Carência

Funcionária rebate titular da SES e afirma que Hugo continua sem insumos

Carência de materiais pode prejudicar atendimento à população. Segundo trabalhadora, medicamentos, luvas, agulhas entre outros materiais estão em falta ou com estoque reduzida


Hugo Oliveira
Do Mais Goiás | Em: 12/06/2018 às 18:21:48

Prateleiras vazias. Estoque de insumos do Hugo carece de reposição segundo denúncia de funcionária. Secretário considera situação
Prateleiras vazias. Estoque de insumos do Hugo carece de reposição segundo denúncia de funcionária. Secretário considera situação "normal" (Foto: reprodução/Whatsapp/Mais Goiás)

Em vídeo compartilhado na timeline da Secretaria de Estado da Saúde de Goiás (SES) no Instagram na tarde de segunda-feira (11), o titular da pasta, Leonardo Vilela, afirma que a situação do Hospital Estadual de Urgências de Goiânia (Hugo) “é absolutamente normal”. No entanto, fonte do Mais Goiás que trabalha dentro da unidade revela que insumos como medicamentos, gesso, soro fisiológico, luvas e agulhas estão em falta ou com estoque reduzido, o que vem comprometendo a qualidade e agilidade do atendimento.

Medicamentos como antibiótico Gentamicina e o anticoagulante Clexane estão zerados a pelo menos 30 dias, de acordo com a funcionária, que não quer ter a identidade revelada. “O anticoagulante é importantíssimo para a traumatologia, é o que evita trombose, mas está em falta há cerca de 30 dias. Falta de medicamentos é uma coisa corriqueira aqui no Hugo. Várias cirurgias já foram canceladas por falta de remédios. Tenho pacientes que aguardam procedimento há mais de 30 dias por falta de insumos”, assegura.

Os materiais de trabalho, segundo ela, estão regrados e são suficientes apenas para algumas horas. “Insumos estão em falta. Estou, neste momento, diante do armário do soro fisiológico e temos apenas unidades de 500mL, quando também precisamos do de 100mL para diluição de medicamentos. Temos apenas cerca de 100 frascos de 500 ml, o suficiente para um dia. O desabastecimento, nesse quesito, nos afeta há oito dias”, denuncia.

Veja foto feita na manhã de segunda (11). Funcionária atesta que condições não mudaram após visita do secretário.

Agulhas (Foto: reprodução/Whatsapp/Mais Goiás)

O problema afeta diretamente pacientes internados. Um deles, com fratura no braço está – conforme expõe a funcionária – com a tala de gesso quebrada há três dias, mas a troca ainda não foi providenciada porque não há gesso no hospital. “Tem uns três dias que o pedido foi feito. Não sabíamos o motivo do procedimento ainda não ter sido feito, mas um médico acaba de informar que não há gesso na unidade”.

Itens que também estão com estoque reduzido estão sendo racionados. É o caso das luvas e agulhas, os quais estão sendo liberados em pequenas quantidades. “Foram feitos pacotinhos para fazer render. Enquanto deveríamos receber caixas com 100 pares, no caso das luvas, recebemos pacote com 50”, observa.

O equipamento responsável por transferir soro fisiológico do frasco para o paciente, chamado de equito, também está em falta. “O ideal seria utilizar o convencional, que custa até R$ 0,30 se comprado em grandes quantidades, mas estamos usando o de bomba, que custa R$ 25 cada porque o que é barato está em falta”.

Situação

Da lavanderia da unidade, na tarde de segunda (11), o secretário de Estado da Saúde Leonardo Vilela afirmou que o trabalho no Hugo estava sendo conduzido e que não havia falta de roupas de cama e materiais esterilizados, o que foi confirmado pela fonte do Mais Goiás. Na gravação, ele afirma que a situação da unidade é normal, embora estoques dos referidos insumos estejam vazios ou reduzidos.

“Cirurgias eletivas foram interrompidas semana passada. Estão sendo remarcadas, muitas já foram feitas…[inaudível].  O que eu vejo no Hugo, nessa hora, nesse momento, é uma situação absolutamente normal para um dos maiores hospitais de urgência do Brasil”. Assista:

Em texto publicado nesta terça-feira no site do governo de Goiás, o secretário ressaltou que conversou com pacientes e esteve nas alas de enfermaria, na emergência, UTI e lavanderia, para apurar o funcionamento da unidade. Após a visita, ele afirmou que o hospital está abastecido”.

“Visitei o hospital para acompanhar se o atendimento estava normal. Ficou evidente que a unidade está abastecida e segue com sua rotina, ao contrário do que alguns veículos de comunicação noticiaram. A grande maioria das cirurgias eletivas canceladas já foi feita no fim de semana, e não há falta de nenhum tipo de insumo básico”, comentou Vilela.

Para a trabalhadora, esta foi uma tentativa de “maquiar” a face real do problema. “Trabalho aqui há 15 anos, cerca de cinco deles sob administração da Gerir. Apesar das paredes estarem pintadas e a limpeza estar em dias – quando não há greve –, a gestão não é boa. A maquiagem é ótima, mas o tratamento é ruim. É tudo muito bagunçado”, critica.

O Mais Goiás entrou em contato com a Organização Social Gerir, que direcionou a manifestação sobre o assunto à assessoria da SES-GO. Este portal aguarda posicionamento do órgão via e-mail.

Denúncias

Segundo a presidente do Sindicato dos Servidores da Saúde do Estado de Goiás, denúncias sobre falta de insumos no Hugo tem frequência semanal. “Já reportamos ao secretário e ao Ministério Público e conversamos com a Gerir sobre o assunto. Eles alegam que a carência de matérias se deu pela greve dos caminhoneiros e por falta de dinheiro que deve ser repassado pelo estado. Não concordamos com a primeira versão, já que é de conhecimento público que caminhões com insumos médicos não estavam sendo barrados”.

Segundo ela, o que falta é tratar a Saúde como prioridade. “Não é um problema de gestão, mas de colocar a Saúde como prioridade. A gente continua defendendo gestão própria do estado, com planejamento para que tenhamos uma situação melhor. A falta de insumos é um problema que deixa o cidadão sem atendimento, precisam se organizar”. Flaviana lembra que o contrato com a Organização Social Gerir foi renovado pelo estado em abril. O repasse anual deixou de ser de R$ 205 milhões para custar R$ 215 milhões, dinheiro que, segundo ela, deve ser utilizado para gerir o hospital e gerar lucro para a instituição.