Operação Carne Fraca

Ex-superintendente diz que foi indicado por Jovair, mas nega atuação partidária

Parlamentar, contudo, negou ter conhecimento da promessa do chefe do Sipoa em Goiás, Dinis Lourenço da Silva, de ajudar em auditoria de uma planta da BRF no Estado

Brasil

Estadao Conteúdo
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Do Estadao Conteúdo | Em: 27/03/2017 às 15:04:15

Deputado federal faria parte de esquema de propinas.
(Foto: Gustavo Lima / Câmara dos Deputados)
Deputado federal faria parte de esquema de propinas. (Foto: Gustavo Lima / Câmara dos Deputados)

m depoimento à Polícia Federal na Operação Carne Fraca, o ex-superintendente do Ministério da Agricultura em Goiás, Julio Cesar Carneiro confirmou ter sido indicado ao cargo pelo deputado federal Jovair Arantes (PTB-GO). Ele, contudo, negou ter conhecimento da promessa do chefe do Serviço de Inspeção de Produtos de Origem Animal (Sipoa) em Goiás, Dinis Lourenço da Silva, de “matar no peito” uma auditoria envolvendo uma planta da BRF no Estado em troca de apoio ao partido do deputado.

Carneiro afirmou à PF que foi o responsável por nomear Dinis ao cargo no Sipoa, mas ao ser questionado sobre os grampos em que o gerente de Relações Institucionais e Governamentais da BRF Roney Nogueira dos Santos afirma que Dinis teria prometido “matar no peito” uma auditoria que havia determinado a suspensão da planta da empresa em Mineiros (GO), Carneiro disse que só Dinis poderia explicar isso.

“Que quem pode explicar essa afirmação é Dinis, pois se assim agiu foi sem o consentimento do declarante”, afirmou. No grampo, Roney diz ainda que Dinis teria pedido apoio da empresa para candidatos do “PDT” nas eleições municipais de 2016 e até R$ 300 mil para um homem que seria responsável por manter Dinis em Goiânia. Apesar de citar o PDT, posteriormente Roney cita o nome de Jovair Arantes, que é do PTB.

O diálogo de Roney que cita Jovair Arantes:

“- Roney: [explica o que Dinis disse] O que eu vou propor? Vamos suspender a certificação só do preparado e que eu vou dar um prazo para vocês se adequarem e eu vou fazer uma nova auditoria, para ver se deu certo.

HNI [Interlocutor não identificado]: Tá bom, tá ótimo.

– Roney: Aí eu peguei e falei: Tá bom, se for isso, eu concordo também. Mas aí o que vai ser o pagamento, entendeu? Aí ele pegou: ‘Pois é, preciso do apoio de vocês, você sabe que a gente ali do Ministério é por indicação partidária e quem coloca nós aqui no Ministério, que mantém a gente no cargo, é o pessoal do PDT e o nosso deputado aqui, que trabalha junto, é o Jovair Arantes, e aí eu preciso do apoio de vocês na campanha eleitoral municipal’.”

A PF questionou a Carneiro, então, se ele tinha que repassar recursos ao PTB em troca de sua indicação para o cargo. “Que nunca ouviu falar nisso, e que se lhe solicitassem tal coisa entregaria seu cargo na mesma hora”, afirmou o ex-superintendente.

Ele admitiu, porém, que deposita 2% de seu salário na conta do PTB. Como se trata de uma doação dele mesmo, que é filiado à sigla, ao partido, a prática não é ilegal. Procurado, o diretório regional do PTB em Goiás confirmou que cobra a contribuição de seus filiados, conforme prevê a lei.

Em seu depoimento, Carneiro afirmou ainda que não conhece nem nunca se encontrou com Roney, que não decidiu o processo de habilitação da planta da BRF em Mineiros e que só caberia ao Ministério da Agricultura em Brasília habilitar ou não a unidade. “Que não sabe dizer qual a consequência para a Unidade da BRF em Mineiros caso houvesse a suspensão da certificação e não a suspensão da habilitação”, segue Carneiro em seu depoimento.

Dinis foi preso preventivamente na Carne Fraca e Julio Cesar Carneiro foi alvo de mandado de condução coercitiva e depôs na Superintendência da PF em Goiás. Com a operação, Carneiro foi afastado do cargo.

Ao todo, 37 pessoas foram presas na Carne Fraca, deflagrada no dia 17. Do total, 11 com temporária, quando a detenção vale por 5 dias, prorrogáveis por mais 5. Na terça-feira (21), o juiz Marcos Josegrei, responsável pela Operação, mandou soltar oito dos alvos que estavam nesta condição e prorrogou por mais cinco dias a ordem de reclusão contra Rafael Nojiri Gonçalves, Antonio Garcez Junior e Brandizio Dario Junior.