Empreendedorismo

Goiânia se torna polo de aplicativos

Empresários locais investem em inovação e tecnologia para afastar a crise


Altemar Santos
Do Mais Goiás | Em: 05/07/2016 às 08:15:46


Com a ampliação e barateamento do acesso à internet, empresários pós-revolução do WWW passaram a apostar em inovação e tecnologia por uma rota diferente: pelos aplicativos.

Faz sentido: quase todo celular pessoal usado hoje em dia possui recursos inteligentes. Pensando nisso, empreendedores investem em maneiras de facilitar a vida do usuário, melhorar a prestação de serviços e até mesmo incrementar os negócios de outras empresas.

Com o apoio da Comunidade Tecnológica de Goiás (Comtec), investidores externos e mesmo o conselho estudado de mestres e doutores da Academia, os empresários goianos formam, aos poucos, uma incubadora na capital com objetivo de criar e explorar novos negócios pelo país.

Um dos pioneiros em Goiás foi o aplicativo Tippz, de 2011. Idealizado pro quatro engenheiros de software recém-saídos da UFG, este foi o primeiro produto deles com a proposta: rachar a conta do bar. “Queríamos algo focado em smartphone, que estava começando a se popularizar. Era ajudar a gerenciar a conta na mesa de bar porque fazer aquela conta no final não é uma tarefa muito simples e para nós, engenheiros da computação, sempre sobrava pra gente fechar a conta da mesa (risos)”, conta um dos desenvolvedores, Vandré Sales.

Além disso, eles obtinham dados sobre o consumo dos usuários, além de feedback. Aos poucos, o aplicativo foi evoluindo e ganhando novas funcionalidades, como serviço de delivery, serviço pick-up (você faz o pedido no restaurante e depois busca) e pedidos a partir da própria mesa do bar sem precisar chamar o garçom. A funcionalidade primária de rachar a conta ainda está lá.

O produto já está expandindo, chegando a outras capitais. O objetivo é um dia atingir todo o país: “Temos que analisar o melhor mercado, a melhor oportunidade de entrada, então estamos fazendo essa expansão de forma bem estudada”, ressalta Vandré. Outro que investiu em delivery foi o Entrega Web, de Celso Brandão.

O idealizador conta que desde quando criou o projeto, em 2012, o mercado de aplicativos explodiu: ” Até então, a grande maioria dos acessos à internet era feita por PC e apenas uma pequena parte da população tinha um smartphone. Hoje é completamente diferente, foi bom porque pegamos o exato momento dessa mudança”. Vandré divide um sentimento parecido e disse que no início o Tippz encontrava muita resistência: “Hoje acontece o contrário, já temos uma lista de donos de bares nos procurando querendo entrar no aplicativo”.

Celso conta que agora são mais de 35 mil usuários cadastrados em Goiânia e exatos 100 estabelecimentos que fazem entrega pelo site/aplicativo. Ele agora planeja expandir o Entrega para outras cidades e aconselha: “O mercado de apps não é para todo tipo de negócio, não são todos os negócios que deveriam ter um app próprio, mas a maioria deles já pode ou poderá em breve usar uma plataforma como o EntregaWeb para melhorar seus resultados”.

 

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O empresário Vandré Sales, do Tippz

Já o empresário Cláudio Ávila e seus parceiros da Supera Tecnologia investiram em um mercado ainda mais disputado: o de táxi. Em meio à batalha taxistas x Uber, o Way Taxi aposta em boa qualidade como diferencial desde 2012: “Identificamos um problema que era a qualidade de serviço em um círculo vicioso entre passageiro e taxista: um não confia que o outro não vai furar; o passageiro acha que o taxista não vai vir e o taxista acha que o passageiro vai pegar outro táxi antes dele chegar. O pessoal ligava para várias cooperativas e pegava quem aparecia primeiro”.

Com o objetivo de não apenas chamar um táxi, mas de melhorar o serviço, o aplicativo logo cresceu para se tornar o terceiro maior do mercado, atrás apenas do 99 Táxis e do Easy Taxi. “Nosso modelo cresceu bastante com um investimento relativamente pequeno e sendo uma ferramenta de fidelização dos clientes que pode ter uma frota particular: marcar como favorito os taxistas que você confia que vão ter um atendimento preferencial. Por exemplo, você quer mandar um táxi pra buscar o seu filho, você pode entrar em contato e mandar um taxista que você conhece”.

Assim como no Uber, o passageiro também é avaliado: “Se você é um passageiro bem avaliado e chama em uma região perigosa, ele vai te atender com mais tranquilidade, sem medo de ser uma cilada”. O aplicativo já funciona em 200 cidades brasileiras e cresceu basicamente graças à propaganda boca a boca dos próprios taxistas e passageiros.

Por fim, Daniel Esteves resolveu automatizar e facilitar o contrato de uma agência de diaristas. Ele criou a Plimpo, que espera chegar a todo o Brasil nos próximos três meses e atualmente funciona aqui e em Brasília. O serviço começou a funcionar em agosto do ano passado com taxas a partir de R$ 80.

 

“Eu já trabalhava com agência de limpezas há três anos. Foi então que eu percebi que todo esse processo poderia ser automatizado e que assim seria mais fácil e interessante de as diaristas encontrarem serviço e dos clientes de encontrarem diaristas melhores e de confiança”, conta.

 

As diaristas se cadastram e então são treinadas em limpeza e atentimento. Após cada limpeza, o cliente avalia a profissional pelo aplicativo. A ideia é não apenas ter boas profissionais, mas que elas possam fidelizar clientes. “A internet facilita muito. Quase não temos custos operacionais”, destaca Daniel.

 

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Daniel Esteves, idealizador da Plimpo

 

Além do mercado voltado para o consumidor direto, diversos empresários estão trabalhando em aplicativos para facilitar a gestão e os negócios de outros empresários. Um aplicativo que fica no meio é o ZUMMM. Idealizado por Almir Firmino da Decisão Sistemas, o aplicativo atende caminhoneiros e indústrias: “O objetivo do ZUUUM é resolver um grande problema no Brasil que é onde há carga não há caminhão e onde há caminhão não há carga. A empresa anuncia a carga no aplicativo e o caminhoneiro recebe onde estiver a oferta de carga, entra em contato com a empresa e negocia o frete”.

Segundo Almir, no modelo tradicional, o caminhoneiro vai de porta em porta atrás de frete e muitas vezes fica parado por até 15 dias ou faz a viagem de volta vazio por não conhecer os fornecedores. “Pelo aplicativo, ele não precisa conhecer os fornecedores, ele vê pelo aplicativo o que está disponível”. Em funcionamento desde março de 2015, o ZUUUM já possui mais de 12 mil caminhoneiros cadastrados.

Ele finaliza dizendo que as novas tecnologias permitiram que a empresa realizasse um projeto antigo: “Nós temos a ideia do ZUUUM há 10 anos, mas não havia a tecnologia. Pensamos em colocar totem, mas aí íamos ter que colocar totem pelo Brasil inteiro e o caminhoneiro teria que ir a postos credenciados. Não era viável. Aí com a popularização da banda larga, ainda não havia internet em todo lugar. A mudança veio mesmo com o 3G. Agora a gente podia lançar o negócio”.

De empresa para empresa

Já o SuasVendas possui um foco em gestão comercial, podendo ser usado pelas empresas propriamente ditas e por seus representantes comerciais. Lançado em 2008, ele é o mais velhinho dessa reportagem e passou por toda uma transformação: de software para site, de site para aplicativo. São 1.800 clientes e mais de 10 mil usuários cadastrados.  “Pequena e média distribuidora precisa, indústria quer controlar estoque, representante quer ter controle sobre suas contas. Controla venda, comissão, estoque, financeiro. Hoje vendemos no Brasil todo, temos clientes no nordeste, no norte”, conta o idealizador Vítor Nogueira.

Vítor também é responsável por um outro projeto ainda em fase de testes: o InSaúde. “É o primeiro aplicativo do Brasil que permite que a população agende as consultas no posto de saúde via aplicativo. Hoje, qual é o problema: a pessoa tem que ir no posto agendar. Madruga, falta trabalho. Pelo aplicativo, ela só precisa de um número celular e o aplicativo já mapeia qual é o posto que pode atender ela e já marcar. Aí é só ir para consulta. O aplicativo é 24h”, conta.

Atualmente, o InSaúde funciona em Inhumas há três meses, mas a empresa já vai expandir: “A ideia era esperar a ideia maturar por seis meses, mas em um mês e meio já tínhamos conseguido um resultado muito significativo. Apresentamos o projeto diretamente no Ministério da Saúde. Fechamos na cidade de Piranhas e vamos para Porto Velho e Rio Branco”.

Os projetos que encerram este rol é o Noov, o Go Geo e o BuzzLead. O Noov é o mais jovem deles e acaba de ser lançado pela Oobj. Com ele, os lojistas podem comparar notas fiscais: de instrumentos para pagar impostos, elas passam a ter valor agregado: “A estratégia do Noov é conseguir inteligência de mercado com as notas fiscais. O lojista poderá entender se o resto do mercado está vendendo como eu, se o que eu tenho na prateleira está vendendo como eu espero para o meu consumidor, o que lojas similares a mim estão vendendo”, conta o desenvolvedor André Ramos. Atualmente, uma grande empresa de bebidas do Estado atua como projeto piloto do aplicativo.

 

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Vítor Nogueira (esq) e seu sócio Pedro Henrique

Já o Go Geo agrega valor à informações geográficas e operacionais da empresa: “Por exemplo, dados das empresas de telefonia, localização dela, quantidade de atendimentos de suporte, número de chamadas, e comparamos isto com o de outras empresas. Assim uma empresa de telefonia pode ver, por exemplo, onde o atentimento e a estrutura dela está ruim e ver se por lá como está a condição do concorrente assim como localizar regiões com clientes em potencial”, conta o idealizador Vagner Sacramento.

 

Com o Go Geo, ele espera conseguir retorno de várias áreas empresariais diferentes, como indústrias e varejistas e já possui alguns clientes maiores especialmente no eixo Rio-São Paulo. Por fim, o Buzz Lead consegue obter informações úteis de um dos recursos mais antigos do comércio: a indicação boca a boca.

A empresa espera fidelizar o cliente e expandir suas vendas e clientes através de indicações da sua base de clientes que, por sua vez, são recompensados por indicar a empresa. “A maior parte das empresas vende e consegue novos clientes a partir da indicação de clientes satisfeitos. Mas na mesma medida, muitas não dão valor para essa forma de conseguir vendas”, conta o desenvolvedor Leandro Martins.

 

Com pouco mais de um ano de mercado, o BuzzLead já possui 20 clientes, grande parte deles de fora de Goiás. Martins enxerga um grande mercado para o aplicativo no ramo do e-commerce, e conta que até agora as empresas com venda complexa são as mais interessadas no programa: “Quando você vai vender um software, não é só chegar e comprar e pronto, por exemplo. Tem a implementação, suporte, um vendedor vai lá, apresenta uma ideia, rola uma proposta. Enfim, uma venda que não acontece em tempo real e que não é simples. Para essas empresas, a indicação boca a boca do BuzzLead têm sido muito positiva, ajudando a reduzir o tempo de fechamento da venda”.

 

Enfim, estes são apenas alguns dos vários projetos e empresários que resolveram apostar na tecnologia como plano de negócio em Goiás. Quem sabe com o tempo estes pioneiros não consigam transformar Goiânia realmente em uma fonte de ideias para todo o país? Só o tempo dirá.