Agência O Globo

FBI desbarata milícia de extrema direita para sequestrar governadora nos EUA

No total, 13 pessoas foram detidas; casa de férias de Gretchen Whitmer vinha sendo vigiada

Manifestante carrega cartaz com foto da governadora do Michigan, Gretchen Whitmer, durante evento da Coalizão Conservadora de Michigan, em maio deste ano Foto: JEFF KOWALSKY / AFP
Manifestante carrega cartaz com foto da governadora do Michigan, Gretchen Whitmer, durante evento da Coalizão Conservadora de Michigan, em maio deste ano Foto: JEFF KOWALSKY / AFP

Treze pessoas ligadas a uma milícia de extrema direita foram presas e acusadas de planejar o sequestro da governadora Gretchen Whitmer, de Michigan. A milícia, denominada Wolverine Watchmen, vinha planejando a ação contra a governadora do Partido Democrata  pelo menos desde agosto. Sua casa de férias estava sendo vigiada e a ideia era sequestrá-la antes das eleições presidenciais de 3 de novembro.

No início deste ano, o FBI descobriu através das redes sociais que um grupo de pessoas estava planejando promover “golpes” em governos regionais. Em junho, o FBI conseguiu pôr um infiltrado em uma reunião dos envolvidos, de acordo com o documento publicado nesta quinta-feira.

— Nossos esforços revelaram planos elaborados para pôr em risco a vida de policiais, funcionários do governo e do público em geral —  disse a secretária de Justiça de Michigan, Dana Nessel.

Whitmer e Nessel ligaram o complô a comentários do presidente Donald Trump e sua recusa, diversas vezes, em condenar os supremacistas brancos e grupos violentos de extrema direita. Especialistas também se mostraram preocupados com o aumento da violência fomentada por milícias semanas antes e depois das eleições, especialmente porque Trump sugeriu repetidamente que seus oponentes podem estar tentando fraudar o pleito.

— Na semana passada, o presidente dos Estados Unidos se recusou a condenar os supremacistas brancos e grupos de ódio como esses dois grupos da milícia de Michigan — disse Whitmer. — Eles ouviram as palavras do presidente, não como uma repreensão, mas como um grito de guerra: como um chamado à ação.

Seis dos presos — Adam Fox, Barry Croft, Ty Garbin, Kaleb Franks, Daniel Harris e Brandon Caserta — foram acusados de sequestro, crime que pode levar à prisão perpétua. Os demais sete foram acusados de providenciar material de apoio para atividades terroristas, associação criminosa e o uso de armas de fogo para cometer crimes.

O grupo se reuniu durante o verão no hemisfério norte para treinamento de uso de armas de fogo e táticas de combate. Eles também tentaram fabricar explosivos e tiveram vários encontros para discutir o sequestro, incluindo no porão de uma loja em Michigan que só era acessível por uma entrada secreta.

“O grupo falou sobre a criação de uma sociedade que seguisse a Declaração de Direitos dos EUA e onde eles pudessem ser autossuficientes”, de acordo com o relatório do FBI. “Eles discutiram diferentes maneiras de atingir esse objetivo, indo de esforços pacíficos a ações violentas. A certa altura, vários membros falaram sobre governos estaduais que acreditavam estar violando a Constituição, incluindo o governo de Michigan e a governadora Gretchen Whitmer. Vários membros falaram sobre assassinar ‘tiranos’ ou ‘derrubar’ um governador em exercício.”

Whitmer — que antes da escolha de Kamala Harris, era cotada para ser vice na chapa de Joe Biden — se tornou um alvo de extremistas de direita, inclusive de grupos armados, que defendem que sua resposta à pandemia de coronavírus violou as liberdades individuais —  ela implantou restrições como uso obrigatório de máscaras e duras medidas de distanciamento social.

Ela ainda foi atacada por defender a ampliação do voto pelo correio, medida para evitar aglomerações, mas que rendeu uma ameaça de corte de verbas do estado por parte de Trump, ameaça que acabou deixada de lado pouco depois.

Crescimento das milícias armadas

Nos últimos anos, várias instituições de inteligência e segurança vêm monitorando o aumento de milícias armadas de extrema direita. E as manifestações de 2020 deram um novo ímpeto para que os grupos saíssem do mundo virtual e ganhassem as ruas.

Em abril, centenas de manifestantes, alguns portando armas semiautomáticas, ocuparam a Assembleia estadual de Michigan para protestar contra as ordens restritivas. Trump incentivou abertamente esses protestos, tuitando, em letras garrafais: “LIBERTEM O MICHIGAN!”. Os manifestantes incluíam pessoas com suásticas, bandeiras dos Estados Confederados — que lutaram contra o fim da escravidão na Guerra Civil Americana — e um deles levava uma boneca representando Whitmer pendurada em uma forca.

O estado tem um longo histórico de atividades antigovernamentais, que datam do início dos anos 1990, com a criação de um grupo conhecido como Milícia de Michigan — que ganhou força novamente com a eleição de Baracka Obama, em 2008.

A presença dispersa inicial de grupos armados aumentou com a onda de protestos em todo o país, iniciada após a morte de George Floyd, negro, por um policial branco em Minneapolis, no dia 25 de maio.  Quando algumas das marchas, começaram a registrar em incêndios criminosos e pilhagens, milicianos apareceram nas ruas, dizendo que estavam ali para proteger casas e lojas.