 29 de julho, quando o batalhão estava na favela do Sol Nascente. O deputado distrital Fábio Felix (Psol), presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara de Deputados do DF, afirma que as ações se aproximam mais de violência, coação e constrangimento do que de uma ação evangelizadora.

“Eles simulam ser uma força do estado para abordar pessoas em situação de extrema vulnerabilidade. Isso no mínimo serve para confundir as pessoas, que imaginam que eles são militares de verdade”, disse.

O pastor que lidera o grupo, Gilmar Bezerra Campos, disse ao The Intercept Brasil que a patrulha nunca aplicou técnicas de autodefesa contra moradores de rua.

Porém, a Comissão de Direitos Humanos apurou que os agentes “realizariam ações de violência contra pessoas em situação de rua, constrangendo-as e, em alguns casos, levando de forma forçada para internação em comunidades terapêuticas para tratamento de pessoas que usam drogas”.

O pastor Bezerra, comandante do “batalhão”, é ligado à Assembléia de Deus do Guará e disse que comprou os três automóveis com próprio dinheiro, após vender uma pizzaria. Ele afirmou também que a quarta viatura foi doada por um supermercado de Ceilândia, uma das zonas mais pobres do Distrito Federal.

Foto: Reprodução/Facebook

Bezerra declarou que aderiu ao disfarce militar para dar um tratamento diferente às pregações.

Comunidades terapêuticas

Uma das comunidades terapêuticas abastecidas pelo batalhão do pastor Bezerra é a Casa Reino Unido, que funciona em Abadiânia. Ligada à Assembleia de Deus, tem 30 vagas custeadas pelo governo, todas atualmente ocupadas.

A clínica também presta atendimento particular a uma taxa única de R$ 500 e afirma que não faz pagamentos à patrulha dos evangélicos.

O Mais Goiás entrou em contato com a Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF), mas ainda não teve retorno. O espaço permanece aberto.

*Com informações do The Intercept Brasil

*Laylla Alves é integrante do programa de estágio do convênio entre Ciee e Mais Goiás, sob orientação de Hugo Oliveira