TRANSIÇÃO

Ex-atletas consagrados buscam postos de comando na política esportiva

Nomes como Serginho, Magic Paula e Lars Grael fazem migração para o universo dos dirigentes esportivos


Alexandre Bittencourt
Do Mais Goiás | Em: 07/01/2021 às 08:02:52

Serginho, que foi líbero da seleção brasileira de vôlei (Foto: Divulgação)
Serginho, que foi líbero da seleção brasileira de vôlei (Foto: Divulgação)

Com protagonismo crescente na política esportiva brasileira, o time de ex-atletas ocupantes de cargos executivos em entidades de alto escalão poderá ganhar dois reforços de peso neste início de ano.

O ex-líbero Serginho, 45, ouro nos Jogos de Atenas-2004 e do Rio-2016, concorre à vice-presidência da Confederação Brasileira de Voleibol (CBV) na chapa de oposição encabeçada pelo empresário Marco Túlio Teixeira. O pleito está marcado para domingo (10).

Magic Paula, 58, prata em Atlanta-1996 e campeã mundial em 1994, também disputa o cargo de vice, mas na chapa de situação de Guy Peixoto, que tentará a reeleição na Confederação Brasileira de Basquete (CBB) em fevereiro.

É a continuidade de um ano de 2020 marcado por fatos simbólicos a respeito do envolvimento de tarimbados ex-atletas no ambiente político do esporte nacional.

Em outubro, o ex-jogador de vôlei de praia Emanuel Rego, candidato de oposição à vice-presidência do Comitê Olímpico do Brasil (COB), entrou em atrito com boa parte da comissão de atletas da entidade. Mais tarde, os votos desse grupo foram decisivos para derrotar a chapa de Emanuel na eleição para presidente do comitê e manter Paulo Wanderley no cargo.

Para quem é uma das referências na participação política mesmo não tendo parado de competir, são vários os sinais de que os atletas e ex-atletas querem tomar as rédeas da gestão esportiva.

“O esporte brasileiro ficou às vísceras quando terminou o processo da Rio-2016, que se misturou com problemas do país, a Lava Jato… então, atleta ainda tem medo de se associar àquilo, não quer ter o rótulo de cartola”, afirma o velejador Lars Grael, duas vezes bronze olímpico. “Mas existe agora um sentimento de empoderamento. Que o atleta, sim, pode decidir o destino da sua entidade.”

Lars, 56, já foi secretário nacional do esporte, ajudou a fundar a Comissão Nacional de Atletas e a organização Atletas pelo Brasil, além de ter assumido vários cargos de gestão esportiva, dentro e fora de sua modalidade.

Ele entende que o processo atual de maior envolvimento começa com a obrigatoriedade de que as confederações de cada modalidade tenham conselhos compostos por atletas –o que passou a vigorar desde de uma alteração na Lei Pelé em 2014, que colocou tal estrutura como condição para o recebimento de dinheiro público.

“Todo o mundo deve sentir essa responsabilidade para com a atividade que atua. No seu esporte, em algum momento, o institucional vai afetar sua carreira. Se você não se insere, está só como passageiro. Os cartolas vão dizer que não é lugar do atleta, mas ao contrário, é justamente o lugar do atleta”, concorda Bob Burnquist, 44, que compara a participação política a um dever cívico.

Maior medalhista da história dos X-Games, ele assumiu a presidência da Confederação Brasileira de Skate (CBSk) durante o processo de entrada da modalidade nos Jogos Olímpicos e teve papel fundamental para regularizar a situação da entidade junto ao COB.

Sem remuneração na confederação, ele deixou o cargo antes do fim do mandato para se voltar a projetos pessoais. Agora, integra o conselho do skate nacional.

Bob e Lars não chegam a discordar, mas, quando questionados sobre como superar o obstáculo que é para o atleta não ter experiência em gestão, o skatista afirma que o mais importante é estar rodeado das pessoas certas, enquanto o velejador defende a preparação por meio de cursos específicos.

Magic Paula parece seguir um caminho entre os citados pelo skatista e pelo velejador. Formada em gestão esportiva pela FGV, também soma dez anos como diretora do Centro Olímpico, em São Paulo, além de ter comandado por anos o instituto Passe de Mágica, que encerrou as atividades no fim de 2020.

“Vejo que é muito a forma como eu jogava, sempre gostei de pôr todo mundo para jogar. Eu delego, gosto de ter quem eu confio ao meu lado”, afirma a ex-amadora. Ela ainda defende que não adianta tentar gerir apenas com o aprendizado de jogadora.

“Você tem que se preparar para uma posição como essa [vice-presidência], não pode simplesmente usar o que viveu na quadra. Eu tinha que definir tudo em 30 segundos [atualmente são 24 segundos de posse de bola], e numa gestão as coisas não podem ser assim”, completa. Se eleita, ela também deve assumir a direção do basquete feminino na confederação.

Serginho encerrou a carreira de jogador com a chegada da pandemia, mas disse que já preparava a despedida havia muitos anos. Não esconde que não tem conhecimento específico da área, mas aceitou participar do que chama de gestão compartilhada, na qual pretende ser a voz dos atletas, se for eleito.

“É a mesma coisa que colocar um cartola em quadra. Se você pegar um atleta despreparado, pedir pra ele tomar decisões, ele vai ter dificuldades”, afirma o ex-líbero.

E se houver um desentendimento entre um atleta e a confederação, como no caso da jogadora de vôlei de praia Carol Solberg, levada a julgamento pela Justiça desportiva após protestar contra o presidente Jair Bolsonaro? Serginho entende que é aí que entrará a sua capacidade de diálogo entre as partes.

“Todos têm liberdade de expressão. Na minha opinião, acho que foi o momento errado [para protestar], mas é a minha opinião. Houve situações de outros jogadores [da seleção de vôlei] que fizeram o 17 [em referência ao então candidato à Presidência] e a confederação tomou outra medida com eles. Foram dois pesos e duas medidas”, opina.

Magic Paula também afirma que teria lidado com o caso de Carol Solberg de forma diferente. Ela comemora quando atletas se posicionam e diz que isso mostra que o esporte está deixando os “tempos da mordaça”.

As diferentes visões do episódio ilustram a chance de que uma maior participação dos esportistas na gestão poderia levar a desfechos distintos. Isso porque, entendem os atletas e ex-atletas, há benefícios no gerenciamento quando se é alguém que conhece a modalidade por dentro.

“É preciso aproveitar o conhecimento da prática esportiva, a capacidade de liderança, de inspirar jovens e emprestar o conhecimento à gestão”, diz Lars Grael. “Mas nem sempre o mais laureado [esportivamente] tem que ser o gestor, porque aí envolve a capacitação. Não adianta ser líder esportivo e admirado pelos feitos se não tem capacidade de gestão, e existe o risco de se cair nos erros do passado.”

Bob Burnquist dá um exemplo prático de como as pistas o ajudaram na presidência. “Montamos uma seleção brasileira [de skate], uma retaguarda que eu nunca tive como skatista, com viagens pagas, nutrição, hotel, mensalidade, bolsa atleta… um leque de coisas que eu não tive e fiquei feliz de providenciar para essa geração.”

Todos alertam para o risco de que atletas, sem a devida preparação, possam acabar usados por grupos políticos tradicionais para permanecer no poder. Ou mesmo para evitar que polêmicas do trabalho burocrático manchem uma carreira consolidada no esporte.

“O fato simplesmente de a gente ter uma comissão de atletas, por exemplo, não se traduz em efetividade. Quanto ela é isenta? Quanto anda com as próprias pernas? Não adianta ter uma comissão que abaixa a cabeça para as coisas”, critica Magic Paula, que se diz decepcionada com muitos dos coletivos pelos quais passou.

“Essa massa de atletas tem por obrigação se unir em prol dos seus direitos. No vôlei, quando faz ponto, todo mundo não toca na mão do outro? Tem que fazer isso fora da quadra também”, finaliza Serginho.