Extorsão

Exclusivo! Vereadora e marido são gravados pedindo propina a prefeito de Alto Horizonte

Mais Goiás teve acesso a três áudios em que a parlamentar solicita pagamentos em troca de tranquilidade na administração. Ela usava marido, com ficha criminal, para intimidar vítima


Hugo Oliveira
Do Mais Goiás | Em: 01/03/2018 às 17:06:04

Vereadora cobrava propina ao lado do marido, Rogério D'afonseca, segundo prefeito (Foto: reprodução)
Vereadora cobrava propina ao lado do marido, Rogério D'afonseca, segundo prefeito (Foto: reprodução)

Com reputação ilibada nas redes sociais e fama de lutadora por benefícios para a sociedade, a vereadora de Alto Horizonte, a 330 quilômetros da Capital, Lauanda Peixoto Guimarães (PRB) estava acima de qualquer suspeita. Isso até ser acusada de extorsão pelo prefeito da cidade Luiz Borges (PSD), que relatou o caso com exclusividade ao Mais Goiás. Conforme explica o líder do Executivo municipal, desde 2017, ela oferecia “governabilidade tranquila” em troca de cerca de R$ 30 mil mensais. Segundo o gestor, que negou ter cedido ao esquema, a parlamentar usava a ficha criminal do marido, Rogério da Silva d’Afonseca – que responde por homicídio –, para intimidá-lo.

O caso foi registrado na Delegacia de Repressão a Crimes Contra a Administração Pública (Derccap) em meados de junho daquele ano, quando o prefeito apresentou áudios de conversas dele com a vereadora e o marido, comprovando a tentativa de extorsão praticada pela parlamentar tanto na gestão vigente como na anterior, de Oildo Silveira Machado (PP). De lá, o caso foi encaminhado para o Ministério Público da comarca de Campinorte, que absorve denúncias partidas de Alto Horizonte.

Gravação flagra vereadora em conversa com Luiz Borges (Foto: reprodução/internet)

Atualmente, segundo a promotora Liana de Andrade, as investigações ocorrem em segredo de Justiça. “Os autos são sigilosos e o assunto está sob investigação. Prefiro me resguardar e não passar nenhuma informação enquanto esse processo não for concluído. Sobre a previsão de resolução dos fatos, vai depender de como a investigação irá decorrer. O objetivo é de que seja célere”, informou.

Áudios

Em uma das gravações, feita em meados de julho de 2017, Lauanda e o Marido vão ao gabinete do prefeito para cobrar a primeira e a segunda parcelas da propina, que não foram pagas. Nessa conversa, Lauanda acaba discutindo com Borges os termos do que chama de “parceria” e acaba revelando que a extorsão tinha iniciado, pelo menos, na gestão anterior, com valores extorquidos do ex-prefeito da cidade Oildo Silveira Machado (PP).

Áudio: Lauanda e o marido pressionam o prefeito

Cansado de ser cobrado, Luiz Borges desabafa. “Eu acho o seguinte: o que tiver errado, se vocês falar e denunciar, faz é me ajudar. O que tiver de errado aqui eu quero que denuncie, porque está me ajudando. Se tiver errado que se corrija (sic)”.

A mulher retruca. “Tem muita coisa que está errada e que prejidica só você (sic)”. O prefeito faz a tréplica. “Mas não tem problema não (sic)”. Lauanda emenda. “Então beleza! Nossa parceria está acabada. Eu não entendo o que você quer”.

Borges reforça. “Eu falei desde o início que eu não tenho interesse em comprar o silêncio de ninguém não (sic)”. Lauanda admite. “Eu calei, estou tentando te mudar, mas você tem que honrar seus compromissos. Por causa deles eu saio daqui e assino contratos anuais”.

Mais a diante, o prefeito questiona o valor da propina. Nesse momento, Borges blefa, afirmando que foi informado pelo ex-prefeito, Oildo Silveira Machado (PP), de que a propina era de R$ 10 mil, e não de R$ 30 mil, com a intensão de fazer Luanda revelar mais detalhes. “Era R$ 25 mil mais um contrato de locação de um carro”, admite.

Ameaça

Em outra gravação, Lauanda afirma que tem que acertar o “compromisso” com outras pessoas e que o pagamento deve ser feito no dia seguinte. Ela se refere ao pagamento das duas primeiras parcelas, que era frequentemente adiado  por Luiz Borges. “Estou sob pressão. É um compromisso que eu faço, que eu tenho por lei, por regra cumprir. Tira um tempinho e dá um jeito nisso aí, porque eu não consigo mais [esperar] (sic)”.

A vereadora continua. “Você tem sua fama de resolver. O passado é esse, a gente faz compromisso com os outros e tem que honrar. Vc já pediu tempo pro Rogério, mas aí nada resolve”. O prefeito responde. “Vou ver como eu faço aqui, se consigo pegar emprestado..Dou um jeito”, protela.

Áudio: Marido da vereadora vai cobrar o prefeito

Na sequência, o prefeito afirma que conseguir o valor solicitado é complicado. Lauanda então argumenta que “é só ele dividir o valor nos mercados” que ele tem. Sem entender, Borges pergunta e a parlamentar explica como pode conseguir o dinheiro.

“Vc divide, uai. Fala pra eles que não tem nota e eles te arrumam o dinheiro. Como sempre foi feita as coisas aqui dentro, porque a gente sabe como funciona isso aqui. Você tem seus companheiros. Eu sei que você tem. Você tem gente que vem aí pra participar de licitação, de pregão, você sabe como é a base de cálculo, sabe como é percentual… Você fala pra eles honrarem o compromisso e pronto”, sugere a vereadora.

Ao dizer que só conhece os participantes de pregão e licitação quando a seleção termina, Lauanda critica o controle que Borges tem sobre o município. “Não é possível que você não vê quem participa. É gente da administração passada, na mesma parceria. Eu tô ficando impressionada. Como você passa aqui pra dentro e não toma controle disso aqui?”. Indignada, ela acaba revelando que o esquema também atinge a Saúde de Alto Horizonte. “O esquema da Saúde é o mesmo, até hoje e vai continuar nesse próximo, das ambulâncias”.

Após 20 minutos de conversa, é possível notar que o casal se levanta para ir embora. Em tom de despedida, uma última cobrança. Dessa vez com participação do marido, Rogério.  “Você vai fazer esse trem? Quero saber se vai ou não. Tem um mês já”. Borges alega que o valor é alto, mas o casal não dá ouvidos. “Você tem que entender que sempre funcionou e que é única coisa que você vai fazer na sua vida que não vai te dar problema”. Rogério continua. “Nós te aguarda até amanhã. Não fizer, depois você aguenta o bagui (sic)”, ameaça.

Equipe

A todo momento a vereadora afirma, nos áudios, que há uma equipe por trás do esquema de propinas e tenta facilitar, para o prefeito, o pagamento da “dívida”. No mais curto dos áudios, ela afirma que controla a atuação dos colegas vereadores Amarildo Ribeiro Rosa (MDB), Diogo Rodrigues de Sousa (MDB) e Waltemy Braz Gomides (Pros). “Ali só faz o que eu falo, ali só faz o que eu aconselho”, garante.

Uma série de outros nomes são citados. Entre eles os de pessoas identificadas apenas como “Rosemeire”, “Thiago” e “Maurício”, que podem fazer parte do esquema.  Além disso, Lauanda afirma que tem contratos com advogado e contador, os quais também fariam parte de sua “equipe”.

O caso

Os áudios gravados comprovam a iniciativa ilegal perpetrada pelo casal. Segundo Luiz Borges, em entrevista exclusiva para o Mais Goiás, os assédios e pressões tiveram início ainda em meados de fevereiro e março de 2017, quando o recém-eleito prefeito ainda não havia completado um trimestre de administração. O primeiro encontro foi em uma audiência no Fórum da cidade em que o prefeito tentava manter legal a sua candidatura.

“Ela tentou impugnar a minha candidatura desde quando eu era candidato. Ela achava que se eu não negociasse com ela, não ia ter jeito. Mas o processo foi deferido ao meu favor, tanto no Tribunal Regional Eleitoral (TRE) como, posteriormente, no Tribunal Superior Eleitoral. Como não conseguiu, agora ela está tentando me deixar inelegível”, comenta.  Atualmente, o prefeito enfrenta outra ação, com o mesmo propósito, iniciada pela coligação de Lauanda no TRE.

Ciente das pressões que iria passar a enfrentar, Luiz, que também é cabo da Polícia Militar, passou a gravar os encontros que tinha com a parlamentar e, às vezes, com o casal. Nas reuniões, registradas em áudio, o prefeito era cobrado objetivamente por Lauanda e por Rogêrio.

“Eles iam muito em meu gabinete. Por várias vezes eu coloquei meu celular para gravar. Eles pediam para desligar o telefone antes, mas eu tinha outro e deixei ele escondido fazendo os registros. Tinha vários arquivos, até que meu celular foi roubado no início de maio [2017] e eu tive que iniciar as gravações do zero. Acreditaram que eu ia ceder, davam prazos. Enquanto isso, eles não faziam nada”, relata.

Segundo o prefeito, os contatos presenciais do casal cessaram no final de julho de 2017, período que coincide com a chegada da investigação iniciada pela Derccap ao Ministério Público de Campinorte. “Pararam apenas as reuniões presenciais, mas ainda recebo recado deles por meio de terceiros que não vou citar o nome para a própria segurança deles (sic)”.

Origem da extorsão

O caso, segundo o prefeito, era uma tentativa de dar continuidade à extorsão iniciada ainda no mandato de Oildo Silveira Machado (PP), que assumiu as funções em 2013, e passou a ser extorquido nove meses após o início do mandato, segundo Borges. “Eles pressionaram Oildo, que acabou cedendo. Criou-se um círculo vicioso e a tentativa deles era de manter esse ciclo ativo na minha gestão, mas não deu certo”.

Eleito para assumir a prefeitura em janeiro de 2017, Borges foi alertado pelo precedente sobre as intenções do casal. “Logo que eu venci, Oildo abriu o jogo. “Disse que eles queriam dinheiro e que obtinham R$ 25 mensais, mais o aluguel de um carro, todo mês”. O dinheiro, segundo o atual prefeito, era obtido por meio de notas frias em contratos celebrados entre o município e fornecedores.

“Isso inviabilizou a gestão dele. Ele disse que ela não o deixava administrar. Entrou com processos para impugnar a candidatura dele e disse que ia tomar mais medidas para complicar a gestão caso ele não concordasse. Avisei a ele, no entanto, que eu não iria entrar nessa. Se fizesse isso, ia virar um prefeito nada”, revela.

Luiz afirma que, ao ceder a um esquema semelhante, o prefeito perde o controle da administração pública e se torna um refém da parlamentar. “Foi o que aconteceu com Oildo. Como que se viabiliza um recurso desses. Tem que arrumar nota e se enrolar em tanta ilegalidade”.

Reputação em cheque

Em entrevista realizada na quarta-feira (28/2), Lauanda, que realiza publicações frequentes sobre sua atuação no município, revelou que cumpre apenas a sua função: “legislar e fiscalizar”. “Quando existe gasto de dinheiro público, procuro saber para onde foi esse dinheiro. Faço ofício solicitando à prefeitura que me encaminhe as respostas. Entendo que me negar uma resposta é uma forma de tentar prejudicar a legislatura do vereador, levando-me a acreditar que alguma coisa de errada tem”.

Ela continua. “Minha atuação é difícil porque me oponho ao mau uso do dinheiro público e contra possíveis atos de corrupção com verba pública. Como todo político, a gente é elogiada por uns e criticada por outros. Incomodo muita gente ligada ao Executivo. Já recebi até ameaças, vivo num risco permanente”.

Nesse momento, a reportagem questionou a vereadora sobre o conteúdo dos referidos áudios e sobre a denúncia do prefeito, que a acusa de extorsão. No entanto, a parlamentar afirmou que não tinha entendido a pergunta e, em seguida, a ligação foi finalizada. Em mensagens pelo Whatsapp, ela afirma que estava em uma fazenda. “Estou na roça. Não tem sinal. Estrada”, disse, embora estivesse conectada à internet para enviar o conteúdo. O Mais Goiás deixa registrado que a qualidade da ligação estava normal até o momento em que a pergunta foi feita.

Conversa entre repórter e Lauanda na versão desktop do Whatsapp

Mais tarde, no mesmo dia, o Portal apurou que Lauanda estava com o marido em uma delegacia, registrando uma ocorrência. Quem atendeu o telefone foi Rogêrio, que ficou nervoso com o fato de este repórter perguntar qual era o motivo de estarem em uma delegacia. “Não te interessa. Não te interessa. Quem tem que saber da minha vida e da minha muié sou eu, não é você não. Liga mais tarde que ela te responde (sic)”, e desligou.

Ainda na quarta, diversas tentativas de contato foram feitas, via telefone e via mensagem, mas a reportagem foi ignorada. No entanto, o Mais Goiás apurou que, paralelamente, a vereadora estava ativa em grupos de whatsapp da cidade, onde já adiantava a sua defesa. Veja a mensagem publicada por ela no grupo Eu Amo Alto Horizonte:

Em uma nova tentativa de conversa com a vereadora, por meio do aplicativo, nesta quinta-feira (1°), o Mais Goiás enviou perguntas sobre o caso. Depois de quase 50 minutos, a parlamentar respondeu . “Então senhor falou de áudios senhor pode estar me mandando eles? Preciso saber do que se trata pois tivemos sim em maio de 2017 um plano de pegar ele entregando propina onde existia várias pessoas idôneas que estavam a par mais ele soube antes e acabou não se concretizando. Agradeço se puder me mandar áudios para saber do que se trata (sic)”.

A redação afirmou que ela teria acesso aos áudios apenas quando a matéria for publicada. Mais de uma hora depois, Lauanda responde:

“Ele [Luiz Borges] certamente também deveria estar armando para mim e se fosse verdade que eu estava extorquindo ele garanto que ele teria levado qualquer valor e me prendido em flagrante, estranho isso ser citado agora após tantos meses e depois de tantos MS e denúncias que faço face administração dele. Aguardo áudios e lhe respondo mediante eles”, conclui.