Filme goiano estreia no Festival de Cinema de Tiradentes

Entrevistamos os diretores Marcela Borela e Henrique Borela sobre o longa-metragem e a relação com os índios Avá-Canoeiros, que residem na região da Ilha do Bananal, no Interior do Tocantins.

O filme Taego Ãwa, dirigido por Marcela Borela e Henrique Borela, tem sua estréia marcada para o próximo Festival de Cinema de Tiradentes. Abordando a história do povo indígena da Avá-Canoeiros, da região da Ilha do Bananal, no Tocantins, o longa-metragem é o primeiro com diretores goianos a participar do evento.

Confira abaixo entrevista:

O longa-metragem começou a ser produzido alguns anos depois de encontrar as 5 fitas em VHS. O filme estava sendo produzido neste tempo? Como foi o processo de criação neste tempo?
Marcela Borela: Em 2003, quando encontrei as fitas VHS, eu tinha 20 anos e não tinha vivido nem mesmo minha primeira experiência com o cinema. Quando eu soube da existência das VHS eu estava no Tocantins, numa aldeia Khraô participando de um projeto de extensão da UFG. A gente estava conversando sobre histórias de mistério do cerrado e um professor falou dos índios invisíveis, que vagavam em pequenos grupos estavam sempre em fuga dos brancos e que haviam grupos contatados e grupos isolados até hoje e que tinha umas imagens lá na faculdade que mostravam eles. Eu quis ir atrás.

Demorou até juntar as 5 fitas. Algumas estavam na casa desse professor, outras pareciam perdidas. Quando eu comecei a assistir eu não entendia nada, mas eu sentia uma opressão ao mesmo tempo que achava as imagens bonitas. Pensei em fazer um filme. Então foi o primeiro filme que eu quis fazer. Foi marcante para mim essa experiência da comunicação comunitária em aldeia indígena. Ali, eu passei a me ligar mais na questão. Mas era uma coisa intuitiva, eu queria, sentia, mas não sabia como fazer. Sobretudo quanto as imagens, elas me geravam muitas perguntas. Essas fitas ficaram quietas lá em casa e foi o Henrique, meu irmão, já estudando antropologia, que as reencontrou e quis retomar a ideia. Isso foi em 2006. Nessa altura, desde 2004, eu estava participando de curtas-metragens como produtora, figurinista e tinha feito um curta universitário como roteirista e diretora. (Eu venho da dança e tinha alguma noção em função de espetáculos que participava). Estava também  me formando em Comunicação. O Henrique já tinha conhecimento sobre a questão indígena, e estava começando a trabalhar em filmes comigo.

Eu estava cada vez mais voltada para o interesse pelo documentário. Foi aí que começamos a procurar mais imagens dos índios Avá-Canoeiros, que se autodenominam Ãwa. Em 2009 escrevemos o primeiro projeto para tentar recursos para fazer o filme. Era um curta. Não foi aprovado, pois não tínhamos anuência dos índios. Daí passamos mais um tempo reunindo imagens e em 2011 fomos até os Ãwa pela primeira vez. Em 2012 começamos a efetivamente tentar produzir um longa, já com os índios participando da construção. Mas o filme foi negado em vários editais. Foi negado em todos os editais do Estado de Goiás, por exemplo. Só quando aprovamos no Edital de Fomento ao Documentário Brasileiro – Longa.Doc, da SAV/MINC, em 2013, foi que foi possível começar a produzir. No entanto a pesquisa começou bem antes, em 2003, exatamente, com muitas lacunas e processos que definem nosso aprendizado no cinema e na vida.

Como foi participar com tanta proximidade do filme? Conte um pouco sobre esse processo.
Henrique Borela: Não acredito em filmes que são feitos sem proximidade. É preciso estabelecer uma relação de proximidade com quem filmamos, o que é diferente de assumir o ponto de vista daquele que filmamos. É preciso estabelecer uma relação de proximidade também com a equipe que trabalha com você. Por isso filmamos com uma equipe pequena e de pessoas que são acima de tudo nossos amores, amigos e companheiros de vida. Foram muitos anos gestando esse filme, um processo longo de relação primeiro com os arquivos sobre os índios e depois com os próprios Ãwa. A nós interessava antes de tudo construir a possibilidade desse filme com os Ãwa e só então filmarmos. Nesse sentido,muito do que foi filmado, o roteiro como entendemos, foi sendo criado a partir das discussões sobre o filmeque tínhamos com os Ãwa. Assim como Pierre Pierrot faz em Por lasuitdumond,  não pretendíamos filmar a vida dessas pessoas como ela é, mesmo porque isso não seria possível, mas sim propor um real imaginado, capaz de dar conta de uma outra realidade – a que podemos inventar.

Buscar as verdadeiras raízes do povo goiano parece ser uma das finalidades do filme. Pra vocês qual seria a principal abordagem?
Marcela Borela: O filme acaba tocando na história da ocupação do centro do Brasil, da colonização, da exploração e extermínio do outro. Essa é a história de Goiás, história do Brasil, da América. Goiás vem de uma trajetória de massacres aos povos indígenas, as populações negras, pobres, a começar pelo que lhe dá nome: os índios Goyazes. Mas o filme mostra isso de um jeito quase invisível, afinal é uma raiz estirparda.  Não se fala diretamente de Goiás. E os lugares que filmamos todos são no Estado do Tocantins, na Ilha do Bananal e suas proximidades. O Tocantins era Goiás em 1973, quando os Ãwa do Araguaia foram contatados à força pela Funai. Acredito que seja uma abordagem a partir desse espaço apenas, que é o lugar em que nós também vivemos, crescemos, estudamos, trabalhamos, etc.

O longa é o primeiro de Goiás a participar deste evento. Conte como é estrear um filme na Mostra de Cinema de Tiradentes.
Marcela Borela: É bastante significativo porque Tiradentes e, ainda com mais força a Mostra Aurora, competitiva da qual o filme está fazendo parte, é um ótimo lugar para se mostrar filmes de diretores jovens, pouco conhecidos. Há ali construída uma expectativa em torno de um cinema totalmente desconhecido, com uma certa missão de arriscar e inovar, revelando a disseminação da experimentação audiovisual por vários lugares do Brasil. Os curadores tem tido essa preocupação ao longo dos anos e isso já tem se tornado uma tradição.

Muito do cinema de Minas, do Ceará, da Paraíba, da Ceilândia, da periferia de São Paulo que aparece hoje, surgiu e continua surgindo em Tiradentes. Por conta desse fluxo é que é tão legal estar ali. Também porque esse ano, o festival tem o tema “Espaços em Conflito”, que dialoga muito com TaegoÃwa que é um filme sobre uma terra em litígio, um povo que está sendo constantemente expulso do seu território. Em tempos de PEC 2015, eu acho muito forte que hajam 2 filmes sobre a questão indígena na Aurora (há uma outra produção baiana e pernambucana sobre os índios Zoe). Sinto que a gente vai mostrar o filme no lugar certo, isto é, a partir de um contexto em que as coisas podem reverberar de uma forma menos conservadora.

De onde vem o contato dos produtores com a sociedade indígena? Qual a relação entre vocês e o povo Ãwa?
Henrique Borela: Tanto eu como a Marcela tivemos experiências de relação com grupos indígenas durante a faculdade. Seja em oficinas de rádio comunitária em aldeias indígenas, como no caso da Marcela, como estudante de Comunicação, ou em projetos de pesquisa como no meu caso, como estudante de Ciências Sociais. E foram essas experiência que nos influenciaram a pensar no filme e mais tarde conhecer os Ãwa. Hoje, para além do filme, nossa relação com os Ãwa é de amizade e extremo respeito pela história e luta deles. Queremos ainda visitá-los muitas vezes em TaegoÃwa, e quem sabe fazer outros filmes, contar outras histórias juntos.

Em Goiânia a produção de filmes parece ter grande ligação com o formato curto. Trabalhar longa-metragens na capital de Goiás é de certa forma um fomento para os cineastas?
Henrique Borela: Há alguns longas sendo produzidos em Goiás e outros tantos produzidos anteriormente, sobretudo se olharmos a história do cinema feito em Goiás. Seja de forma independente ou através de leis de incentivo. O fomento ainda é incipiente, apesar dos realizadores e produtores terem tido conquistas importantes ao longo dos anos em editais de longa-metragem. O que falta são políticas públicas consistentes que trabalhem desde a formação de novos realizadores até o incentivo para aqueles que já estão produzindo. Fazer um longa não é mesmo que fazer um curta em termos de investimento de tempo e dinheiro.

Se esses realizadores não conseguem viver do seu trabalho como cineastas e tem que ter outro emprego para garantirem sua sobrevivência, será muito difícil que eles se dediquem integralmente a produção de novos filmes, e que esses filmes tenham fôlego suficiente para cruzar as fronteiras do seu lugar de produção.

A mim me parece que é uma questão pragmática, para não dizer matemática: quanto mais se investe na produção e formação, mais filmes de longa-metragem serão realizados em Goiás. Simples assim.