Agência O Globo

Em crise e por sobrevivência, clã Sarney se aproxima do bolsonarismo

Ex-presidente já criticou Bolsonaro, mas grupo político se alia a defensores do presidente por agenda comum na eleição e oposição a Flávio Dino

Um dos clãs mais longevos e notórios da política brasileira, os Sarney veem boa parte de seus aliados históricos flertando com o bolsonarismo no Maranhão, tendência que deve ficar mais evidente nas eleições deste ano. O alinhamento com o presidente Jair Bolsonaro é a estratégia para aumentar a polarização com o governador Flávio Dino (PCdoB) e frear o crescimento político que ele teve nos últimos anos.

Pela primeira vez em anos, apenas um integrante da família Sarney tem mandato. Deputado estadual e filho do ex-ministro Sarney Filho, Adriano Sarney (PV) abandonou em público o sobrenome famoso, fato que teria causado certa decepção entre familiares — politicamente, usa apenas Adriano. Ele é um dos nomes cogitados para concorrer à prefeitura de São Luís, mas adversários dizem que uma derrota poderia colocar de vez uma pá de cal na carreira política da família.

Um dos nomes mais fortes do grupo é o do deputado federal Eduardo Braide (Pode-MA). A articulação é para que haja uma única candidatura de oposição ao cargo, para impedir a vitória de um político alinhado ao governador. O parlamentar avança na base bolsonarista e no segmento evangélico. Um de seus principais aliados, o também deputado federal Pastor Gildenemyr (PL-MA), é um dos maiores apoiadores do presidente no estado.

O alinhamento do grupo de Sarney com Bolsonaro começou com um gesto da própria família. Em 2018, Sarney Filho, Adriano e a ex-governadora Roseana Sarney apoiaram Bolsonaro no segundo turno. Adriano usa palavras comuns aos bolsonaristas, como “comunistas”, para se referir aos adversários, repetindo discurso já feito pela família para definir Dino. No dia 7 de Setembro, postou uma imagem em que havia bandeira do Brasil com a hashtag #NordesteSemEsquerda.

Os acenos na eleição de 2018 pouco lembram o passado em que a família apoiou as gestões petistas de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff na Presidência. A relação era tão consolidada que Lula impôs ao PT o apoio a Roseana na briga pelo governo do estado em 2014, contra Dino, do PCdoB, aliado histórico dos petistas. Além disso, em 2009, após intervenção direta do Palácio do Planalto, os senadores petistas deram os votos necessários para arquivar todos os processos no Conselho de Ética contra Sarney, então presidente do Senado.

Longe quando necessário

Para um político maranhense, opositores do governador se aproximaram do bolsonarismo porque a figura de Dino se tornou muito forte. Segundo esta análise, como o presidente não tem um representante no estado, os eleitores dele ficaram sem um direcionamento claro. “Sarneyzistas históricos passaram a tentar buscar este espaço. No interior, tiveram que aderir ao bolsonarismo para polarizar com Flávio Dino e com o ‘comunismo’”, avaliou.

Os adversários dizem que, embora os aliados de Sarney flertem com o bolsonarismo, procuram manter distância quando alguma atitude do presidente tem repercussão negativa. Sarney já criticou Bolsonaro quando, em nota, afirmou que “sem a vida humana nada se compra nem se vende”, numa referência à defesa do presidente da abertura do comércio em meio à pandemia de coronavírus. Atual secretário do Meio Ambiente do Distrito Federal, Sarney Filho já disse que o governo federal facilita o desmatamento.

Além de estarem espremidos entre o bolsonarismo e Dino, os Sarney perderam aliados que pularam para o lado do governador, como o ex-ministro Gastão Vieira. Dino foi eleito com uma aliança de 16 partidos e tem hoje a maioria dos prefeitos ao seu lado. Seu candidato ao comando da capital deve ser seu ex-secretário Rubens Junior (PCdoB).

Ainda que sem a força de antes, os membros da família seguem atuantes nos bastidores. Roseana tem atendido muitos partidos e pré-candidatos. Além da possibilidade de Adriano concorrer em São Luís, o DNA dos Sarney deve estar presente na disputa em duas cidades. Em Pinheiro, o sobrinho-neto e afilhado de batismo do patriarca, Filuca Mendes (MDB), que já governou a cidade, deve tentar um novo mandato. Em Barreirinhas, o prefeito Albérico Filho, primo de José Sarney, concorrerá à reeleição. Em Imperatriz, segunda maior cidade do estado, o atual prefeito, Assis Ramos, tem o apoio dos Sarney para a reeleição.