Crítica

Emperor of Sand: provavelmente o melhor disco de rock do ano

Sétimo álbum de estúdio do Mastodon consegue reunir o velho e o novo em um casamento perfeito

Entretenimento

Jose Abrão
Do Mais Goiás | Em: 02/04/2017 às 09:35:37

(Divulgação)
(Divulgação)

A Mastodon é uma das minhas bandas favoritas e que ao longo dos últimos 12 anos rompeu a barreira do anonimato e do circuito independente para se tornar um dos principais nomes mainstream do bom e velho rock pauleira.

Porém, nesta trajetória ela também dividiu os fãs. Os mais puristas falam que a banda passou por um processo de “metallicalização”: para eles, os quatro primeiros discos da banda são mais sonoros, crus e criativos enquanto criticam os dois últimos por serem mais comerciais.

Já a outra metade dos fãs, como eu, gosta de tudo, mas observa silenciosamente as transformações do grupo, receoso de que o caminho mais comercial possa prejudicar a banda.

Enfim, chegamos à Emperor of Sand, sétimo álbum de estúdio do Mastodon, lançado digitalmente, em CD e em vinil na sexta-feira (31). Posso dizer, com facilidade, que este provavelmente será o melhor disco de rock e metal do ano e que conseguiu casar com maestria todas as fases e sonoridades da banda.

Para os puristas, é melhor ainda: apenas uma faixa das 11 que compõem o álbum traz uma assinatura mais comercial e leve. Se trata do primeiro single do disco, ‘Show Yourself’, que inclusive já ganhou um clipe genial. A música é leve, rápida e chiclete, com um som que lembra muito mais um Queens of the Stone Age do que o Mastodon em si.

Ela é a única do álbum assim, com uma pegada mais próxima de The Hunter e Once More ‘Round the Sun, últimos discos da banda. Ao longo dos anos, a Mastodon ficou conhecida por conseguir unir dois estilos peculiares de rock: o trash metal, estilo conhecido por nomes como Metallica, Slayer e Pantera, com o progressivo, de Rush, Pink Floyd e Jethro Tull.

Este lado progressivo, muito forte nos discos Blood Mountain e Crack The Skye, também estavam meio suprimidos nos álbuns mais recentes e, assim como o lado mais trash, são igualmente resgatados em Emperor of Sand.

Mas o que diabos é Emperor of Sand? Bom, pra variar, este é mais um álbum conceitual. Suas onze faixas narram a história de um andarilho do deserto que é condenado a atravessar as dunas escaladantes após ser sentenciado a morrer no deserto.

As letras sobre sua luta e dificuldade são, na verdade, metáforas sutis sobre a luta contra o câncer: o disco foi composto enquanto um parente próximo de um dos membros da banda enfrentava e por fim morria de um câncer bastante agressivo. A resposta da banda foi transformar todo este luto e sofrimento em um disco poderosíssimo.

Das 11 canções, algumas passam batidas, como Precious Stones e Clandestiny, mas a maior parte traz características marcantes para ficar na memória.

Sonoramente, apesar do trash e do prog terem sido resgatados, a força do álbum está em suas guitarras duplas com solos únicos e na constante presença vocal dos quatro vocalistas (sim, a banda inteira canta intermitentemente) criando uma linha de voz mista muito interessante.

Entre as faixas, vale destacar inicialmente ‘Sultan’s Curse’. Ela abre o disco e é uma das mais trashes do álbum, bem porrada e com riffs inspirados. Na sequência temos ‘Roots Remain’. A canção de quase sete minutos, juntamente como ‘Ancient Kingdom’, são as mais progressivas do álbum, em que dá pra sentir a vibe Pink Floyd querendo vir à superfície.

Por fim, vale destacar as duas últimas faixas, ‘Scorpion Breath’e ‘Jaguar God’. A primeira faz dupla com ‘Sultan’s Curse’: é curta, agressiva e no pé da orelha e parece uma forma muito boa de encerrar o lado mais metal do disco.

Já ‘Jaguar God’ é incrível. Talvez a melhor música do disco: além de encerrar Emperor of Sand, esta faixa de oito minutos é uma verdadeira salada mista de estilos. Todo o trash, o stoner, o sludge e o progressivo de doze anos de carreira desaguam aqui na que é, de longe, a faixa mais inspirada de todas as onze.

Para não falar que não teve críticas, aqui tem uma: pela primeira vez em sete discos, esta é a primeira vez que não gostei da arte de capa da banda.

A Mastodon é conhecida por sempre ter tido artes incríveis, mas essa parece sem graça. O visual parece muito próximo do metal conhecido, é clichê e batido. Caveiras e desertos? É algo bem Conan e que não tem incrível impacto visual das artes anteriores.

Enfim, o Mastodon foi bem-sucedido de novo: o quarteto de Atlanta acaba de entregar o que provavelmente será o melhor álbum de rock do ano com riffs inspirados, letras e vocais únicos e uma variedade incrível de estilos.