"O senhor trabalhou?"

Entregador é humilhado em condomínio de luxo de SP; vídeo viraliza

Matheus Pires tem 19 anos, é motorista de aplicativo e sofreu injúrias raciais no último dia 31


Rayana Caetano
Do Mais Goiás | Em: 07/08/2020 às 20:18:58

(Foto: Reprodução)
(Foto: Reprodução)

Um vídeo que circulou nas redes sociais nesta sexta-feira (7) causou comoção (e revolta) nacional. Nele, um motoboy entregador de aplicativo é humilhado e vítima de injúria racial por parte do morador de um condomínio fechado, em São Paulo.

Matheus Pires tem 19 anos, é de Valinhos, cidade do interior paulista, e foi agredido no último dia 31 enquanto entregava uma refeição solicitada via aplicativo. Segundo ele, o agressor começou a ofendê-lo a partir do momento em que ele comentou, em tom de brincadeira, que outros entregadores não falavam bem do cliente em questão. “No que eu cheguei, fiz um comentário que ele não gostou. Falei que os motoboys estavam falando mal dele. Falei num tom de brincadeira, mas ele não gostou”, compartilhou.

A partir daí começaram as agressões, que não se resumiram a palavras. Ainda conforme Matheus, o vídeo que viralizou não mostra, mas Mateus Abreu Almeida Prado Couto cuspiu em seu rosto. “Quando começaram as atitudes [gravadas no vídeo], os vizinhos vieram para fora. Ele ficou puto. Tanto que ele cuspiu em mim, imitou macaco, falou que eu era macaco”, detalhou.

O agressor também disse que o entregador tem “inveja” de sua cor e sua casa e o chamou de semianalfabeto. Matheus chamou a polícia e esperou pela viatura, enquanto o cliente seguia com as ofensas.

A vítima disse ainda que o não encaminhou o vídeo a ninguém. Segundo ele, os próprios moradores do condomínio ouviram a gritaria, saíram de suas casas, gravaram e divulgaram as imagens.

“Justificativa”

O delegado responsável pelo caso comunicou que recebera laudos médicos que comprovam que o agressor Mateus Abreu Almeida Prado Couto tem problemas mentais. O argumento foi apresentado pela mãe, advogada, que afirmou que o filho sofre de esquizofrenia.

Segundo o jornalista da Record Reinaldo Gottino, “o racista que humilha o entregador em Valinhos (…) vive dirigindo pra cima e pra baixo e humilha pessoas em lugares públicos e restaurantes. Se recusa a usar máscara. Tem dois carros que foram dados pelo pai”, informou via Twitter.

Com direito a moto nova

O jovem não para de ganhar seguidores no Instagram. Sua conta já ultrapassa os 600 mil seguidores que, em sua maioria, demonstram solidariedade das mais diversas formas, como com mensagens, publicações e vídeos.

Celebridades também se sensibilizaram com o caso. O apresentador Luciano Huck entrevistou Matheus, via videoconferência, e prometeu ajudar com a moto do rapaz ao saber que estava trabalhando com a do pai, pois a sua estava estragada.

Já o humorista Matheus Ceará encontrou o xará ainda na tarde desta sexta-feira e o presenteou com uma moto 0 km. “Não quero saber o que houve, mas o vídeo me sensibilizou e me identifiquei”, justificou.

A funkeira Anitta publicou em seus stories uma imagem do vídeo ressaltando a fala do entregador ao agressor: “Mas foi seu pai que te deu ou você trabalhou?”. Já Marília Mendonça rebateu as afirmações sobre os problemas mentais de Prado Couto.  “Todo racista tem problema mental e de caráter, não é por isso que ele não tenha que pagar”, escreveu a sertaneja.

Justiça

Em entrevista ao Metrópoles, Matheus contou que muitas pessoas estão se dispondo a defendê-lo judicialmente. “Tem bastante advogado querendo entrar [no processo]. Consegui uma advogada que mora no condomínio que será testemunha, porque ela viu”, disse.

Via Twitter, o iFood, aplicativo para o qual o entregar trabalha, informou que oferecerá apoio jurídico e psicológico. “Racismo é crime. Nós, do iFood, condenamos qualquer forma de preconceito ou discriminação e por isso nos solidarizamos com o entregador Matheus, vítima do crime racial praticado por um consumidor na cidade de Valinhos, conforme vídeo que circula nas redes sociais. O iFood descadastrou o usuário agressor da plataforma e oferecerá à vítima apoio jurídico e psicológico”, escreveu.

Advogados ouvidos pelo Mais Goiás disseram que trata-se de de um caso de injúria racial tipificado no Código Penal, no artigo 140 § 3º, podendo ser aplicada pena de reclusão de um a três anos e multa. Pode ser gerada, ainda, compensação por danos danos morais.

Já aconteceu antes

Ainda em entrevista aos diversos veículos aos quais concedeu entrevista, o motoboy revelou não ter sido a primeira vez que sofrera agressão verbal por parte de Mateus Prado. “Eu já tinha pegado outra corrida na casa dele, e eu não achava o endereço e me chamou de burro, porque eu não tinha achado o endereço”, relembrou, comentando que outros colegas de aplicativo também foram humilhados pelo cliente.

“Então, [os motoboys] falavam que ele era folgado, tratava eles com desrespeito. Então, como é uma classe bem unida, a gente conversa entre si, tem grupo de WhatsApp e gente sabe quem são os clientes mais chatos”, relatou.

Assista ao vídeo completo: